Bem Vindo ao site Poconé On Line o Portal Internacional do Pantanal. email luisfernando@poconeonline.com
Poconé - MT, 21 de Maio de 2018, 08h48   |   Tempo: Mín. ºC | Máx. ºC
Facebook WhatsApp
(65) 9998-1070

Ser "gay" não é doença há 28 anos para a OMS, mas homofobia ainda mata e agride

43 visualizações

Vinícius Lemos

 

Há 28 anos, nesta mesma data, a homossexualidade é retirada da lista de doenças da Organização Mundial de Saúde (OMS). Desde então, alguns discretos avanços são percebidos pela comunidade LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais). O preconceito, porém, permanece na sociedade brasileira e crimes motivados por homofobia são recorrentes.

Assassinatos motivados por homofobia já foram oito este ano em Mato Grosso, sendo três suicídios. Ano passado, 14 homicídios e em 2016, 9. No Brasil,l de 2008 a 2017, o somatório é de 445 gays mortos. A média é de um LGBT a cada 20h.

Gilberto Leite

parada gay_gilberto leite (16).jpg

População LGBT faz, anualmente, paradas da diversidade sexual, em diversas capitais e cidades de referência, para pedir respeito e coibir atos homofóbicos

Mário Okamura

quadro avanços

 Casamento gay é uma das conquistas. Já a legislação retrógrada não agrada militantes

Data em que a homossexualidade deixou oficialmente de ser doença, isso em 1990, o 17 de Maio é o Dia Internacional de Luta contra a Homofobia.

O psicólogo Gabriel Henrique Figueiredo, membro do grupo Livremente, explica que o preconceito contra a homossexualidade existe há séculos. “Nos primeiros registros históricos que temos, a história da homossexualidade era relacionada à sodomia, ao pecado. Depois, passou a ser considerada perversão. Posteriormente, passou a ser administrada pela psiquiatria e pela psicologia”, detalha.

O sexólogo Richard Von Krafft-Ebing mencionou, em 1886, em sua obra “Psychopathia Sexualis” que a homossexualidade era causada por uma espécie de “inversão congênita”, que supostamente era adquirida pelo indivíduo durante o nascimento.

Gilberto Leite/Rdnews

Gabriel Henrique Figueiredo, presidente da Ong Livre Mente, organizadora do evento.JPG

Homofobia é histórica informa Gabriel Henrique, presidente da Ong Livremente, precursora na luta contra ofensas e outras violências em MT

Quase um século depois, em 1952, a Associação Americana de Psiquiatria desconsiderou a homossexualidade como uma desordem, pois diversos profissionais não conseguiram comprovar que se tratava de um distúrbio mental. Em 1975, a Associação Americana de Psicologia também deixou de considerar a homossexualidade como doença.

“Eles foram descobrindo que tudo aquilo que era considerado sintoma era produto de uma sociedade homofóbica”, explica Figueiredo.

Mesmo com a desclassificação da homossexualidade como doença por psicólogos e psiquiatras, a OMS a incluiu em sua lista de doenças mentais em 1977. A partir de 1982, diversos países passaram a desclassificar a prática como uma desordem. 

Somente em 1990 a OMS também decidiu seguir os demais estudos e passou a desconsiderar a homossexualidade como uma doença. Para aqueles que lutam pelo fim do preconceito, o fato representou apenas um capítulo em meio a tantos outros que ainda precisam acontecer.

Mário Okamura

violências arte

 Pessoas que não são heterossexuais sofrem várias formas de agressão

“A desconsideração da homossexualidade como doença derrubou parte das crenças relacionadas ao assunto. Isso também diminuiu o sofrimento e a culpa dos homossexuais, que antes se sentiam pertencentes a um grupo doente”, pontua Figueiredo.

“A homossexualidade sai do rol de doenças e passa a ter legitimidade, passa a ser reconhecida socialmente. Isso impactou no enfrentamento ao preconceito”, acrescenta.

A homossexualidade sai do rol de doenças e passa a ter legitimidade, passa a ser reconhecida socialmente

Homofobia

Apesar da retirada da lista de doenças, o preconceito permaneceu. Conforme o do Grupo Estadual de Combate ao Crime de Homofobia (GECCH), da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp), neste ano já foram contabilizadas oito mortes motivadas por homofobia, em Mato Grosso. Três delas foram suicídios. No ano passado, foram 14 homicídios motivados pelo preconceito e em 2016 foram nove.

Mário Okamura

arte perfil LGBT

 

O secretário do GECCH, major Ricardo Bueno de Jesus, a maioria dos casos acontece no âmbito familiar e muitos sequer chegam ao conhecimento de órgãos de segurança. “É muito importante registrar a ocorrência ou denunciar qualquer caso relacionado, para nós acompanharmos e prestar a assistência necessária. É preciso ampliar a consciência de que a única coisa errada é o preconceito”, diz.

Segundo o Grupo Gay da Bahia, de 2008 a 2017 aconteceram 445 assassinatos de gays, travestis ou transgêneros em todo o Brasil. Conforme a entidade, um LGBT morreu a cada 20 horas por motivação homotransfóbica, em todo o País.

Para o psicólogo Gabriel Figueiredo, um dos fatos que colabora paraque os crimes contra gays continuem sendo constantes é a não-criminalização da homofobia. Não há, na legislação, nenhum trecho que tipifique como crime o ataque relacionado a homossexuais. 

“Não existe a criminalização. Há pouco monitoramento relacionado às mortes motivadas por homofobia”, pontua.

Conforme a Sesp, os casos de homofobia podem ser denunciados pelos Disques 100 ou 190 – da Polícia Militar – e também no 197 – da Polícia Civil. Os crimes também podem ser relatados pessoalmente, em delegacias de polícia.

Direitos e retrocessos

Nos últimos anos, homossexuais adquiriram direitos à união civil e à adoção. Apesar disso, Figueiredo considera que há muitos pontos que precisam ser melhorados na sociedade em relação ao público LGBT.

“Conseguimos avançar, mas ainda há muito que precisa ser feito. A retirada da homossexualidade da lista de doenças foi fundamental para o enfrentamento ao preconceito, mas é preciso muito mais”, diz.

Mário Okamura

Ocorrências

 Dados atuais da Segurança Pública confirmam grave problema social

Inclusão em campos do boletim de ocorrência

Conseguimos avançar, mas ainda há muito que precisa ser feito

Mato Grosso foi um dos primeiros estados a adotarem campos relacionados à sexualidade nos boletins de ocorrência, a partir de 2016. Entre os meses de janeiro e abril deste ano, foram registradas 33 ocorrências com motivação homofóbica em Mato Grosso. Durante todo o ano de 2017, este número chegou a 114, e em 2016 foram registrados 69 casos desta natureza.

“Esse é um avanço relevante, porque ajudou na identificação dos crimes relacionados à identidade de gênero ou orientação sexual”, aponta Gabriel Figueiredo.