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Vivia praticamente como escrava", relata mato-grossense sobre trabalho infantil

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 Fabiana Mendes

12 Jun 2018 - 08:24

 

Foto: Tribunal Regional do Trabalho (TRT)

Foi com apenas 10 anos de idade, que Eliane Silva saiu de Cuiabá em busca de uma vida melhor numa fazenda, na região de Rosário Oeste (a 129 quilômetros de Cuiabá). Lá, ela ‘trabalhava’ em um serviço feito à custa de muitas ameaças da prima, empregada no local. Hoje, aos 55 anos, ela está em casa. Ao longo da vida desenvolveu depressão e só entendeu a gravidade da doença quando os episódios graves a atingiram.“Eu apanhava quando não estava cuidando dos filhos do patrão ou não estava ajudando nos serviços domésticos”, recorda.

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Em Cuiabá, passou a trabalhar de casa em casa em troca de um lugar para dormir, de roupas, sapatos e de comida, sem nunca receber qualquer salário. Aos 15 anos ainda era analfabeta e só aprendeu a ler e escrever porque uma das famílias com quem morou a matriculou em um programa para alfabetização de adultos.
 
Sem nunca ter se dedicado aos estudos, seu primeiro emprego com carteira assinada foi aos 18 anos, na área que sempre atuou: serviços domésticos.
 
“Eu morava no serviço e não tinha esse negócio de horário para trabalhar”, conta, chegando a dizer que vivia praticamente como uma escrava, trabalhando de dia e também à noite, se preciso fosse.
 
Hoje, aos 55 anos, Eliane está em casa. Ao longo da vida desenvolveu depressão e só entendeu a gravidade da doença quando os episódios graves a atingiram. “Eu não conseguia sair do quarto, não queria tomar banho, nem comer. Faço tratamento e agora estou melhor”.
 
A doença atingiu em cheio a vida de sua filha mais nova Rayane que, ainda com 13 anos, se viu forçada a seguir um caminho parecido com o da mãe: trabalhar desde cedo, também como doméstica e babá. Com o dinheiro que ganhava, a adolescente ajudava a colocar comida na mesa de casa.

Com 18 anos, a jovem ainda leva uma vida simples e continua não apenas cuidando da mãe, como também se transformou na responsável pelo sustento da família, que ainda tem como membro uma irmã mais velha, desempregada. Do pai, existem apenas poucas lembranças dos contatos que teve com ele quando criança.

Apesar das obrigações de uma pessoa adulta, que teve que assumir ainda menina, a jovem conta que não deixou de estudar e sonha em cursar medicina, embora saiba as dificuldades que possui por ter começado a trabalhar tão cedo.

“Sei que terei que estudar bastante até porque, apesar de quase não ter faltado às aulas, reconheço que o trabalho muitas vezes potencializou minha dificuldade em entender algumas disciplinas”, diz.

A história de Eliane e Rayane, mãe e filha, ilustra bem uma das consequências mais cruéis do trabalho infantil: a perpetuação da pobreza e baixa escolaridade em muitas famílias, resultantes do abandono escolar ou mesmo da falta de dedicação aos estudos, cujas consequências só podem ser superadas com muita dificuldade.

As duas fazem parte de uma estatística que rouba o futuro e os sonhos de centenas de brasileirinhos: cerca de um milhão de crianças e adolescentes, na faixa etária de 5 a 17 anos, estão em situação de trabalho infantil. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) de 2016.

De acordo com o Tribunal Regional do Trabalho (TRT), o levantamento, o mais recente divulgado pelo Governo Federal sobre o assunto, foi criticado por especialistas por não incluir 716 mil jovens e crianças que trabalham para o próprio consumo, o que faria o número de casos no país subir para a casa de 1,7 milhão.

Embora exista um comprometimento, feito em 2006, junto à Organização Internacional do Trabalho (OIT), a erradicar nos dez anos seguintes as piores formas de trabalho infantil e a eliminar todas as suas formas até 2020, o compromisso não foi cumprido. Sua execução continua sendo um desafio.

Argumentos que são afastados com um olhar atento para seus resultados, conforme sustenta a secretária executiva do Fórum Estadual de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil (Fepeti), juíza Jaqueline Cherulli. Segundo ela, o trabalho infantil prejudica o aprendizado, aumenta os índices de evasão escolar, traz consequências físicas e psicológicas, além de manter aqueles indivíduos em um ciclo de pobreza difícil de ser quebrado.

A magistrada avalia que a baixa renda e as situações de vulnerabilidade social acabam por empurrar os pequenos para o trabalho precoce. “O importante é quebrar o padrão que vem sendo repetido por gerações e impede que milhares de brasileiros consigam romper com o ciclo de pobreza, o que só pode ser conseguido com informação para a sociedade e educação para os menores”, pondera.
 
A coordenadora dos conselhos tutelares de Cuiabá, Vânia Araújo, conhece de perto a violação dos direitos da criança e dos adolescentes na capital mato-grossense. Apesar da ausência de dados representativos do número de trabalho infantil na região, ela garante que a maior dificuldade é a conscientização das pessoas e a baixa renda das famílias. “Como acabar com o trabalho infantil se a família está passando necessidade?”, questiona.
 
Ela explica que as crianças iniciam o trabalho precoce levadas pela própria família que, por falta de informação ou condições financeiras, não se dá conta do mal que está causando aos próprios filhos. A conselheira esclarece que um combate realmente efetivo passa pela assistência de toda a família e por uma rede de apoio, que deve incluir ações voltadas ao complemento da renda.