Governo do Estado concluiu 23,417 quilômetros de acesso ao Porto São Pedro, em Corumbá, e ergue pista de mil metros por cerca de R$ 13,6 milhões em um ponto que fica a 27 horas de barco da cidade.
Para tirar uma boiada da Fazenda São Camilo até o Porto São Pedro, no Pantanal de Corumbá, o trabalhador rural Ézio Freitas de Almeida, de 48 anos, já gastou três dias. O trajeto era feito pelo rio e, em alguns trechos, homens e animais seguiam dentro da água. Hoje ele diz vencer parte do mesmo percurso em cerca de duas horas de trator.
A diferença veio da estrada de acesso ao Porto São Pedro, concluída pelo Governo de Mato Grosso do Sul: 23,417 quilômetros em revestimento primário, com investimento superior a R$ 53 milhões. No mesmo ponto, o Estado agora constrói um aeródromo público orçado em cerca de R$ 13,6 milhões, com entrega prevista para fevereiro de 2027.
“Antes, para sair da Fazenda São Camilo e chegar ao Porto São Pedro, a gente levava até três dias pelo rio, transportando o gado em lancha ou voadeira. Muitas vezes, era preciso parar no meio do caminho e seguir dentro da água, com muito sacrifício. Nós e os boiadeiros ainda corríamos o risco de ser ferroados por arraias. Já perdi muita boiada aqui”, disse Ézio.
Vinte e sete horas de barco separam o porto de Corumbá
O tamanho do isolamento explica o peso da obra. O Porto São Pedro fica aos pés da Serra do Amolar, a cerca de 120 quilômetros de Corumbá por via fluvial. A viagem de barco entre os dois pontos leva, em média, 27 horas rio acima e 12 horas no sentido contrário.
“O Pantanal é uma área altamente inflamável por causa da vegetação. Como o Porto São Pedro fica às margens do rio, essa região tem a possibilidade de absorver toda uma estrutura das forças de segurança pública para atuar no combate aos incêndios do grande Paiaguás e das áreas de reserva do Pantanal, além de prestar socorro à população pantaneira”, afirmou Armando.
A pista fica pronta antes da próxima temporada de fogo
O calendário da obra conversa com o calendário do fogo. Nesta temporada, Corumbá aparece entre as seis áreas apontadas pelo governo federal como as mais vulneráveis a incêndio no país, e o município registrou em agosto 9% de umidade relativa mínima, o menor índice entre todas as estações de Mato Grosso do Sul. O Pantanal opera sob emergência ambiental federal de abril a dezembro de 2026 e sob decreto estadual de emergência válido até 30 de novembro.
Na região do Porto São Pedro, agosto e setembro concentram baixa umidade, temperatura alta e vento forte, a combinação que espalha o fogo. Com entrega marcada para fevereiro de 2027, a pista chega antes do período crítico do ano que vem, e não do atual.
Quando estiver pronta, a estrutura deve encurtar o deslocamento de brigadistas, equipamentos e insumos e apoiar a operação de aeronaves estaduais e federais no monitoramento e no combate ao fogo. Para o tenente-coronel do Corpo de Bombeiros Militar e presidente do Comitê do Fogo, Leonardo Rodrigues Congro, as primeiras horas de uma ocorrência decidem o tamanho dela.
“Contar com um aeródromo público estadual homologado permitirá operar com eficiência máxima e segurança técnica as nossas aeronaves de combate e monitoramento, bem como integrar com precisão o apoio das aeronaves federais e do Estado de MS”, disse Congro.
Mil metros de pista sob fiscalização da ANAC
O aeródromo terá pista de aproximadamente mil metros e será o primeiro inteiramente público da região. O projeto prevê áreas de apoio para pousos, decolagens e manobras, dentro dos padrões de segurança da aviação civil e sob fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC).
O superintendente de Logística da Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Seilog), Derick Machado, disse que o ponto foi escolhido para reduzir o tempo de resposta em uma das áreas de acesso mais difícil do bioma.
“Uma das missões que o governador nos deu foi a de levar infraestrutura aonde o acesso ainda é o maior desafio. Esse dispositivo representa mais segurança, agilidade e presença do Estado no Pantanal, especialmente em situações emergenciais”, afirmou.
O secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Artur Henrique Leite Falcette, citou a posição em frente à Serra do Amolar. “Estamos erguendo a primeira infraestrutura aérea 100% pública da região. É um marco histórico para a logística de conservação e para a presença do Estado no coração do nosso Pantanal”, afirmou.
O governador Eduardo Riedel (Progressistas) situou a pista no Plano Aeroviário estadual, que prevê a qualificação de aeroportos e aeródromos. “Estamos falando de uma das regiões mais bonitas e também uma das mais isoladas do nosso Estado. Quem vive, trabalha ou precisa de socorro neste local sabe o que significa depender de horas de deslocamento em um território onde cada minuto conta”, afirmou.
O que mudou desde março
A Crítica noticiou o projeto em 19 de março, quando a licitação tinha sido homologada e faltava a ordem de serviço. O prazo informado então era de 300 dias a partir do início dos trabalhos, e o valor era o mesmo de agora, R$ 13,6 milhões. A previsão de fevereiro de 2027 é compatível com uma ordem de serviço assinada por volta de abril deste ano. Na mesma ocasião, o Estado informou estudar um segundo aeródromo na Nhecolândia, com projeto concluído e licenciamento ambiental em andamento.
R$ 478 milhões e mais de 500 quilômetros de estrada no bioma
Entre 2023 e 2025, cerca de R$ 478 milhões foram aplicados na implantação de mais de 500 quilômetros de rodovias em revestimento primário no Pantanal, dentro do programa MS Ativo. São vias que ampliam o acesso a áreas remotas, melhoram o transporte de pessoas e de animais e servem de corredor para equipes e equipamentos em emergências.
O trecho do Porto São Pedro custou mais que a média desse conjunto. A diferença dá a medida da dificuldade de construir em terreno que alaga.
A rotina que já mudou
Ézio transporta gado das fazendas São Camilo, Belém, São Miguel e Ipiranga. No percurso mais longo do trabalho dele, sair às cinco da manhã hoje permite chegar ao porto por volta das cinco da tarde, no mesmo dia.
“Facilitou tudo, inclusive o transporte da boiada. O gado chega mais tranquilo, sem estresse e sem perdas”, disse.
Ele também associa a estrada à chegada das equipes de socorro. “A satisfação do pessoal é total. Estamos chegando muito mais rápido e reduzimos bastante o tempo para embarcar o gado. Também é uma luta para o Corpo de Bombeiros chegar à nossa região e combater os incêndios. Agora, com a estrada e o aeródromo, o transporte será mais rápido e eficaz”, afirmou.
Sobre o efeito da obra no regime das águas no trecho onde vive, ele disse: “As águas continuam fluindo normalmente, sem que a estrada tenha mudado o curso ou prejudicado o nosso ambiente”.
Isonomia eleitoral
A obra é ato do Executivo estadual e vale para qualquer gestão. Como Eduardo Riedel disputa a reeleição, o jornal registra os oito candidatos ao Governo de Mato Grosso do Sul: Eduardo Riedel (Progressistas), Fábio Trad (PT), João Henrique Catan (Novo), Delcídio do Amaral (PRD), Lucien Rezende (PSOL), Daniel Lemes (PCO), Jefferson Bezerra (Agir) e Renato Gomes (DC).
+ Quanto tempo se leva até lá hoje
Porto São Pedro a Corumbá, de barco: cerca de 27 horas rio acima e 12 horas no sentido contrário, conforme relato de moradores ao Governo do Estado.
Fazenda São Luiz, no centro do Paiaguás, até a barranca do rio: cerca de 50 quilômetros.
Fazenda São Camilo ao Porto São Pedro: até três dias pelo rio antes da estrada; cerca de duas horas de trator hoje, segundo o trabalhador rural Ézio Freitas de Almeida.
+ Entenda os termos
Aeródromo: área destinada a pouso e decolagem de aeronaves. É público quando o poder público responde por ele e o acesso não depende de autorização de um proprietário.
Revestimento primário: estrada de terra compactada com cascalho ou saibro, sem asfalto, feita para resistir à chuva e ao tráfego pesado.
Homologação de aeródromo: registro na Agência Nacional de Aviação Civil que autoriza a operação regular da pista depois de conferidas as exigências técnicas.
Paiaguás: uma das sub-regiões do Pantanal sul-mato-grossense, em Corumbá, formada por campos que alagam na cheia e concentram fazendas de gado.
Voadeira: barco de alumínio pequeno e rápido, de fundo raso, usado no Pantanal para vencer trechos com pouca profundidade.
Dados, prazos e valores divulgados pelo Governo de Mato Grosso do Sul. Prazo de obra sujeito a alteração.
O A Crítica dá espaço igual a todos os candidatos e partidos. A cobertura eleitoral segue critérios jornalísticos, sem vinculação a campanha.































