Novas unidades em Portel ampliam beneficiamento da sociobiodiversidade e produção coletiva no arquipélago. Portel (PA) — O trabalho que antes acontecia de forma dispersa, nas casas das produtoras, ganha novos espaços de organização e geração de renda no arquipélago do Marajó. Com a inauguração de duas cozinhas agroextrativistas em Portel, nos dias 11 e 12 de junho, o projeto Sanear Marajó consolida uma rede de quatro unidades apoiadas na região, fortalecendo o beneficiamento de alimentos da sociobiodiversidade e a autonomia econômica das mulheres. As cozinhas comunitárias agroextrativistas funcionam como espaços coletivos de produção. Ali, alimentos colhidos em quintais, roças, rios e florestas são transformados em estruturas adequadas, o que agrega valor à produção local e amplia o acesso a mercados. Na comunidade Santo Ezequiel Moreno, no Projeto Estadual de Assentamento Agroextrativista (PEAEX) Acutipereira, a nova sede da cozinha Iaçá foi inaugurada no dia 12 de junho. Durante a cerimônia, cerca de 70 pessoas puderam conhecer quitutes como brigadeiro de tucumã, pão de castanha em formato de paneiro e coxinha de açaí. “Receber esta cozinha é a realização de um sonho construído por muitas mulheres da nossa comunidade ao longo dos anos. Agora temos um espaço amplo, organizado e equipado para desenvolver nosso trabalho com mais qualidade, fortalecer nossa união e criar novas oportunidades para nossas famílias”, destaca Ana Maria Ramos de Melo, da cozinha Iaçá.
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Já na comunidade Monte Hermon, a inauguração da cozinha Flor Raíz, no dia 11 de junho, marcou o reconhecimento de uma trajetória construída coletivamente. “Este é um território habitado, cheio de riquezas, mas também de desafios. Aqui tem água, floresta, produção, animais e, acima de tudo, gente. Gente de cultura, de coragem, que luta todos os dias para viver com dignidade. A cozinha Flor Raíz chegou agora como estrutura física, mas ela já vinha sendo construída há muito tempo pelas mulheres da comunidade, na força do trabalho coletivo. Durante muitos anos, este lugar foi visto como distante demais para receber políticas públicas. Hoje, a inauguração mostra que esses territórios existem, produzem e merecem investimentos”, afirma Gracionice Corrêa, integrante da cozinha.
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As novas unidades dão continuidade a um processo iniciado em 2025, quando foi inaugurada a cozinha Maní, na comunidade Menino Deus, no PEAEX Acangatá. Com as novas unidades e a cozinha Raízes Marajoara, em Breves, o projeto passa a apoiar quatro cozinhas agroextrativistas no arquipélago, reunindo cerca de 60 mulheres de diferentes comunidades. Os resultados do modelo já podem ser observados em outras iniciativas. Na comunidade do km 19 da PA-159, em Breves, a cozinha Raízes Marajoara permitiu que as produtoras agregassem valor a alimentos antes comercializados principalmente in natura, como açaí, pescado, frango e hortaliças. “Antes de existir a cozinha, a gente produzia e vendia tudo in natura”, conta Edineide Araújo, integrante do grupo. Com a nova estrutura, o trabalho ganhou escala. “Hoje, a gente já consegue pegar encomendas de pequenos a grandes eventos”, afirma Nazaré Oliveira, também integrante da cozinha. A mudança tem se refletido diretamente na geração de renda das famílias. A comunidade passou a produzir cerca de 1.250 marmitas por mês em um contrato firmado com uma organização da sociedade civil, além de ampliar o beneficiamento de produtos como açaí, mandioca, pescado e frutas. “Depois da cozinha, as coisas melhoraram muito. A gente começou a vender o produto já preparado, conseguiu acesso a projetos e estamos buscando outras possibilidades dentro do próprio município”, destaca Edineide.
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Além de ampliar a renda das produtoras, as cozinhas facilitam o acesso a políticas públicas e mercados institucionais, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), fortalecendo a segurança alimentar e a economia local. A iniciativa integra o projeto Sanear Marajó, realizado pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), em parceria com o Fundo Amazônia, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Fundação Banco do Brasil. Para o IEB, as cozinhas vão além do preparo de alimentos: “Elas se afirmam como centros de produção e de conhecimento, contribuindo para o fortalecimento da economia local e para a autonomia das mulheres”, afirma Waldileia Rendeiro, analista socioambiental da organização.



































