Da Redação – Bruna Barbosa OD
Depois que se tornou evangélica, a cantora mato-grossense Ayttena Leorranny, de 36 anos, guardou por um tempo o desejo de cantar sertanejo, ritmo que costumava cantar na adolescência nos bares de Primavera do Leste (MT). Foi em Goiás, onde a mãe nasceu, que ela começou a ter mais contato com o sertanejo gospel e decidiu lançar a primeira música
mesmo sabendo que poderia enfrentar críticas. O que Ayttena não imaginava era que a música, lançada há três meses, seria resgatada por um vídeo esquecido no celular e acabaria transformando a cantora em meme e colocando o termo “agrocrente” no centro de uma discussão nas redes sociais. ,
Ao Olhar Conceito, Ayttena conta que seus avós tiveram ligação com a vida no campo e que, depois de perder familiares importantes, sentiu que era hora de transformar aquela mistura de referências em música. “Sempre quis gravar sertanejo, porque é o que eu gostava desde pequena. Só que, na igreja, o sertanejo não era aceito. Esse sertanejo mais badalado não era aceito. Eu sempre tive vontade de trazer isso para o gospel, para homenagear meus avós, tanto paternos quanto maternos”.
Ela explica que a música viral já não estava mais entre as que ela estava trabalhando na divulgação no momento, no entanto, quando um vídeo que estava esquecido no celular foi publicado nas redes sociais bastaram algumas horas para que a canção ganhasse repercussão nacional, tanto dentro do meio evangélico quanto fora dele.
“Eu decidi quebrar o tabu. Eu falei assim: ‘É uma coisa que eu sempre quis fazer, e isso não define a minha fé. É uma homenagem que eu quero fazer’”, afirma.
“Eu postei só para não ficar lá guardado [o vídeo]. Eu tinha esquecido dele. Mexendo no meu celular, encontrei isso tem uns três dias e postei”, completa.
No dia seguinte, o conteúdo já havia ganhado força. A publicação saiu da bolha dos seguidores da cantora e chegou a perfis que não tinham relação com o
habitual dela. A cantora conta que um perfil ligado à política compartilhou o vídeo de forma crítica e, depois, o comediante Joninha também publicou um meme usando o conteúdo, que ganhou ainda mais visualizações.
“Eu não imaginava que seria com tanta negatividade. Eu achava que era mais do positivo, porque o agro é muito bem falado, tanto aqui no Mato Grosso quanto em Goiás”, conta.
Na visão da cantora, parte do público interpretou a mistura como uma afronta à religião. “Eles não olharam assim. Eles olharam como uma afronta, como se a gente quisesse transformar a Palavra de Deus em coisas do mundo”, diz.
A repercussão foi tão diferente do que Ayttena estava acostumada que ela própria teve dificuldade para entender o que estava acontecendo. No início, a maior parte dos comentários era negativa. A cantora chegou a acompanhar a situação com humor, até perceber que a proporção havia mudado.
“Eu falei: ‘Meu Deus, eu estou ficando conhecida, mas cancelada’”, lembra.
A repercussão também mexeu emocionalmente com ela, que está grávida do quarto filho. No entanto, quando as reações começaram a se dividir, Ayttena passou a receber mais comentários positivios e elogios pela música, que passou a ser usada por vários usuários do Instagram e do TikTok. Memes surgiram em diferentes páginas e a cantora passou a ser reconhecida justamente pelo conteúdo que inicialmente havia provocado críticas.
“Eu virei um meme, na verdade. E está desse jeito, essa loucura toda”, afirma.
Apesar da surpresa com a dimensão do fenômeno, Ayttena não considera que a resistência à mistura de estilos seja exatamente uma novidade. Ela diz que acompanha há cerca de duas décadas as transformações na música evangélica e que outros gêneros também enfrentaram críticas quando começaram a ocupar espaço dentro das igrejas.
“Todos os tipos de música que foram implantados dentro da igreja tiveram essa mesma dificuldade. Só não era nessa mesma proporção porque a internet não era tão grande”, avalia.
A cantora afirma que, na própria igreja, não enfrentou resistência. Segundo ela, o pastor que a acompanha conhece sua história e apoiou o projeto. O conflito, diz, veio principalmente das redes sociais e de pessoas de fora do seu círculo.
“Na minha igreja, não. Meu pastor, inclusive, me apoiou, está orando por mim porque conhece minha história”, conta.
Ayttena também acredita que a experiência de viver entre Mato Grosso e Goiás ajudou a construir sua visão sobre a mistura. Em Goiás, segundo ela, o sertanejo gospel já encontra mais espaço dentro do ambiente cristão. “Foi em Goiás que criei coragem, porque lá isso é normal no meio cristão”, afirma.
































