MERCADO DE GRÃOS
Relatório reduz produtividade e estoques americanos de milho; aumento de área e produção neutraliza efeito positivo para a soja
O relatório de agosto do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) alterou as perspectivas para os dois principais grãos negociados pelo produtor de Mato Grosso.
Enquanto o milho ganhou fundamentos para sustentar os preços, a soja recebeu sinais mistos e ainda não encontrou força suficiente para consolidar uma trajetória de alta.
A principal diferença está no balanço de oferta e demanda dos Estados Unidos.
No milho, a redução da produtividade americana, combinada com exportações maiores e estoques finais menores, aumentou a percepção de uma oferta mais ajustada.
Na soja, a produtividade também recuou, mas o efeito foi compensado pela ampliação da área colhida e da produção.
Segundo Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, o resultado exige uma leitura diferente para cada commodity.
“Produtividade menor é positiva, mas área maior, produção maior e estoques acima do esperado neutralizam boa parte desse efeito”, afirma, sobre a soja.
O comportamento da demanda internacional também pesa sobre as perspectivas da oleaginosa.
USDA manteve a projeção das importações chinesas em 115 milhões de toneladas, retirando do relatório um possível elemento adicional de sustentação das cotações.
Para uma reação mais consistente da soja, segundo a análise, o mercado precisaria encontrar novos fatores de alta, como sinais mais fortes de demanda chinesa ou uma deterioração adicional das condições da safra dos Estados Unidos.
MILHO — A leitura foi mais favorável para o milho.
Além da redução na produtividade, o relatório apontou aumento das exportações americanas e queda dos estoques finais, combinação que tornou mais apertado o balanço entre oferta e consumo.
A relação entre estoques e uso, indicador acompanhado pelo mercado para medir a disponibilidade do cereal, caiu de 11% para 10,12%.
“A relação estoque sobre uso caiu de 11% para 10,12%. Isso significa um balanço americano de milho mais apertado”, explica Yedda.
Para a analista, esse foi o dado de maior relevância do relatório de agosto.
Quanto menor essa relação, menor é a margem de oferta disponível diante da demanda projetada, tornando o mercado mais sensível a problemas de produção ou aumento do consumo.
A mudança ajudou a sustentar as cotações do cereal na Bolsa de Chicago e também repercutiu nos contratos negociados na B3.
Para Mato Grosso, maior produtor nacional de milho, o cenário externo ganha importância em um momento em que a comercialização da produção depende não apenas do comportamento das bolsas, mas também da capacidade de exportação brasileira e das condições do mercado interno.
CAUTELA NA VENDA — Apesar da melhora dos fundamentos internacionais para o milho, a recomendação ao produtor brasileiro continua sendo de cautela. Uma valorização em Chicago não é automaticamente transferida, na mesma proporção, para os preços pagos nas regiões produtoras.
No mercado doméstico, o resultado depende da combinação entre cotação internacional, taxa de câmbio, prêmios de exportação, custos logísticos e ritmo dos embarques.
Na soja, o quadro exige ainda mais atenção.
Aredução da produtividade americana poderia, isoladamente, favorecer os preços, mas o aumento da área e da produção e os estoques superiores às expectativas limitaram o impacto.
O mercado passa agora a acompanhar a evolução das lavouras americanas até a colheita e, principalmente, o comportamento da China, maior importadora mundial da oleaginosa.
Para o produtor de Mato Grosso, a diferença deixada pelo relatório de agosto é clara: o milho saiu com um balanço de oferta e demanda mais apertado, enquanto a soja ainda precisa de novos fundamentos para transformar movimentos pontuais de valorização em uma alta mais consistente.
































