Cinco pórticos começaram a operar na BR-060/364 entre Goiás e Mato Grosso; país já acumulou 3,4 milhões de autuações relacionadas ao não pagamento no modelo sem cancela
A chegada do Free Flow ao Centro-Oeste abre uma nova etapa para a cobrança eletrônica de pedágios no Brasil. Desde 7 de setembro, cinco pórticos entraram em operação na BR-060/364, em 490,6 quilômetros entre Rio Verde (GO) e Rondonópolis (MT), administrados pela concessionária Rota Agro MT-GO. O novo sistema começa a funcionar em uma concessão que prevê R$ 4,4 bilhões em investimentos e R$ 2,8 bilhões em custos operacionais ao longo de 30 anos.
As tarifas nos novos pórticos variam entre R$ 12,90 e R$ 17,80 para automóveis, enquanto motocicletas são isentas. Usuários de tag têm desconto automático de 5% e, para quem não utiliza o dispositivo, o pagamento pode ser realizado posteriormente, dentro do prazo de 30 dias.
A expansão ocorre, porém, em um momento no qual experiências já existentes em outras regiões revelaram um dos principais desafios do modelo: transformar uma passagem realizada sem parada em um pagamento efetivamente concluído. Em abril deste ano, o governo federal suspendeu 3,4 milhões de autuações relacionadas ao não pagamento de tarifas de Free Flow e abriu uma janela de 200 dias para que motoristas regularizassem os débitos. A medida veio acompanhada de esforços para ampliar a integração dos sistemas de cobrança e facilitar a identificação das passagens pelos usuários.
“A cancela cumpria também uma função financeira: o veículo só seguia viagem depois que a cobrança era resolvida. No Free Flow, essa lógica muda completamente. A passagem acontece primeiro e, para quem não possui tag, o pagamento pode ocorrer dias depois. Isso significa que identificar corretamente o veículo é apenas o começo. É preciso garantir que aquela passagem seja processada, disponibilizada ao usuário e tenha uma jornada de pagamento simples o suficiente para ser concluída dentro do prazo”, explica Pedro Hermano, CEO do Pedágio Eletrônico, empresa de tecnologia e pagamentos voltada ao ecossistema de Free Flow.
Da placa ao pagamento: a cadeia por trás do Free Flow
A mudança ajuda a explicar por que o desafio tecnológico do Free Flow vai além da instalação dos pórticos. Para que uma passagem se transforme em receita, diferentes etapas precisam funcionar de maneira integrada: identificação e classificação do veículo, processamento da transação, disponibilização da cobrança e, por fim, pagamento.
A importância dessa cadeia já aparece na própria regulamentação federal. A Resolução nº 6.079/2026 da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) estabeleceu para o Free Flow requisitos como disponibilidade mínima de 98% da infraestrutura, índice mínimo de leitura de placas de 95% e confiabilidade mínima de 99% no processamento das transações. A norma também passou a tratar expressamente de interoperabilidade, meios de pagamento, notificação dos usuários e medidas para redução da inadimplência e das evasões.
A identificação veicular é a primeira peça dessa estrutura. A regulamentação determina que a identificação seja feita obrigatoriamente por meio da leitura dos caracteres das placas com tecnologia OCR, podendo haver métodos complementares. É nessa camada que atua a Pumatronix, empresa brasileira especializada em tecnologias de visão computacional e reconhecimento veicular.
“Quando uma placa é lida em um pórtico de Free Flow, aquela informação deixa de servir apenas para identificar um veículo. Ela passa a originar uma transação financeira. Uma leitura inconsistente pode repercutir nas etapas seguintes, por isso precisão, disponibilidade e confiabilidade se tornam elementos fundamentais para a própria eficiência da arrecadação”, afirma Alexandre Krzyzanovski, Diretor de Engenharia e Produtos da Pumatronix.
O desafio começa depois que o motorista passa pelo pórtico
Para veículos com tag, a cobrança pode ocorrer automaticamente. Já para quem não utiliza o dispositivo, surge uma etapa adicional: o motorista precisa descobrir que possui uma passagem, localizar a cobrança e efetuar o pagamento dentro do prazo.
O problema já ganhou dimensão nacional. Dados divulgados pelo governo em abril mostraram que o país havia acumulado 3,4 milhões de autuações relacionadas ao não pagamento do Free Flow. Na ocasião, o próprio governo apontou a necessidade de maior integração dos sistemas e determinou medidas para centralizar a consulta às passagens.
“O problema não termina quando o sistema reconhece corretamente o veículo. Existe uma segunda conversão que precisa acontecer: transformar aquele registro em pagamento. Se o motorista não sabe que possui uma cobrança, não consegue encontrá-la ou precisa descobrir qual concessionária administra cada trecho por onde passou, aumenta a fricção da jornada. À medida que o Free Flow cresce, interoperabilidade e facilidade de pagamento deixam de ser apenas conveniência e passam a fazer parte da eficiência do próprio modelo”, explica Pedro Hermano.
É justamente nessa etapa que atua o Pedágio Eletrônico, empresa de tecnologia e pagamentos especializada no ecossistema de Free Flow. A proposta é reduzir essa fragmentação da jornada, permitindo que motoristas consultem e paguem passagens pela placa nas concessionárias integradas, sem necessidade de contratar tag ou mensalidade, além de oferecer recursos para gerenciamento de diferentes veículos e cobranças. A empresa já está presente no Centro-Oeste por meio da integração com a Rota Verde Goiás, que opera o Free Flow nas BR-060 e BR-452, onde os usuários dos trechos integrados podem consultar e realizar o pagamento das passagens pelo Pedágio Eletrônico.
Centro-Oeste adiciona o desafio das grandes frotas
Agora, a ampliação do Free Flow no Centro-Oeste, com a entrada em operação dos cinco novos pórticos entre Goiás e Mato Grosso, acrescenta outra dimensão à discussão: a gestão das cobranças por grandes frotas. A BR-060/364 integra um corredor estratégico para o escoamento da produção do Centro-Oeste e conecta regiões com forte presença do agronegócio aos terminais ferroviários de Rondonópolis e Rio Verde.
Para uma pessoa física, uma passagem não identificada ou esquecida pode resultar em uma pendência. Para transportadoras e empresas que administram dezenas ou centenas de veículos circulando diariamente, porém, a quantidade de transações pode transformar o pagamento de pedágios em uma operação de conciliação financeira.
“Uma frota não administra uma passagem, mas milhares delas. É preciso saber qual veículo passou, onde, quando, qual valor foi cobrado, se aquela transação já foi paga e quais ainda estão próximas do vencimento. Em um corredor logístico dessa dimensão, a expansão do Free Flow faz com que a gestão dos pagamentos deixe de ser uma tarefa acessória e passe a fazer parte da gestão financeira da frota”, afirma Pedro Hermano.
O Pedágio Eletrônico também oferece uma frente voltada à gestão de frotas, permitindo centralizar diferentes veículos e acompanhar passagens e pagamentos em um mesmo ambiente.
Para Hermano, a expansão do Free Flow para novas regiões mostra que a próxima etapa do modelo brasileiro dependerá menos da retirada das cancelas e mais da capacidade de integrar toda a infraestrutura existente depois delas. “O Brasil já mostrou que consegue colocar o Free Flow na estrada. O próximo desafio é fazer essa infraestrutura funcionar como um ecossistema. Leitura veicular, concessionárias, meios de pagamento e usuários precisam conversar entre si. Retirar a cancela resolve a fluidez na rodovia; agora precisamos garantir que a experiência digital que vem depois seja igualmente eficiente”, conclui.

































