CUIABÁ
Pesquisar
Close this search box.

A escada incompleta do pleno emprego em Mato Grosso do Sul

publicidade

ARTIGO

 

*Por Rodrigo Nader e Felipe Carrara

Enquanto o Senado discute novas regras para a aprendizagem profissional, Mato Grosso do Sul vive um momento de expansão econômica e precisa decidir como pretende preparar sua próxima geração de trabalhadores.

 

O Estado atravessa um momento econômico extraordinário. Mato Grosso do Sul encerrou o ano de 2025 com uma taxa de desocupação de apenas 2,4%, registrando o menor índice da série histórica estadual e o segundo menor de todo o Brasil. Ao mesmo tempo, o rendimento médio mensal real do trabalhador sul-mato-grossense alcançou o patamar de R$ 3.581. Esses indicadores revelam uma economia extremamente dinâmica e um mercado de trabalho com alta capacidade de gerar novas oportunidades.

 

Contudo, existe uma questão crucial que os excelentes dados econômicos sozinhos não são capazes de responder: quem de fato ocupará as vagas que estão sendo geradas? E, acima de tudo, como assegurar que a juventude de Mato Grosso do Sul esteja qualificada e pronta para assumir esses postos?

 

É sob esse prisma que a Aprendizagem Profissional deixa de ser vista meramente como uma obrigação trabalhista ou burocrática e passa a ser tratada como uma ferramenta de segurança e estratégia para o desenvolvimento econômico e social do nosso Estado. Uma economia em expansão acelerada necessita, obrigatoriamente, de portas de entrada estruturadas, e a aprendizagem é uma das mais eficientes. Ela viabiliza o contato do jovem com o ambiente corporativo sem que ele precise abandonar a escola, integrando formação técnica e prática profissional. Para uma parcela significativa dos jovens, essa experiência representa o primeiro contato real com uma empresa, com rotinas de responsabilidade e com a chance de traçar uma carreira sólida.

 

O próprio Governo de Mato Grosso do Sul tem dado passos importantes nessa direção através do Programa de Aprendizagem Profissional (PAP) voltado para estudantes da Rede Estadual, buscando aproximar de forma concreta a educação regular, a formação técnica e o ecossistema empresarial.

 

No entanto, o poder público não consegue erguer essa ponte de forma isolada. Existe uma rede silenciosa e essencial que atua diretamente nos bastidores desse processo: as entidades sem fins lucrativos especializadas na formação e inserção de aprendizes.

 

Essas instituições realizam diariamente um trabalho social e pedagógico de imenso valor que nem sempre é capturado de forma fria pelas estatísticas. Elas acolhem jovens que buscam orientação profissional, desenvolvem suas competências socioemocionais e técnicas, acompanham de perto suas trajetórias, dão suporte às empresas parceiras e ajudam a converter uma exigência legal em uma verdadeira oportunidade de transformação de vidas. Essa capacidade de adaptar a formação teórica às demandas específicas da economia local — seja em processos de automação e logística na indústria, em mecanização e tecnologia no agronegócio, ou em administração e relacionamento no setor de serviços — confere à aprendizagem um valor econômico inestimável.

 

O risco de ignorar essa engrenagem é alto. Quando uma economia regional cresce em ritmo acelerado e não prioriza a formação de sua própria mão de obra local, ela é forçada a importar competências de outras regiões. Esse movimento eleva os custos operacionais das empresas, acirra a disputa por profissionais qualificados no mercado interno e, de forma preocupante, exclui a juventude sul-mato-grossense dos frutos da riqueza gerada em sua própria terra. Afinal, não existe profissional experiente sem que antes tenha havido uma primeira oportunidade. A aprendizagem não pode ser reduzida a um embate estéril sobre custos tributários ou flexibilização de cotas operacionais; ela deve ser defendida como um investimento estratégico em capital humano.

 

Esse cenário joga holofotes sobre o debate que transcorre no Congresso Nacional. O Projeto de Lei nº 6.461/2019, que institui o Estatuto do Aprendiz, segue em discussão no Senado Federal. Embora a proposta já tenha passado por audiências públicas e recebido relatório favorável na Comissão de Assuntos Sociais, o pedido de vista coletiva em julho manteve em aberto o desenho final da legislação que regulará a aprendizagem em todo o país.

 

Mato Grosso do Sul precisa participar ativamente e com firmeza desse debate legislativo. Não se trata de partidarismo ou de transformar a formação de jovens em palanque eleitoral, mas sim de defender uma política pública de desenvolvimento regional sustentável.

 

Diante disso, cabe fazer uma convocação e uma pergunta pública aos nossos representantes em Brasília — aos deputados federais e aos três senadores que compõem a bancada sul-mato-grossense: “Que modelo de Aprendizagem queremos para Mato Grosso do Sul?”

 

Mais do que discursos genéricos de apoio à juventude, a sociedade e o setor produtivo de MS têm o direito de saber, com clareza, como cada parlamentar pretende se posicionar em relação ao Estatuto do Aprendiz.

 

Nossos representantes defendem a ampliação das vagas de entrada? Entendem a necessidade de preservar as cotas legais que protegem essa transição? Apoiam o fortalecimento e a sustentabilidade das entidades sem fins lucrativos que estruturam a formação teórica e dão suporte aos jovens? Como pretendem equilibrar as necessidades de produtividade das empresas com a devida qualificação e proteção dos nossos aprendizes?

 

O Mato Grosso do Sul do futuro não será conduzido apenas por aqueles que já estão consolidados no mercado. Ele será liderado também pelos jovens que hoje tentam transpor a barreira do primeiro emprego. Para eles, essa primeira vaga não é um detalhe burocrático; é o degrau de sustentação de toda a sua trajetória profissional.

 

Uma economia forte e sustentável tem o dever de garantir que a escada corporativa esteja completa: do primeiro degrau da aprendizagem ao topo da liderança. O topo nós já estamos construindo com investimentos bilionários; agora, precisamos garantir que nenhum jovem sul-mato-grossense fique sem o acesso ao primeiro degrau.

 

*Rodrigo Nader, gerente Regional de Atendimento Centro Oeste do Centro de Integração-Empresa-Escola – CIEE, e Felipe Carrara, supervisor do CIEE no MS

CIEE 62 anos: Imparável
Desde sua fundação, o Centro de Integração Empresa-Escola – CIEE, maior ONG de inclusão social e trabalho jovem da América Latina, se dedica à capacitação profissional de jovens e adolescentes. A instituição, responsável pela inserção de 7 milhões de brasileiros no mundo do trabalho, mantém uma série de ações socioassistenciais voltada à promoção do conhecimento e fortalecimento de vínculos de populações prioritárias.

Leia Também:  FORÇA-TAREFA; Órgãos ambientais e pesquisadores iniciam operação de captura de onça

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade