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Cada um por sim e Deus por todos *Por Luciano Vacari

JOSE MEDEIROS

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A desunião da cadeia da pecuária de corte no Brasil é um paradoxo que se
torna cada vez mais insustentável, afinal possuímos o maior rebanho
comercial do mundo, somos líderes históricos em exportação, mas internamente
operamos como um conjunto de feudos isolados. Cada elo da cadeia, do
produtor ao frigorífico, passando pela indústria de insumos e pelo varejo,
defende seu território com unhas e dentes, o que é legítimo em um ambiente
de negócios competitivo. No entanto, essa fragmentação deixou de ser uma
questão estratégica para se tornar um entrave sistêmico, e a guerra de
posições, onde cada um só quer saber de proteger o seu quinhão, está
corroendo a competitividade da proteína animal brasileira no cenário global,
e o preço dessa desunião é alto e mensurável.

Semanalmente, a China, nosso maior comprador, suspende a habilitação de
algum frigorífico brasileiro sob a alegação de excesso de resíduos químicos
na carne, e essas suspensões não são eventos isolados, são o reflexo de uma
cadeia que não consegue alinhar responsabilidades e rastreabilidade.
Enquanto isso, estamos fora da lista de países autorizados a exportar para a
União Europeia, um mercado de alto valor agregado que exige conformidade
sanitária e ambiental rigorosa.

A perda não é apenas financeira, mas também reputacional. O Brasil, que
deveria ser sinônimo de produção sustentável e segura, é visto com
desconfiança por compradores exigentes, justamente por não conseguir
demonstrar coesão em seus processos produtivos, e enfrenta gargalos que são
inaceitáveis para um país que se pretende líder.

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Um exemplo emblemático é a dificuldade crônica em oferecer o número mínimo
necessário de doses de vacinas contra clostridiose para atender ao rebanho,
já que essa é uma doença prevenível, de manejo básico, mas a falta de
planejamento integrado entre governo, laboratórios, distribuidores e
produtores resulta em desabastecimento e aumento da mortalidade animal. Até
quando iremos continuar perdendo tempo, dinheiro e mercados?

A resposta está na ausência de uma visão coletiva, onde cada ator da cadeia
prioriza sua margem imediata, e o sistema como um todo perde eficiência. É
preciso, portanto, colocar os pontos em comum sobre a mesa e deixar de lado
as disputas menores.

A defesa legítima de cada segmento não pode se sobrepor à necessidade de
construir uma agenda unificada. O produtor precisa de rentabilidade, o
frigorífico de escala e a indústria de insumos de previsibilidade. Esses
interesses não são antagônicos, e sim, eles podem convergir se houver
coordenação. A China não suspende frigoríficos por acaso, suspende porque há
resíduos que poderiam ser evitados com protocolos compartilhados. A União
Europeia não nos exclui por preconceito, exclui porque não apresentamos
garantias sistêmicas. E a falta de vacinas não é um acidente de mercado, é o
resultado de uma cadeia que não dialoga.

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O tamanho do rebanho brasileiro é uma vantagem natural, mas não é suficiente
para sustentar a liderança, até porque, em um mercado global cada vez mais
regulado e competitivo, a desunião é um luxo que não podemos mais pagar. Ou
a pecuária de corte brasileira aprende a articular seus interesses em torno
de padrões comuns de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade, ou
continuará perdendo espaço para concorrentes que, mesmo com rebanhos
menores, oferecem o que o mercado exige: previsibilidade, confiança e
garantia de origem.

A guerra interna precisa acabar, não por generosidade, mas por pragmatismo,
porque o inimigo não está dentro da cadeia; está fora!

*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria

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