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Como o comportamento do fogo se modificou ao longo dos anos nos biomas Pantanal, Cerrado e Amazônia?

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Nos últimos anos , temos visto uma intensificação da mudança do comportamento do fogo nos três biomas que compõem o estado de Mato Grosso (Amazônia, Cerrado e Pantanal). A proposta desta pauta é explicar o que está por trás da mudança de comportamento do fogo em cada bioma, contextualizando a formação ecológica de cada um, os fatores que estão desregulando suas dinâmicas naturais e os riscos que isso representa para a biodiversidade, para as populações tradicionais e para o futuro climático do país.

Essa mudança no regime do fogo não é homogênea. O regime do fogo é um conceito que descreve o padrão com que o fogo ocorre em um ecossistema ao longo do tempo. Ele não se refere apenas ao fato de haver ou não fogo em uma paisagem, mas envolve um conjunto de características que determinam como esse fogo se manifesta. Entre esses elementos estão a frequência com que as queimadas acontecem, a intensidade das chamas, a extensão da área queimada e a época do ano em que ocorrem.

Cada ecossistema possui um regime de fogo natural, moldado ao longo do tempo por fatores climáticos, pela vegetação local e por processos ecológicos. Por isso, existem diversos regimes de fogo, diferentes entre si, e que são essenciais para o equilíbrio ambiental de certas regiões. Uma alteração no regime do fogo ocorre quando algum desses elementos (frequência, intensidade, extensão ou sazonalidade) muda significativamente em relação ao padrão histórico daquele ecossistema.

Enquanto no Cerrado o fogo sempre teve um papel ecológico importante, no Pantanal ele dependia do ritmo das águas e, na Amazônia, era praticamente ausente em florestas intactas. Hoje, esses limites estão se rompendo.

De acordo com dados do MapBiomas, Mato Grosso é o estado com maior área queimada acumulada nos últimos 40 anos. A Amazônia foi em 2024 o bioma mais atingido, com 17,9 milhões de hectares consumidos pelas chamas, o maior registro já computado desde 1985.Além disso, pela primeira vez em toda a série histórica, a área de floresta queimada na Amazônia superou a de pastagens. Ao todo, foram consumidos pelo fogo 6,7 milhões de hectares de vegetação florestal, o que corresponde a 43% do total queimado no bioma, enquanto as pastagens somaram 5,2 milhões de hectares, representando 33,7%. Tradicionalmente, as pastagens sempre foram o tipo de cobertura do solo mais atingido pelo fogo na região.

No Cerrado, 9,7 milhões de hectares foram queimados em 2024, dos quais 8,2 milhões (85%) correspondiam à vegetação nativa. Embora o número absoluto pareça alto, ele não é, por si só, alarmante, já que o Cerrado é um ambiente naturalmente dependente do fogo. O verdadeiro problema está em como esse fogo tem ocorrido: com alterações no regime natural, como aumento da frequência, intensidade inadequada e uso fora de época. Segundo dados do MapBiomas, 55% do Cerrado não foi queimado pelo menos uma vez em 40 anos, um dado preocupante quando se trata de um ecossistema fire-prone (propenso ao fogo), que precisa do fogo para manter sua dinâmica ecológica. O Pantanal, embora apresente área absoluta menor, registrou a maior proporção relativa de área queimada entre os biomas do Brasil, com 61,8% da sua superfície impactada pelo fogo entre 1985 a 2024.

Cerrado
O Cerrado é um bioma naturalmente adaptado e dependente do fogo. Muitas espécies vegetais precisam do calor para germinar, rebrotar ou florescer, e os ciclos naturais de fogo, com intervalos de dois a cinco anos, ajudam a manter a biodiversidade. No entanto, o problema no Cerrado atual não é a presença do fogo, é o descontrole sobre como, quando e com que frequência ele ocorre.

Hoje, as queimadas são muitas vezes provocadas por manejo inadequado, incêndios acidentais ou criminosos, e ocorrem com frequência muito maior do que o ecossistema pode suportar. Isso enfraquece a vegetação nativa e favorece a invasão por gramíneas exóticas, que alteram o combustível do solo e aumentam a inflamabilidade.
Alessandra Fidelis, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Rio Claro e especialista na ecologia do fogo, alerta que os regimes de fogo no Cerrado encontram-se alterados, como por exemplo em épocas inadequadas, afetando assim a regeneração das espécies nativas. Ela defende que o manejo do fogo deve seguir tanto os princípios ecológicos, respeitando os tempos de regeneração da vegetação, como os saberes tradicionais do uso do fogo. “O problema do Cerrado não é o fogo em si, mas quando, onde e como ele ocorre: tanto queimar demais como não queimar podem trazer consequências igualmente prejudiciais para a biodiversidade”, aponta Fidelis.

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Mário Barroso, coordenador de monitoramento da The Nature Conservancy Brasil (TNC Brasil), comenta como o MapBiomas, uma iniciativa colaborativa que mapeia a cobertura e o uso da terra no Brasil e em outros países da América do Sul, com base em imagens de satélite e tecnologias de sensoriamento remoto, tem sido fundamental para aprimorar a gestão ambiental. “Ter informações claras sobre o regime de fogo sempre foi um desafio. Hoje com o MapBiomas temos uma visão muito mais clara das transformações do regime do fogo nos biomas e de como devemos orientar as políticas públicas e o engajamento das pessoas para tratar desse tema”, afirma Barroso.

Manejo Integrado do Fogo
O Manejo Integrado do Fogo (MIF) é uma estratégia que reconhece que o fogo, em vez de ser apenas combatido ou proibido, pode ser usado de forma controlada e planejada como ferramenta de manejo ambiental, redução de risco e conservação. Ao contrário de abordagens tradicionais, que focam apenas no combate a incêndios, o MIF busca equilibrar prevenção, uso ecológico e resposta rápida. O MIF é adotado em países como EUA, mas enfrenta desafios para ser implementado no Brasil, especialmente por causa das particularidades de cada bioma.

A pesquisadora Natashi Pillon está começando um experimento para adaptar o MIF para o Cerrado, especialmente com foco na conservação da biodiversidade. O projeto reconhece os avanços do MIF na proteção de áreas sensíveis e visa, em conjunto com os gestores, avançar na lapidação da prática para fins de conservação e proteção da biodiversidade de espécies e ecossistemas dependentes do fogo.

Natashi destaca que os modelos de Manejo Integrado do Fogo (MIF) atualmente aplicados no Brasil ainda enfrentam desafios para alcançar resultados mais amplos em termos de conservação. Embora muitos enfoquem aspectos importantes como a redução de combustível e a proteção de áreas agrícolas, ainda há espaço para avanços na incorporação do papel ecológico do fogo e das necessidades específicas de cada bioma. “O Cerrado demanda um manejo do fogo que respeite sua dinâmica ecológica singular. Modelos utilizados em países do hemisfério norte oferecem aprendizados valiosos, mas não podem ser aplicados diretamente sem adaptações. Estamos construindo uma abordagem contextualizada considerando o conhecimento acumulado dos gestores e equipe de manejo, com foco na biodiversidade, pois ela é essencial para que o Manejo Integrado do Fogo (MIF) cumpra plenamente seu propósito” explica a pesquisadora.

Pantanal
O Pantanal sempre foi regulado pelo pulso das águas. Os ciclos anuais de cheia e seca determinavam quando e onde a vegetação secava. Esse equilíbrio, no entanto, vem sendo profundamente alterado. Cheias mais curtas, irregulares ou até ausentes em algumas regiões têm permitido o acúmulo de biomassa seca em áreas antes permanentemente alagadas.
A alteração desse regime hídrico tem sido um fator-chave para o agravamento dos incêndios florestais no Pantanal, ao romper o equilíbrio entre períodos de cheia e seca que historicamente regulavam a dinâmica da vegetação e do fogo. Com cheias cada vez mais curtas, irregulares ou ausentes, áreas que antes permaneciam alagadas por longos períodos agora acumulam grande quantidade de matéria orgânica seca, criando um ambiente altamente inflamável. Esse cenário reduz a umidade do solo e da vegetação, prolonga a estação seca e favorece a propagação do fogo mesmo em regiões que antes resistiam naturalmente às chamas. O colapso desse ciclo hídrico transforma o bioma em uma paisagem mais vulnerável e permanentemente suscetível a incêndios de maior intensidade e duração.

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Responsável por liderar as estratégias institucionais de prevenção e combate a incêndios, Leonardo Gomes, diretor executivo do SOS Pantanal, tem defendido a adoção e fortalecimento do Manejo Integrado do Fogo (MIF) no bioma. “Temos avançado na implantação do Manejo Integrado do Fogo, mas ainda precisamos de investimentos expressivos em prevenção, especialização de profissionais, pesquisa e infraestrutura. A adoção desse conceito exige um trabalho conjunto entre sociedade civil, instituições de pesquisa e poder público. Não estamos perdendo só árvores ou animais com os incêndios. Estamos perdendo um patrimônio natural que regula o clima, sustenta comunidades inteiras e nos conecta com o futuro. Se o Pantanal continuar queimando nessa escala, vamos sentir os impactos muito além da fronteira do bioma.”

Amazônia
Na Amazônia mato-grossense, onde o fogo historicamente não fazia parte do ciclo natural, as queimadas estão se tornando mais recorrentes e resistentes. A porção amazônica de Mato Grosso é caracterizada por florestas densas, com alta umidade e um dossel fechado que, historicamente, dificultava a ocorrência de incêndios. Esse equilíbrio, no entanto, vem sendo quebrado principalmente pela expansão de pastagens plantadas, que impulsiona o desmatamento, ação que abre caminho para a fragmentação florestal e agrava a vulnerabilidade da vegetação ao fogo. A intensificação das secas, associada às mudanças climáticas, contribui ainda mais para a permanência e propagação dos incêndios nessas áreas.

Hoje, áreas onde a floresta ainda permanece de pé estão sendo atingidas pelo fogo. Nessas regiões, a presença de matéria orgânica acumulada e o ressecamento das bordas florestais aumentam a inflamabilidade, mas a queima só ocorre quando há um foco de incêndio externo. Ou seja, não se trata de combustão espontânea. O resultado é o aumento de florestas degradas na paisagem.

Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), tem documentado como o desmatamento e a degradação florestal vêm criando condições propícias para que o fogo se espalhe por áreas antes úmidas e protegidas por dosséis fechados. Segundo ela, o fogo hoje é um vetor de transformação da floresta, enfraquecendo sua resiliência e acelerando o processo de degradação da floresta, tornando-a mais inflamável. “O uso recorrente do fogo em áreas desmatadas e abandonadas contribui para manter uma paisagem permanentemente inflamável, que ameaça inclusive as florestas remanescentes. O aquecimento global intensifica esse cenário, tornando mais longas e severas as estações secas.”, comenta Alencar.

Campanha “Proteja Mato Grosso” reforça prevenção contra incêndios na seca
A “Proteja Mato Grosso” é uma campanha de educação ambiental realizada pela TNC Brasil em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema-MT) e com apoio do Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso (CBMMT). A campanha amplia as ações de conscientização sobre a prevenção de incêndios durante o período de seca. A mobilização é voltada a públicos diversos como moradores urbanos, agropecuaristas, povos indígenas, caminhoneiros e turistas e alerta sobre os riscos agravados nesta época do ano. A campanha orienta sobre como agir em caso de incêndios, incentivando o acionamento de bombeiros e órgãos ambientais, além de promover o engajamento coletivo com a disseminação de informações entre vizinhos e comunidades. Também destaca os impactos dos incêndios na saúde da população e a importância de proteger os biomas do estado. Os materiais da campanha serão veiculados e distribuídos em diversos canais.
Sobre a TNC
A The Nature Conservancy (TNC) é uma organização global sem fins lucrativos que atua há mais de 70 anos na conservação ambiental. Presente em mais de 70 países, incluindo o Brasil, a TNC desenvolve soluções baseadas na natureza para enfrentar os maiores desafios ambientais do planeta, como a crise climática, a perda de biodiversidade e a segurança hídrica. Em Mato Grosso, a TNC trabalha em parceria com governos, setor produtivo e comunidades locais para promover o uso sustentável da terra, a proteção dos biomas e a resiliência das populações frente às mudanças climáticas.

Contato de imprensa
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