CUIABÁ
Pesquisar
Close this search box.

Crise climática ameaça modos de vida das pessoas que habitam o Pantanal Mato-grossense

publicidade

Alerta RDM |

A crise climática que se avizinha – e coloca temor nos ambientalistas –  não deverá atingir todos os habitantes do Pantanal da mesma forma. Enquanto a redução das cheias ameaça o alimento, o transporte e a cultura de povos tradicionais, agricultores e pecuaristas enfrentam perda de produção, escassez de água e aumento dos custos para permanecer no território. O ponto em comum está na dependência do ciclo das águas.

Explica-se: é a alternância entre cheia, vazante e seca que determina quando plantar, onde levar o gado, em que período pescar e por quais caminhos circular. Também é o fenômeno natural que sustenta a biodiversidade, que movimenta também o turismo e parte da economia regional.

Quando esse ritmo se altera, não é apenas a paisagem que muda. As transformações alcançam a renda, a segurança alimentar, as relações comunitárias e as condições de permanência das famílias no Pantanal, conforme mostram as projeções climáticas para 2070, que indicam uma redução de até 200 milímetros nas chuvas do norte do bioma e aumento de temperatura superior a 2,5°C em algumas áreas.

O cenário pode diminuir a quantidade de água que chega à planície, intensificar secas e ampliar a vulnerabilidade aos incêndios.

O estudo internacional Climate Change and Family Farming in the Pantanal Region of South America, conduzido por Luciana Vicente Silva, doutora em Ecologia e Conservação e técnica de campo da organização Ecoa, ouviu 16 famílias do Assentamento São Gabriel e da Área de Proteção Ambiental Baía Negra, entre Corumbá e Ladário, em Mato Grosso do Sul. E neles, preocupação.

Os relatos mostram que o futuro projetado pelos modelos climáticos já começou a interferir no cotidiano. Agricultores percebem aumento do calor, irregularidade das chuvas, redução da água disponível e incêndios mais frequentes. Essas mudanças afetam o que plantar, quando irrigar, como cuidar dos animais e de que maneira manter a produção.

Entre as consequências apontadas estão perdas na produção de alimentos, redução da renda e dificuldades para garantir água às famílias e às criações. Para responder ao novo cenário, moradores alteram os períodos de plantio, protegem hortas, reorganizam o consumo de água e substituem espécies mais sensíveis por variedades resistentes ao calor e à seca.

Leia Também:  Estado leiloa fazenda de R$ 7,6 milhões em Poconé

A pesquisa identificou ainda experiências com sistemas agroflorestais, energia solar para irrigação, produção de mudas nativas, recuperação de áreas degradadas e formação de brigadas comunitárias contra incêndios. São iniciativas que demonstram capacidade de adaptação, mas também expõem seus limites.

“Os agricultores são protagonistas na construção de soluções para enfrentar as mudanças climáticas”, afirma a pesquisadora Luciana Vicente Silva. Ela ressalta, porém, que a adaptação não pode depender apenas do esforço individual das famílias.

O trabalho de campo se concentrou na agricultura familiar e não representa estatisticamente toda a população pantaneira. Os efeitos sobre indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, extrativistas e demais moradores precisam ser analisados de acordo com as características de cada território.

A legislação brasileira reconhece como povos e comunidades tradicionais grupos culturalmente diferenciados, com formas próprias de organização e que utilizam territórios e recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social, religiosa e econômica. No Pantanal, estão entre esses grupos os povos indígenas, pantaneiros, ribeirinhos, pescadores artesanais e extrativistas. Seus conhecimentos sobre rios, plantas, animais, fogo e ciclos naturais são transmitidos entre gerações e contribuem para a conservação da biodiversidade.

Para essas populações, o rio não representa apenas uma atividade econômica. É fonte de alimento, água e transporte, além de elemento central da identidade e da organização comunitária. A redução das cheias pode diminuir as áreas de reprodução e alimentação dos peixes, dificultar a navegação e isolar comunidades. A seca extrema e os incêndios também aumentam o risco de insegurança alimentar, escassez de água e interrupção do acesso a serviços básicos.

Povos indígenas, como os Guató, e representantes de comunidades tradicionais pantaneiras já levaram ao governo federal preocupações relacionadas à prevenção de incêndios e à proteção de seus territórios. Em 2025, uma comitiva dessas comunidades reuniu-se com o Ministério do Meio Ambiente para apresentar demandas sobre o combate ao fogo no bioma.

Os pescadores estão entre os grupos mais diretamente dependentes do pulso de inundação. Durante as cheias, rios, lagoas e campos alagados se conectam, criando ambientes para reprodução, alimentação e crescimento dos peixes. Quando a cheia perde volume ou duração, essas áreas podem diminuir. A alteração do fluxo dos rios afeta a quantidade, a distribuição e os períodos de reprodução das espécies, com reflexos sobre a pesca artesanal, profissional e turística. Estudos da Embrapa apontam que interferências no pulso anual de inundação podem produzir efeitos severos sobre o ecossistema e a atividade pesqueira.

Leia Também:  Poços artesianos levam dignidade e fortalecem a agricultura familiar em Poconé

O impacto não termina no barco. Menos peixe significa menor renda para pescadores, piloteiros, guias, comerciantes, donos de pousadas e trabalhadores de hotéis e restaurantes. A pesca e o turismo formam uma cadeia econômica que movimenta diferentes municípios pantaneiros. Uma crise prolongada nos rios pode se espalhar pelo comércio e pelos serviços das cidades da região.

A pecuária extensiva, frequentemente apresentada apenas como atividade econômica, também está ligada ao funcionamento natural do Pantanal. Grande parte da criação utiliza pastagens nativas, cuja disponibilidade varia de acordo com a entrada e a retirada das águas.

O pulso de inundação distribui nutrientes, renova os campos e determina as áreas disponíveis para o gado ao longo do ano. A Embrapa destaca que as dinâmicas ambientais, produtivas e econômicas do Pantanal são controladas por esse ciclo.

Com temperaturas mais altas e secas prolongadas, as pastagens podem perder qualidade e disponibilidade. Pecuaristas passam a gastar mais com água, alimentação suplementar, transporte e deslocamento dos rebanhos.

Esses efeitos também não são iguais para todos. Grandes propriedades tendem a possuir mais recursos para construir reservatórios, comprar ração, contratar seguros ou transportar animais. Pequenos e médios produtores, trabalhadores rurais e famílias que dependem diretamente da propriedade ficam mais vulneráveis.

 

Adaptação expõe desigualdades

A mudança climática encontra uma população com capacidades muito diferentes de resposta. Quem possui renda, crédito e infraestrutura pode investir em tecnologia e reduzir parte das perdas. Quem vive em comunidades isoladas ou depende diretamente dos recursos naturais enfrenta obstáculos maiores.

Por isso, a adaptação não pode ser tratada apenas como uma escolha individual. A instalação de reservatórios, a recuperação de nascentes, a assistência técnica e a proteção contra incêndios exigem recursos que muitas famílias não possuem.

A pesquisa realizada entre Corumbá e Ladário recomenda políticas de segurança hídrica, fortalecimento da agricultura familiar, prevenção ao fogo, restauração ambiental, uso eficiente da água e ampliação da assistência técnica. Também destaca a importância das associações comunitárias e do conhecimento acumulado pelos moradores.

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade