Amábile decidiu dar uma chance para carreira de atriz e se apaixonou pela indústria do cinema
Montagem/MidiaNews
A cuiabana Amábile Fernanda Souza Anffe atua como atriz nos Estados Unidos
DA REDAÇÃO
Há 10 anos vivendo nos Estados Unidos, a cuiabana de coração Amábile Fernanda Souza Anffe tem levado para a indústria cinematográfica americana um pouco da identidade construída em Mato Grosso.

Eu peguei a época de ouro do Mato Grosso. Na minha juventude, nos anos 90, todo mundo se conhecia.
Recentemente, a atriz passou a se dedicar à carreira artística e agora estreia em sua primeira novela vertical, “Após o Divórcio, Virei Rainha”, produção gravada em Los Angeles e voltada ao público brasileiro.
As novelas verticais, também chamadas de microdramas, são produções audiovisuais com formato de tela 9:16 — pensado exclusivamente para celulares.
Na trama, Amábile interpreta Helena, uma sogra disposta a tudo para impedir o relacionamento do filho com a protagonista. A personagem se torna uma das principais antagonistas da história.
Ao relembrar a juventude na Capital, Amábile descreveu uma Cuiabá em que as relações eram mais próximas, onde “todo mundo se conhecia”, e afirmou que esse ambiente influenciou sua maneira de enxergar as pessoas e interpretar personagens.

Foi um papel maior, com muitas falas. Não vou dizer que, no começo, eu não fiquei meio [nervosa]
“Eu peguei a época de ouro do Mato Grosso. Na minha juventude, nos anos 90, todo mundo se conhecia. E era uma comunidade maravilhosa, como estar morando numa Capital com um ambiente de interior. Foi a melhor época da minha vida”, afirmou.
Para ela, esse ambiente acolhedor acabou refletindo diretamente na maneira como construiu relações profissionais nos Estados Unidos. A facilidade para se comunicar e criar vínculos, característica que associa ao povo mato-grossense, foi determinante para abrir portas na nova carreira.
“Isso me ajudou muito na minha carreira. Porque ter esse lado da comunicação, de sempre querer estar conhecendo gente, e a cada trabalho fazer vários amigos”, disse.
A mudança para os Estados Unidos aconteceu em 2016, inicialmente de forma temporária. O marido recebeu uma licença-prêmio e decidiu aproveitar o período para estudar no país com visto de estudante. O plano, porém, mudou completamente.
Segundo Amábile, a família acabou encontrando novas oportunidades e optou por permanecer no exterior. O marido realizou o sonho de publicar um livro, a filha passou a atuar na área audiovisual e incentivou a mudança para Los Angeles, onde vive atualmente.
Curiosamente, a atuação não fazia parte dos planos da cuiabana. O incentivo veio justamente de dentro de casa, por insistência da filha.
“E ela sempre ficava assim: ‘Mãe, você tem que atuar’. Eu falava: ‘ah filha, isso é coisa pra você'”, relembrou.
A primeira experiência aconteceu em um curta dirigido pelo marido. A participação despertou um interesse que ela mesma não imaginava ter. A partir disso, começaram a surgir os convites.
Os primeiros trabalhos abriram espaço para novas oportunidades até que, durante outro projeto audiovisual, ela conheceu uma produtora que a apresentou à novela “Após o Divórcio, Virei Rainha”. Depois de realizar um teste, foi escolhida para viver Helena.
“Foi um papel maior, com muitas falas. Não vou dizer que, no começo, eu não fiquei meio [nervosa], porque fiquei, mas deu super certo e eu amei. Agora estou pronta para outros [desafios]”.
Interpretar Helena também representou um desafio pessoal. Acostumada a ser acolhedora, Amábile precisou construir uma personagem completamente diferente de sua personalidade.

Para mim, foi um desafio, porque eu precisei interpretar tudo aquilo que eu odeio
“Para mim, foi um desafio, porque eu precisei interpretar tudo aquilo que eu odeio. Odeio gente preconceituosa, que se acha superior, e tive que vestir essa máscara. Mas, em dois dias, já estava me dando bem com a personagem”, explicou.
Mesmo sendo uma estreante em papéis de maior destaque, ela afirmou que a experiência foi transformadora e reforçou a vontade de seguir investindo na carreira artística.
“Eu fiquei muito feliz com essa experiência de ter uma produção hollywoodiana voltada para o Brasil. Eu achei que isso foi bem inovador”, disse.
Processo de produção
Embora tenha sido sua primeira experiência em um papel de grande destaque, Amábile encontrou no elenco e na equipe um ambiente que tornou o trabalho mais leve.
Na novela, Helena é mãe do personagem vivido pelo ator americano Nilo Benício, sobrinho do artista brasileiro Murilo Benício. A parceria entre os dois acabou extrapolando a ficção e se transformou em uma amizade durante as gravações.
“O Nilo é uma pessoa super gentil. Ele é um menino muito bom. Eu fiquei impressionada, ele tinha muito mais experiência que eu e me ajudou, foi uma graça. Além de um ótimo autor, é uma pessoa muito querida”, afirmou.
O sentimento foi recíproco. Nilo destacou que a acolhida da atriz foi essencial para enfrentar um dos maiores desafios da produção: gravar uma novela inteira em português. Embora tenha vivido parte da infância no Brasil, ele mora nos Estados Unidos desde os oito anos e admite que a língua acabou se tornando uma dificuldade durante as filmagens.
Segundo ele, a equipe foi essencial para ajudá-lo a decorar os textos e dar liberdade para ele utilizar diferentes estratégias para memorizar as falas.
Nilo afirmou que a acolhida dos brasileiros foi diferente do que se costuma encontrar nas produções norte-americanas.

Todo mundo era tão simpático que foi como se fôssemos uma família no final
“Em muitos trabalhos que faço aqui, as pessoas são cordiais e gentis, mas, dessa vez, todos no set queriam se conhecer melhor. Todo mundo era tão simpático que, no final, parecia que éramos uma família”, afirmou.
Esse ambiente facilitou o trabalho dos atores, que precisaram gravar toda a novela a partir de um ritmo intenso de trabalho, em seis dias.
A própria atriz admite que a velocidade foi uma das maiores dificuldades da produção. Diferentemente de filmes e séries tradicionais, em que há tempo para explorar movimentos e construir cada cena, as novelas verticais exigem um ritmo acelerado e uma atuação muito mais concentrada nas expressões faciais.
“No vertical é tudo muito mais rápido. Quando você tem um tempo X para gravar numa produção normal, no vertical você tem o tempo 0,00000X. Então não é fácil”, explicou.
Nilo, apesar de ser acostumado com produções na vertical, também comentoou sobre os desafios que o formato impõe aos artistas e equipe de produção.
“Quando você filma uma produção vertical, chega a gravar 30 páginas por dia, mas não é possível colocar muitas pessoas na mesma cena. É preciso fazer tomadas individuais de cada personagem. Em um filme tradicional, por exemplo, você consegue captar a cena inteira com todos juntos, o que ajuda quando o tempo está acabando. No formato vertical, o espaço é mais limitado. Já fiz quase 40 produções nesse formato. Você se acostuma rápido, mas é completamente diferente”, afirmou.
Mesmo diante do ritmo intenso, Amábile diz que saiu do projeto com a certeza de que pretende seguir investindo na carreira artística.
“Eu adoraria. Adoraria, sim. Eu adoro atuar em português”, afirmou ao comentar a possibilidade de participar de novas produções voltadas ao público brasileiro.
Crescimento do mercado vertical
Embora ainda desperte resistência entre parte do público acostumado aos formatos tradicionais, as novelas gravadas para consumo na vertical vêm conquistando espaço e atraindo investimentos cada vez maiores.
Para o diretor de “Após o Divórcio, Virei Rainha”, Thiago Carvalhonts, o Brasil reúne características que podem transformar o país em um dos principais mercados desse segmento.
Segundo ele, o formato já movimenta cifras bilionárias no exterior e chama a atenção das grandes empresas internacionais justamente pelo comportamento do consumidor brasileiro nas redes sociais.
“Os números do Brasil já são bem impressionantes. O mercado de vertical, apesar de ainda virar o nariz de muita gente, já é um mercado de US$ 37 bilhões, é um mercado gigantesco”, afirmou.
De acordo com o diretor, plataformas chinesas que já dominam esse mercado nos Estados Unidos passaram a enxergar o Brasil como uma aposta natural, impulsionadas pelo tamanho do público e pelo alto nível de engajamento nas redes sociais.

O mercado de vertical, apesar de ainda virar o nariz de muita gente, já é um mercado de US$ 37 bilhões, é um mercado gigantesco
Para ele, a chegada dessas produções também representa uma oportunidade para atores e profissionais do audiovisual que buscam espaço na indústria.
“O Vertical é uma forma de você entrar num mercado profissional com menos pressão. Os dois, Nilo com a experiência de atuação dele, mas com o português mais frágil, e Amábile sem muita experiência de atuação, puderam estar ali juntos num produto profissional”, disse.
Thiago acredita que o mercado vertical funciona como uma porta de entrada para novos talentos e lembra que, atualmente, boa parte das oportunidades abertas para atores nos Estados Unidos está concentrada nesse segmento.
“Hoje, quando você abre os aplicativos para procurar trabalho, 80% das oportunidades são no formato vertical”, destacou.
Para Amábile, além de ampliar o número de produções, o formato permite que artistas ainda pouco conhecidos adquiram experiência diante das câmeras e construam uma carreira.
E, com a nova novela, a atriz cuiabana dá mais um passo nessa trajetória iniciada quase que por acaso, após experimentar a atuação. Hoje, dez anos após deixar Mato Grosso, ela comemora a oportunidade de participar do mercado cinematográfico.
“Eu estou super feliz essa semana, foi uma semana muito abençoada e estou muito feliz mesmo”, finalizou

































