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Dia da Gestante: Nem toda gravidez após os 40 é considerada de alto risco, segundo especialista do HUJM-UFMT

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Idade é um fator de risco, mas não determina o desfecho da gravidez

 

Cuiabá (MT) – Comemorado nacionalmente em 15 de agosto, o Dia da Gestante chama atenção para os cuidados que toda grávida deve receber para garantir uma gestação saudável tanto para a mãe quanto para o bebê. De acordo com os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 14 anos, o país registrou crescimento no número de bebês nascidos de mães com 40 anos ou mais. De 2010 a 2013, mais de 60 mil nascimentos por ano foram contabilizados. Em 2017, mais de 82 mil. E, de 2021 e 2024, também por ano, mais de 100 mil, evidenciando uma tendência entre as mulheres brasileiras.

 

Para esclarecer dúvidas e mitos a respeito da gravidez tardia, conversamos com a médica ginecologista e obstetra Ana Amélia da Rosa, chefe da Unidade de Saúde da Mulher do Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM-UFMT/HU Brasil).

 

O que é gravidez tardia?

Tradicionalmente, chamamos de idade materna avançada a gestação cuja mulher terá 35 anos ou mais no momento do parto. Esse ponto de corte de 35 anos é histórico e, hoje, sabemos que o risco não muda de maneira abrupta no aniversário de 35 anos: ele aumenta progressivamente com a idade e se torna mais relevante especialmente após os 40 anos.

 

Eu gosto de explicar que o termo “gravidez tardia” é cada vez menos adequado para descrever a realidade social. Hoje temos mulheres que optam por postergar a maternidade para concluir sua formação, consolidar a carreira, alcançar estabilidade financeira ou simplesmente porque esse foi o momento em que encontraram condições pessoais para serem mães.

 

Uma gravidez após os 40 anos é sempre considerada de alto risco?

Não necessariamente. Uma mulher de 40 ou 41 anos saudável, sem hipertensão, diabetes, obesidade ou outras doenças, pode ter uma gestação muito bem-sucedida. Idade é um fator de risco, mas não determina sozinha o desfecho da gravidez.

 

O que acontece é que, com o avanço da idade, aumentam as probabilidades de algumas complicações, como: hipertensão e pré-eclâmpsia; diabetes gestacional; alterações cromossômicas; alterações no crescimento fetal; prematuridade; perda gestacional; algumas complicações placentárias. E esses riscos aumentam progressivamente, especialmente depois dos 40 anos. Ter 40 anos não significa estar doente. Significa que precisamos conhecer melhor os riscos daquela gestação e fazer um acompanhamento mais individualizado.

 

Há uma data limite para engravidar? Por quê?

Não existe uma idade limite absoluta para a maternidade. Mas existe, sim, um limite biológico para a fertilidade. A grande questão é que a quantidade e, principalmente, a qualidade dos óvulos diminuem com o passar dos anos. Essa redução se acelera depois da faixa que vai dos 35 aos 40 anos. Por isso, uma mulher pode continuar menstruando e ovulando, mas ter uma chance menor de engravidar espontaneamente. Além disso, aumenta o risco de alterações cromossômicas e de aborto espontâneo.

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Tratamentos de reprodução assistida não anulam o efeito da idade sobre os óvulos. Devemos discutir antes qual o planejamento sobre a maternidade, e a possibilidade de congelamento de óvulos deve entrar na pauta da consulta ginecológica antes de 35 anos no caso das pacientes que desejam adiar os planos de engravidar.

 

O que muda no pré-natal de uma mulher com mais de 40 anos?

O objetivo não é medicalizar a gestação, mas antecipar problemas que podem ser prevenidos ou tratados. O pré-natal não deve ser simplesmente “mais exames”. Ele deve ser mais individualizado e atento aos fatores de risco. Antes mesmo da gravidez, o ideal é fazer uma avaliação pré-concepcional para identificar hipertensão, diabetes, obesidade, doenças da tireoide, doenças cardiovasculares, uso de medicamentos, vacinação, histórico obstétrico e outros fatores.

 

Durante a gestação, existe uma atenção maior para pressão arterial e risco de pré-eclâmpsia; diabetes gestacional; avaliação genética e cromossômica; medicamentos para prevenir pré-eclâmpsia; ultrassonografia morfológica; crescimento fetal; função placentária; e vitalidade fetal no final da gestação.

 

Uma mulher com mais de 40 anos pode ter o segundo filho?

Com certeza. E essa é uma situação muito comum atualmente. Ter tido uma gestação anterior saudável não significa que a segunda será exatamente igual, mas também não significa que uma segunda gravidez aos 40 anos seja necessariamente de alto risco.

 

O que devemos avaliar é: idade atual; intervalo entre as gestações; histórico obstétrico; doenças existentes; medicamentos; condição cardiovascular e metabólica; reserva ovariana e fertilidade, quando pertinente.

 

Há vantagens na gravidez tardia?

Eu responderia com cuidado: não podemos dizer que biologicamente uma gestação tardia seja mais vantajosa. Mas existem vantagens relacionadas ao contexto de vida da mulher. Muitas mulheres chegam à maternidade mais maduras, com maior estabilidade emocional, maior autonomia financeira; relacionamento mais estruturado; maior conhecimento sobre seu próprio corpo; maior capacidade de planejamento; e maior acesso à informação e aos serviços de saúde.

 

Também há uma questão social importante: a maternidade deixou de ser uma etapa obrigatória da vida feminina para se tornar uma escolha. Isso explica parte dessa mudança epidemiológica.

 

Quais são os principais cuidados para uma gestação saudável após os 40?

Eu resumiria em planejamento combinado com um pré-natal adequado e um estilo de vida saudável. Antes de engravidar é indicado fazer uma consulta pré-concepcional para avaliar doenças, medicamentos, vacinas, peso, pressão arterial e histórico familiar. Também é necessário iniciar ácido fólico antes da concepção, na dose indicada pelo médico conforme o perfil da mulher. É importante avaliar doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, tireoide, doenças cardíacas ou renais, etc. Além disso, manter atividade física adequada é essencial, além de uma alimentação equilibrada e controle de peso. Não fumar e não consumir álcool durante a gestação também são cuidados cruciais. Indico, também, fazer o pré-natal precocemente e conversar sobre rastreamento genético e cromossômico, assim como de pré-eclâmpsia.

 

O que muda no parto de uma gravidez tardia?

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Essa é uma questão muito importante, porque existe um mito de que mulheres com mais de 40 anos precisam fazer cesárea. Não precisam. A idade, isoladamente, não é indicação de cesariana. Se a mãe e o bebê estão bem e não existe indicação obstétrica, o parto vaginal é uma opção segura e adequada. O que pode acontecer é haver maior frequência de algumas complicações, como hipertensão, alterações placentárias, alterações do crescimento fetal ou outras condições que eventualmente levem à necessidade de antecipar o parto ou realizar uma cesariana. Mas a idade não define a via de parto. Quem define é a condição clínica da mãe, do bebê e a evolução da gestação.

 

Quais são os cuidados para conseguir engravidar após os 35 anos pela primeira vez?

Aqui eu faria uma distinção fundamental: não devemos esperar um ano inteiro para procurar ajuda quando a mulher já tem 35 ou 40 anos. Para mulheres com menos de 35 anos, geralmente se considera investigação de infertilidade após 12 meses de tentativas regulares sem contracepção. A partir dos 35 anos, a avaliação pode ser antecipada, especialmente se houver fatores de risco ou se a mulher estiver próxima dos 40.

 

Antes de tentar, vale procurar o ginecologista para avaliar histórico menstrual e ovulatório; investigar doenças ginecológicas; revisar medicamentos; avaliar fatores de risco; atualizar vacinas; iniciar suplementação adequada; avaliar estilo de vida; discutir reserva ovariana quando houver indicação; e avaliar o parceiro também, porque fertilidade é uma questão do casal.

 

A gravidez depois dos 35 ou 40 anos é um reflexo de uma transformação social. As mulheres estudam mais, ingressam no mercado de trabalho, conquistam independência financeira, planejam suas famílias e, muitas vezes, encontram o momento de serem mães mais tarde. Isso é uma realidade que precisa ser acolhida pela medicina.

 

Mas acolher não significa ignorar os riscos. A fertilidade diminui com a idade e algumas complicações da gestação se tornam mais frequentes. Por isso, quanto mais tarde a mulher decide engravidar, mais importante é o planejamento reprodutivo e o acompanhamento adequado.

 

É papel do ginecologista sempre trazer o tema da maternidade para as consultas, acolhendo as preocupações e avaliando as possibilidades que existem, assim como é nosso nosso papel auxiliar a mulher a construir sua própria saúde, o que já a prepara para uma gestação mais saudável.

 

Hoje, muitas mulheres chegam aos 40 com excelente condição clínica, mas também temos uma população com maior prevalência de obesidade, hipertensão, diabetes e outras doenças crônicas. Portanto, não é apenas a idade cronológica que importa; é a idade associada ao estado de saúde global da mulher.

 

Sobre a HU Brasil

O HUJM-UFMT integra a HU Brasil desde novembro de 2013. Criada por meio da Lei nº 12.550/2011 e vinculada ao Ministério da Educação (MEC), a estatal nasceu tendo como nome oficial Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh). É responsável pela administração de 47 hospitais universitários federais em 25 unidades da federação.

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