Comitiva aproveita período da seca para transferir os animais de uma região a outra
Uma cena que só o Pantanal pode entregar: o encontro entre o gado e a natureza, em uma paisagem que muda conforme o ritmo das águas. O registro foi feito na região de Miranda, em Mato Grosso do Sul.
Há anos, a pecuária divide espaço com a maior planície alagável do mundo, adaptando-se às diferentes fases do Pantanal. Entre dezembro e abril, o período de chuvas faz os rios transbordarem e transforma grandes áreas da planície em extensos campos alagados.
A partir de abril, com o fim gradual das chuvas, as águas começam a baixar e dão lugar novamente à vegetação, que ganha força com a umidade acumulada no solo. Já durante o período de seca, entre agosto e novembro, as estradas de terra voltam a ficar mais acessíveis e as comitivas passam a fazer parte da paisagem pantaneira.
É nesse cenário que o gado se mistura à natureza e protagoniza uma das imagens que ajudam a traduzir a identidade do Pantanal. A fotografia foi feita pelo biólogo e fotógrafo Rafael Del Prete, que destacou a importância histórica da pecuária para o bioma.
“Há gerações, a pecuária faz parte da história e da cultura pantaneira, adaptando-se ao ritmo das águas, das secas e das grandes extensões de campo. A comitiva, conduzindo o gado pelas estradas e campos do Pantanal, é uma das imagens que melhor representam essa relação entre o homem, a pecuária e a natureza”, escreveu.
O Pantanal que sabe ser único
Rico em diversidade na fauna e flora, o Pantanal é um bioma que não sabe ser o mesmo ao longo dos 12 meses de um ano. Banhado por diversos rios, a região se torna uma planície alagável, em épocas de chuva, mas também é capaz de tornar campos floridos a perder de vista.
Para entender melhor o fenômeno da cheia que faz a água tomar conta de grande parte do bioma, o biólogo, mestre em ecologia e conservação, e superintendente executivo da Fundação Neotrópica do Brasil, Kwok Chiu Cheung, destaca a formação da bacia pantaneira, que funciona como uma região de coleta de água da parte mais alta do relevo.
“Todas essas chuvas que abastecem os rios da parte de cima do planalto acabam sendo drenados, correndo pra parte baixa do relevo, que é essa enorme planície. Ele [o Pantanal] é um ecossistema relativamente mais novo do ponto de vista geológico. Estudos mostram que ele foi formado justamente quando o continente da América do Sul, a placa de Nasca, colidiu com a outra placa adjacente. Isso ergueu formando os andes e o centro do continente ele dobrou, afundou, formando o Pantanal”, afirmou.
Diante da nova formação geográfica, a região do Pantanal se tornou propícia para receber água de outros pontos da região, alagando em épocas de grandes chuvas.
“Por isso que ele tem essa grande área inundada. O fato dela alagar todos os anos é um fenômeno natural, está relacionado diretamente ao ciclo de chuvas que a gente tem aqui. Lembrando que o nosso cerrado tem um ciclo de chuvas bem definido. Elas [as chuvas] começam por volta de novembro, dezembro, e permanecendo até abril/maio. Ou seja, esse período que chove bastante aqui na região acaba levando essas águas para a Planície Pantaneira, que naturalmente vai inundar após o período de chuvas na parte mais alta do planalto”, pontuou.































