Declaração de Consenso e novo relatório traçam cinco ações prioritárias para uma região onde o baixo letramento em saúde custa bilhões de dólares por ano e afeta desproporcionalmente mulheres, idosos e populações de baixa renda
São Paulo, 7 de abril de 2026 – Um painel de 14 especialistas internacionais, incluindo pesquisadores do Brasil e da Colômbia, publicou em 2026 a Declaração de Consenso inédita, acompanhada do relatório “From consensus to action: driving progress on health literacy” (“Do consenso à ação: impulsionando o progresso na alfabetização em saúde em tradução livre”), com recomendações práticas para colocar o letramento em saúde no centro das políticas públicas. A iniciativa integra o programa Índice de Inclusão em Saúde, do Economist Impact, com apoio da gigante de consumo especializada em saúde diária – Haleon, e marca a transição do diagnóstico para a implementação de soluções concretas.
O grupo reúne nomes de referência global, incluindo a Profa. Virginia Visconde Brasil (UFG / Rede Brasileira de Letramento em Saúde) e a Profa. Lilliana Villa Vélez (Universidad de Antioquia, Colômbia), além de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS), da International Health Literacy Association e de instituições de 10 países.
A urgência do tema é respaldada por evidências robustas: a Fase 3 do Health Inclusivity Index (2025) demonstrou que reduzir o baixo letramento em saúde em 25% poderia gerar uma economia de US$ 303 bilhões por ano nos 40 países analisados – o maior potencial de redução de custos entre as sete condições de saúde avaliadas. Agora, o foco está em transformar esse potencial em impacto real.
Os dados também evidenciam o tamanho do desafio. Em todos os países analisados, os custos anuais de saúde por pessoa com baixo letramento são 2,8 vezes maiores do que entre aqueles com alto letramento – impulsionados pelo maior uso de medicações prescritas (70% vs. 41%), além de mais consultas médicas e atendimentos de emergência. Na América Latina, esse cenário é ainda mais complexo: desigualdades socioeconômicas, diversidade linguística e a fragmentação dos sistemas de saúde ampliam essas disparidades, reforçando a necessidade de ações coordenadas e estruturais na região.
Retrato por país
Brasil
Reduzir o baixo letramento em saúde em 25% geraria R$ 10 bilhões (US$ 1,8 bilhão) em ganhos anuais para o país. Hoje, o custo individual de saúde para quem tem baixo letramento é de R$ 1.444 por ano, contra R$ 523 para quem tem alto letramento. [3] Um estudo realizado em Unidades de Saúde da Família de Altamira (PA) encontrou que 24,5% dos usuários da atenção primária apresentam letramento inadequado e 16,5% estão em nível limítrofe, sendo que baixa escolaridade e baixa renda aumentam o risco em cinco e quatro vezes, respectivamente. [4]
Além do letramento, a Fase 3 revela outras oportunidades expressivas para o Brasil. Reduzir a poluição do ar aos níveis recomendados pela OMS evitaria mais de 69 mil mortes por ano e geraria R$ 10 bilhões adicionais em benefícios econômicos, com os maiores ganhos concentrados nas populações de menor renda. Na saúde bucal, intervenções direcionadas por nível de renda poderiam economizar R$ 64 bilhões (US$ 11,3 bilhões) em custos de cárie ao longo da vida – quase o dobro dos R$ 34 bilhões de intervenções universais. Já a gestão eficaz da doença periodontal geraria economia de R$ 43 bilhões (US$ 7,6 bilhões) em custos de diabetes tipo 2 ao longo de 10 anos. [3]
Entre as mulheres brasileiras em idade reprodutiva, 16,1% têm anemia; atingir a meta dos ODS de redução de 50% geraria economia de 43% nos custos associados. Na prevenção musculoesquelética, os ganhos seriam de 42% para idosos (50+ anos) e 43% para mulheres. Na osteoporose, prevenir fraturas de quadril e coluna traria economia de 22%. [3]
México
O México apresenta o maior potencial absoluto de economia entre os países latino-americanos analisados: Ps 179 bilhões (US$ 8,9 bilhões) em ganhos anuais com redução de 25% no baixo letramento. O custo individual de saúde para quem tem baixo letramento é de Ps 39.537, contra Ps 14.247 para alto letramento. [5] Dados da Encuesta Nacional de Salud y Nutrición (ENSANUT 2016) reforçam a dimensão do desafio: apenas 24,5% dos pacientes diabéticos no país reportam controle adequado da doença, refletindo barreiras significativas de letramento e autocuidado. [6]
Na poluição do ar, quase 28 mil mortes anuais poderiam ser evitadas, com ganhos de Ps 21 bilhões (US$ 1 bilhão). Na saúde bucal, intervenções direcionadas por renda poderiam economizar Ps 195 bilhões (US$ 9,7 bilhões) em custos de cárie – contra Ps 106 bilhões de abordagens universais. A gestão da doença periodontal economizaria Ps 74 bilhões (US$ 3,7 bilhões) em diabetes tipo 2 em 10 anos. Entre as mexicanas em idade reprodutiva, 15,3% têm anemia, com potencial de economia de 48% ao atingir a meta dos ODS. Na prevenção musculoesquelética, os ganhos seriam de aproximadamente 40%, e na osteoporose, de 22%. [5]
Colômbia
Investir em letramento em saúde na Colômbia geraria Ps 9,4 trilhões (US$ 2,2 bilhões) em ganhos anuais. O custo individual de saúde para pessoas com baixo letramento é de Ps 4,6 milhões por ano, contra Ps 1,7 milhão para quem tem alto letramento. [7] Um estudo realizado em clínicas de atenção primária colombianas demonstrou que pacientes do regime subsidiado (menor renda) têm letramento em saúde significativamente menor do que os do regime contributivo, com impacto direto na qualidade de vida relatada. [8]
A Colômbia registra a maior taxa de anemia entre mulheres em idade reprodutiva dos países latino-americanos analisados: 21,2%. Atingir a meta dos ODS geraria economia de 48% nos custos associados. Na poluição do ar, mais de 9 mil mortes anuais poderiam ser evitadas. Intervenções direcionadas em saúde bucal economizariam Ps 15,7 trilhões (US$ 3,8 bilhões), e a gestão periodontal, Ps 5,1 trilhões (US$ 1,2 bilhão) em custos de diabetes. Na prevenção musculoesquelética, os ganhos superam 40%. [7]
Costa Rica
Mesmo em uma economia menor, Costa Rica teria US$ 340 milhões em ganhos anuais com a redução do baixo letramento em saúde. O custo individual é de US$ 1.358 (baixo letramento) contra US$ 489 (alto letramento). O país se destaca pelo maior potencial percentual de economia em anemia entre os países LATAM analisados: 55% de redução de custos ao atingir a meta dos ODS. Na saúde bucal, intervenções direcionadas gerariam economia de US$ 427 milhões, e a redução da poluição do ar evitaria mais de 1.700 mortes por ano, com ganhos de US$ 78 milhões. [9]
Argentina
A Argentina não integra os 40 países avaliados pelo Health Inclusivity Index, mas pesquisas acadêmicas locais confirmam que o desafio do letramento em saúde é igualmente relevante no país. Um estudo do Hospital de Clínicas da Universidade de Buenos Aires encontrou que 30,1% dos pacientes apresentavam letramento em saúde inadequado, com forte associação com baixo nível educacional – pacientes com até 7 anos de educação formal tinham 45 vezes mais chance de ter letramento inadequado. [10] Outro estudo do mesmo grupo, com pacientes diabéticos, encontrou prevalência ainda maior: 60,3% apresentavam letramento inadequado, com impacto direto no controle glicêmico (hemoglobina glicada de 8,15% vs. 7,15%). [11]
Esses dados são particularmente relevantes considerando a fragmentação do sistema de saúde argentino entre setor público, obras sociais e medicina privada, que amplifica as barreiras de navegação para populações vulneráveis. Embora o país não faça parte da amostra do Índice, os achados globais – como o fato de que pessoas com baixo letramento têm custos de saúde até 2,8 vezes maiores – são consistentes com a evidência local e reforçam a urgência de incluir o letramento em saúde na agenda política da região.
Cinco ações para mudar o cenário
A mensagem central das novas publicações é uma mudança de paradigma: o letramento em saúde deve deixar de ser tratado como déficit individual e se tornar responsabilidade compartilhada de governos, sistemas de saúde, setor privado e sociedade civil. [12]
1. Abordagem intersetorial – Integrar letramento em políticas de saúde, educação, trabalho e tecnologia. Consagrá-lo como direito humano. Países como Escócia, Austrália, Alemanha e China já possuem planos nacionais.
2. Organizações de saúde transformadoras – Redesenhar processos para serem compreensíveis. Técnica “teach-back” eficaz em 95% dos estudos.
3. Cocriação de informações – Materiais desenvolvidos com populações. Bulas e ferramentas digitais como áreas prioritárias. IAs já usadas para simplificar comunicações (com supervisão humana).
4. Combate à desinformação – Ameaça global (WEF, 2024). Farmácias comunitárias e líderes locais como aliados. Na Etiópia, 40 mil agentes comunitários ajudaram a reduzir mortalidade materna em 73%.
5. Medição e dados – +200 instrumentos, cenário fragmentado. China: letramento subiu de 6% (2008) para 29,7% (2023). Medição para identificar barreiras, nunca para rotular.
(Fonte das 5 ações: referências [12] e [13])
Investir em letramento em saúde não é apenas uma questão de equidade – é uma das maiores oportunidades econômicas disponíveis para os governos da América Latina.
REFERÊNCIAS E FONTES
[1] Economist Impact. Health Inclusivity Index: Phase 3 Report – Health drives wealth: the economic impact of health inclusivity. London: Economist Impact, 2025. impact.economist.com/projects/health-inclusivity-index
[2] Health Inclusivity Index, Phase 3 Country Snapshots (Brazil, Mexico, Colombia, Costa Rica). Economist Impact, 2025. Dados sobre custos 2,8x maiores são consistentes nos quatro países.
[3] Economist Impact. Health Inclusivity Index: Phase 3 Country Snapshot – Brazil. 2025.
[4] Lima RIM, Parente MA, Ferreira TISP, et al. Letramento funcional em saúde de usuários da atenção primária de Altamira, Pará. Rev Bras Med Fam Comunidade, 2022; 17(44):2763.
[5] Economist Impact. Health Inclusivity Index: Phase 3 Country Snapshot – Mexico. 2025.
[6] Encuesta Nacional de Salud y Nutrición de Medio Camino 2016 (ENSANUT-MC 2016). Instituto Nacional de Salud Pública, México.
[7] Economist Impact. Health Inclusivity Index: Phase 3 Country Snapshot – Colombia. 2025.
[8] Lemley SM, et al. Health-related quality of life and health literacy among adult primary care patients with subsidized or contributive health insurance in Colombia. PMC/NIH, 2021.
[9] Economist Impact. Health Inclusivity Index: Phase 3 Country Snapshot – Costa Rica. 2025.
[10] Konfino J, Mejía R, Majdalani MP, Pérez-Stable EJ. Alfabetización en salud en pacientes que asisten a un hospital universitario. Medicina (Buenos Aires), 2009; 69: 631-4.
[11] Mejía R, et al. Alfabetización en salud y control de la diabetes en pacientes de un hospital universitario de Argentina. Medicina (Buenos Aires), 2017; 77(3).
[12] Economist Impact. From consensus to action: driving progress on health literacy. Policy Brief. London: Economist Impact, 2026.
[13] Economist Impact. Health Literacy Consensus Statement. Health Inclusivity Index. London: Economist Impact, 2026.
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