CUIABÁ
Pesquisar
Close this search box.

Facilidade de pagamento pode esconder riscos na contratação de cirurgia plástica, alerta especialista

publicidade

SEGURANÇA DO PACIENTE 

Consórcios, empréstimos e empresas que oferecem pacotes para procedimentos exigem atenção do paciente; regras do CFM restringem a relação entre médicos e empresas de financiamento

Parcelar uma cirurgia plástica ou recorrer a crédito pode tornar financeiramente viável um procedimento que exige planejamento. Mas o valor da parcela não deve ser o ponto de partida para uma decisão que envolve avaliação médica, estrutura hospitalar, riscos cirúrgicos e recuperação.

Para o cirurgião plástico Vidal Guerreiro, mestre em Cirurgia Plástica pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o primeiro passo deve acontecer no consultório, e não na contratação de um pacote.

WhatsApp Image 2026-09-17 at 12.35.20.jpeg

“Às vezes, o paciente chega dizendo: ‘Doutor, eu já fechei a cirurgia, agora preciso saber como vai ser’. E a ordem deveria ser justamente o contrário. Primeiro precisamos avaliar aquela pessoa, entender o que ela deseja, saber se existe indicação e se aquele é um momento seguro para operar. Só depois faz sentido discutir valores e formas de pagamento”, explica.

A atenção deve ser ainda maior quando existem empresas intermediando a contratação de cirurgias. Desde 2008, uma resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) proíbe que médicos mantenham vínculo com empresas que anunciem ou comercializem planos de financiamento ou consórcios para procedimentos médicos. A vedação também está incorporada ao Código de Ética Médica.

A norma estabelece ainda que diagnóstico, indicação do tratamento e execução das técnicas são responsabilidades do médico e não podem ser transferidos para uma empresa intermediadora.

“Cirurgia não é um produto de prateleira. Duas pessoas podem procurar exatamente o mesmo procedimento e, depois da avaliação, uma ter indicação e a outra não. Pode ser necessário emagrecer antes, controlar uma condição de saúde, fazer exames complementares ou simplesmente concluir que aquela cirurgia não é adequada. Nenhum contrato comercial pode substituir essa avaliação”, afirma Vidal.

Leia Também:  Bradesco prevê mais de R$ 50 bi para o Plano Safra 25/26

Parcela não mostra necessariamente o custo total

Outro cuidado é olhar além do valor mensal apresentado na contratação. Uma cirurgia pode envolver despesas com exames, equipe médica, anestesia, hospital, materiais, medicamentos e diferentes cuidados durante o período de recuperação.

Dependendo do procedimento, o pós-operatório também pode demandar malhas ou cintas, acompanhamento profissional, medicamentos e afastamento temporário das atividades de trabalho. Por isso, o planejamento financeiro deve considerar o processo completo.

“Uma parcela pode parecer confortável isoladamente. Mas eu sempre digo ao paciente que ele precisa pensar também no dia seguinte à cirurgia. Vai precisar se afastar do trabalho? Ter alguém ajudando em casa? Comprar medicamentos? Há custos que não podem aparecer como surpresa justamente durante a recuperação”, exemplifica o cirurgião.

Para Vidal, assumir uma dívida que comprometa a capacidade de cumprir o próprio pós-operatório é um sinal de que a decisão financeira precisa ser reavaliada.

Avaliação médica deve acontecer antes da contratação

Condições clínicas, uso de medicamentos, tabagismo, histórico de saúde, características anatômicas e expectativas sobre o resultado podem interferir tanto na indicação quanto no momento adequado para realizar uma cirurgia.

Por isso, contratar previamente um procedimento pode colocar o paciente em uma situação delicada caso a avaliação médica posterior mostre que aquela cirurgia não está indicada ou precisa ser adiada.

A própria Resolução CFM nº 1.836/2008 estabelece que somente depois do diagnóstico e da indicação terapêutica cabe ao médico definir o valor e a forma de cobrança de seus honorários, respeitando as normas éticas da profissão.

“Quando alguém já pagou ou assumiu várias parcelas, pode surgir uma pressão emocional para fazer a cirurgia porque o compromisso financeiro já existe. Mas uma decisão médica não pode ser tomada porque o paciente sente que agora precisa ‘aproveitar’ aquilo que contratou. Se não houver condições adequadas, a cirurgia não deve acontecer”, reforça Vidal.

Leia Também:  Começa prazo do IR: veja como destinar parte do imposto ao Hospital Pequeno Príncipe

Nova regra reforça independência das decisões médicas

Em junho de 2026, o CFM publicou uma nova resolução proibindo pagamento, recebimento ou concessão de vantagens econômicas destinadas a influenciar a contratação de médicos ou a indicação e o encaminhamento de serviços de saúde.

A Resolução CFM nº 2.460/2026 alcança também formas de intermediação que subordinem decisões profissionais ou assistenciais a benefícios econômicos, incluindo estruturas empresariais, plataformas digitais e outros modelos de gestão.

Na prática, a norma reforça um princípio essencial: uma decisão sobre saúde deve ser baseada na necessidade e na avaliação clínica do paciente, e não no interesse financeiro de quem participa daquela relação.

“É perfeitamente compreensível que alguém precise se organizar financeiramente para realizar uma cirurgia. O cuidado está em não deixar que a facilidade de pagar se transforme no motivo para operar. A pergunta principal nunca deve ser apenas ‘quanto fica por mês?’, mas ‘eu tenho indicação, estou em boas condições e sei exatamente o que estou contratando?'”, afirma.

Para Vidal, planejamento financeiro e planejamento médico podem caminhar juntos, desde que a ordem das decisões seja respeitada.

“Uma cirurgia eletiva permite planejamento. O paciente pode pesquisar, conversar com o médico, entender os riscos, organizar a vida financeira e decidir com tranquilidade. Quando aparece pressão para fechar naquele momento, medo de perder uma promoção ou promessa de facilidade demais, é justamente a hora de parar e buscar mais informação”, finaliza.

Mais informações: drvidalguerreiro.com.br
Instagram: @DrVidalGuerreiro

HF Comunicação Estratégica
Alline Marques

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade