Estado teve 53 mortes em 2025, um aumento de 11% em relação a 2024. Está entre os primeiros em tentativas de feminicídio
Da Reportagem
Bicampeão em feminicídios em 2023 e 2024, Mato Grosso encerrou 2025 com a terceira maior taxa de assassinato de uma mulher cometido por razões de gênero do Brasil.
São 2,7 mortes para cada 100 mil mulheres, quase o dobro da média nacional de 1,4.
Apenas Acre, com taxa de 3,2, e Rondônia, com 2,9 casos, apresentaram indicadores superiores.
Em números absolutos, foram 53 feminicídios, seis a mais que no ano anterior, quando 47 mulheres foram mortas e deixou teve a maior taxa proporcional deste tipo de crime do país.
No entanto, entre um ano e outro, o crescimento foi de 11%, na contramão da redução observada nos homicídios de mulheres no Estado.
Os dados constam do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, elaborado anualmente pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), com base em dados oficiais encaminhados pelas secretarias estaduais de segurança.
No país, em números absolutos, ocorreram 1.571 feminicídios no ano passado, um aumento de 4% comparado a 2024, com 1.504 mulheres mortas.
O levantamento mostra que o Estado também ocupa posições de destaque negativo em outros indicadores relacionados à violência contra a mulher.
Das 95 mulheres assassinadas em 2025, 53 foram vítimas de feminicídio.
Isso significa dizer que 55,8% das mortes violentas de mulheres foram classificadas como crimes de gênero. Em 2024, essa proporção era de 47,5%.
De acordo com o estudo, o crescimento dos feminicídios ocorreu mesmo com a redução de 5,5% no total de homicídios de mulheres, que caiu de 99 para 95 vítimas.
O dado indica que, embora menos mulheres tenham sido assassinadas de forma geral, aumentou o peso dos crimes cometidos em contexto de violência doméstica, familiar ou de menosprezo à condição feminina.
O Fórum sustenta que os “limites das medidas exclusivamente repressivas (contra a violência doméstica ou familiar) torna-se necessária uma agenda baseada em prevenção, intervenção precoce e monitoramento dos fatores de risco, especialmente diante da persistência da violência doméstica e do aumento do descumprimento das medidas protetivas”.
Um dos casos de repercussão foi de Emelly Beatriz Azevedo Sena, 16 anos, morta por Nataly Helen Martins Pereira com o objetivo de roubar o recém-nascido.
O crime ocorreu no bairro Jardim Florianópolis, em Cuiabá.
Nataly Helen, que simulou gravidez e realizou uma cesárea improvisada na vítima, responde por feminicídio, tentativa de aborto, subtração de recém-nascido, entre outros crimes.
O bebê sobreviveu e ficou sob a guarda da família da vítima.
MEDIDAS PROTETIVAS NÃO IMPEDEM 7 MORTES – Outro dado que chama atenção é o número de mulheres que possuíam medida protetiva de urgência ativa quando foram mortas.
Em 2025, sete vítimas de feminicídio em Mato Grosso estavam formalmente protegidas por decisão judicial.
No ano anterior, havia sido registrado um caso nessa condição.
As medidas protetivas podem estabelecer o afastamento do agressor, proibição de contato ou aproximação da vítima e outras restrições.
Entretanto, o aumento das mortes entre mulheres que já haviam buscado proteção reforça a necessidade de avaliar a efetividade do acompanhamento dos casos considerados de maior risco.
O Anuário mostra ainda que foram registrados 2.292 descumprimentos de medidas protetivas no cenário estadual no ano passado, alta de 15,5% sobre os 1.956 casos contabilizados em 2024.
A taxa chegou a 58,9 ocorrências para cada 100 mil habitantes.
TENTATIVAS DE FEMINICIDIOS – A violência também avançou entre os crimes que não resultaram em morte.
De acordo como estudo, Mato Grosso registrou 241 tentativas de feminicídio em 2025, contra 171 no ano anterior. O aumento foi de 38,7%.
Com taxa de 12,5 tentativas por 100 mil mulheres, o Estado ocupa a segunda posição nacional, atrás apenas do Amapá, que registrou taxa de 14,9. A média brasileira foi de 3,8.
Ao todo, foram 403 tentativas de homicídio contra mulheres em nível estadual.
Desse total, 59,8% foram classificadas como tentativas de feminicídio. Em 2024, essa proporção era de 48,9%.
O dado revela, conforme o Fórum, que o autor do feminicídio não desistiu de matar: ele não conseguiu.
“As mulheres que hoje figuram nessa estatística podem representar, amanhã, parte das vítimas de feminicídio consumado”, aponta.
Preocupam ainda os casos de lesão corporal dolosa contra mulheres em contexto de violência doméstica.
Neste tipo de crime, o território mato-grossense apresentou a segunda maior taxa do país.
O média estadual alcançou 514,6 vítimas por 100 mil mulheres, praticamente o dobro da média nacional, de 261,7.
Apenas o Paraná apresentou resultado ligeiramente superior, com 517,2.
Segundo o anuário, foram 9.954 vítimas em 2025, média superior a 27 casos por dia.
O número representa crescimento de 5,5% em relação ao ano anterior, quando haviam sido registrados 9.287 casos.
Além das agressões físicas, foram registrados 18.876 casos de ameaças contra mulheres, 2.970 ocorrências de perseguição e 3.720 registros de violência psicológica.
Também os casos de violência psicológica cresceram 70,3% em um ano, fazendo o território mato-grossense atingir a segunda maior taxa do país, de 192,3 registros por 100 mil mulheres.
Já as ocorrências de perseguição, também conhecidas como stalking, aumentaram 31,6%.
Para os responsáveis pelo estudo, o conjunto dos indicadores mostra que a violência letal é apenas a etapa mais extrema de uma sequência de crimes contra mulheres que frequentemente inclui ameaças, controle da rotina, perseguições, agressões físicas e descumprimentos de decisões judiciais.
A reportagem do DIÁRIO procurou representantes do Governo do Estado para tratar sobre o assunto, mas até o fechamento desta matéria não obteve um retorno.
































