O que começou com desenhos, papelão e peças reaproveitadas no quintal de casa levou João Gabriel a voar em um avião bimotor e em um helicóptero. Agora, o garoto ganhou um curso para dar os primeiros passos na aviação. Assista o vídeo do primeiro voo realizado por João no final deste artigo.
Durante anos, João Gabriel Nery imaginou como seria pilotar um avião. Aos 12 anos, encontrou uma maneira de ficar mais perto desse sonho: construiu sua própria aeronave no quintal de casa, em Goiânia, usando ferragens, papelão, potes plásticos e outros materiais reaproveitados.
O avião tinha asas, rodas, cabine e painel de comandos. Faltava justamente o que poderia fazê-lo decolar: um motor. Mesmo assim, o garoto passava horas sentado diante dos controles, simulando voos que, até então, só existiam na imaginação.
Mas a história ganhou um novo capítulo. No dia 7 de outubro de 2026, depois que a construção artesanal repercutiu nas redes sociais e chamou a atenção de profissionais da aviação, João Gabriel deixou o quintal e entrou na cabine de um avião de verdade.
Naquele dia, voou em um bimotor Seneca III e em um helicóptero Robinson R44. Também conheceu instalações utilizadas na formação de pilotos e experimentou simuladores de voo. A experiência ainda lhe rendeu um presente: um curso teórico de piloto.
Ao contar como foi a experiência, o menino resumiu a realização do sonho em poucas palavras:
“Foi muito bom. Foi incrível.”
A declaração foi dada após os passeios aéreos que transformaram uma história de criatividade infantil em uma oportunidade concreta de aproximação com a carreira aeronáutica.
Um sonho que começou no papel e levou quatro anos para ganhar forma
A primeira tentativa de João Gabriel não envolveu ferro nem ferramentas. Começou com desenhos.
Em 2022, quando tinha sete anos, ele passou a se interessar por aeronaves depois de assistir a reportagens sobre aviação. Desenhava modelos, imaginava estruturas e tentava descobrir como transformar as ideias em algo que pudesse construir.
Seu pai, João Teixeira, de 56 anos, trabalha como feirante e acompanhou as experiências desde o início. Os dois tentaram utilizar bambu, canos de PVC e arame, mas os materiais não ofereciam a resistência necessária.
Em uma das tentativas, João Teixeira chegou a desmontar uma tenda utilizada no trabalho para aproveitar suas peças. O resultado não foi suficiente para concluir o avião, e a família continuou buscando alternativas.
Foi somente em julho de 2026 que o projeto avançou. Com a ajuda de um serralheiro, João Gabriel conseguiu transformar os desenhos em uma estrutura metálica. O garoto participou das orientações de montagem, enquanto o pai auxiliava na obtenção dos materiais.
A estrutura recebeu um acabamento pouco convencional. Papelão ajudou a formar partes da fuselagem. Potes de sorvete, palitos de churrasco, cola quente e tampinhas de garrafas PET foram incorporados aos detalhes da aeronave.
O trabalho durou aproximadamente 40 dias. Em 5 de setembro, o avião estava pronto. Não tinha propulsão nem condições técnicas para realizar um voo, mas reproduzia elementos de uma aeronave e permitia ao menino experimentar, em terra, a sensação de ocupar uma cabine.
João Teixeira explicou o significado do projeto para a família:
“Tem muito esforço, tem carinho, tem dedicação, tem até sonho de voar nesse avião dele.”
O pai também destacou que a criação partiu do próprio filho, responsável por orientar a construção e indicar como imaginava cada parte do avião.
O avião que não voava começou a percorrer as ruas de Goiânia
Com o projeto concluído, a cabine se tornou um dos lugares preferidos de João Gabriel. Depois da escola, o garoto passava longos períodos sentado diante do painel, movimentando os comandos e imaginando que estava pilotando.
O pai conta que, quando perguntava o que ele fazia dentro da aeronave, recebia uma resposta simples:
“Tô me imaginando voando.”
Para tornar a brincadeira ainda mais próxima da experiência que o filho desejava, João Teixeira improvisou um uniforme de piloto.

O avião também saiu do quintal, embora continuasse sem levantar voo. Com João Gabriel sentado na cabine, o pai empurrava a estrutura sobre rodas pelas ruas do bairro.
Em uma dessas saídas, percorreram quase um quilômetro até uma praça. A construção despertou a curiosidade dos moradores, que se aproximaram para observar, conversar e fotografar o trabalho.

O interesse do menino por invenções não se restringia à aviação. Antes de concluir o avião, ele já havia criado versões artesanais de relógios, telescópios, celulares e até uma urna eletrônica. Em 2022, também chamou atenção ao produzir manualmente figurinhas para um álbum da Copa do Mundo.
Essas experiências ajudam a compreender a persistência com que enfrentou os problemas de construção do avião. O resultado não surgiu de uma tentativa isolada, mas de anos de desenhos, experimentações e soluções improvisadas.
Da cabine artesanal ao primeiro voo em um bimotor
A repercussão da história chegou ao piloto Daniel Almeida, que apresentou o caso ao empresário Maurício Teixeira, ligado à MB Aviação, empresa com instalações no Aeroporto de Goiânia.
Maurício se interessou pela trajetória do menino e decidiu conhecer pessoalmente a construção. Visitou a família e organizou um passeio para que João Gabriel pudesse experimentar a aviação fora dos limites de seu projeto artesanal.
O convite se concretizou em 7 de outubro.

João Gabriel embarcou em um Seneca III, avião bimotor, e também realizou um passeio em um helicóptero Robinson R44. Nos registros divulgados, aparece vestido de piloto dentro da cabine, acompanhando a experiência.
A visita não terminou nos voos. O garoto conheceu o Aeroclube de Goiás, teve contato com uma aeronave de instrução e experimentou simuladores dos modelos King Air e Boeing 737.
Simuladores são equipamentos utilizados para reproduzir situações de operação de aeronaves. Dependendo do modelo e da certificação, podem integrar programas de treinamento aeronáutico, permitindo praticar procedimentos e conhecer instrumentos de voo em ambiente controlado.
Para João Gabriel, foi uma oportunidade de observar equipamentos e procedimentos que até então procurava reproduzir de maneira artesanal.
O pai também participou da experiência e contou, em tom de brincadeira, como recebeu o convite feito ao filho:
“Ele achou bom e parece que eu achei melhor do que ele ainda.”
O entusiasmo tinha uma razão concreta. O menino que havia passado anos tentando construir um avião agora conhecia, de perto, o ambiente profissional que desejava integrar.
Um curso de piloto abre uma nova etapa na história
O encontro com os profissionais da aviação trouxe outro desdobramento. Maurício Teixeira, por meio de uma parceria com uma escola, presenteou João Gabriel com um curso teórico de piloto.
O empresário também havia sonhado em ser piloto durante a infância e chegou a construir um avião artesanal, uma experiência semelhante à do garoto.

Em uma publicação nas redes sociais, Daniel Almeida deixou uma mensagem ao menino:
“João Gabriel, que essa seja apenas a primeira de muitas decolagens da sua trajetória!”
João Gabriel disse estar empolgado com a oportunidade de aprender. Conforme as informações divulgadas em 9 de outubro, a previsão era de que suas aulas começassem nesta terça-feira, 13 de outubro. O presente também não representa uma habilitação aeronáutica, que depende do cumprimento de requisitos específicos de formação e certificação.
O garoto afirma que deseja trabalhar como piloto ou mecânico de aeronaves. São caminhos profissionais distintos, mas ambos relacionados ao universo que passou a explorar por meio de suas próprias construções.
Quatro anos depois dos primeiros desenhos, João Gabriel já não depende apenas da imaginação para saber como é estar dentro de uma aeronave em movimento. Conheceu o céu a bordo de um avião real, experimentou um helicóptero e recebeu a oportunidade de estudar os fundamentos da aviação.
O avião de ferro, papelão e tampinhas continua sem capacidade de decolar. Mas foi justamente essa construção, feita com os recursos disponíveis no quintal de casa, que colocou João Gabriel em contato com pessoas capazes de ajudá-lo a dar os próximos passos.
E o garoto que antes se imaginava voando agora tem uma lembrança concreta para acompanhar seus próximos desenhos.
Aperte o play no vídeo abaixo e confira essa aventura do piloto mirin.
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