Procura por lifting facial cresceu quase 79% em quatro anos no Brasil; cirurgião plástico aponta movimento de pacientes que querem reduzir excessos e voltar a se reconhecer no espelho
Lábios muito volumosos, maçãs do rosto excessivamente projetadas e faces que acabam adquirindo características semelhantes começam a perder espaço para uma nova busca nos consultórios: rejuvenescer sem parecer que houve uma intervenção. Depois de anos marcados pela popularização dos preenchimentos e da harmonização facial, cresce o interesse por resultados mais naturais, com menos adição de volume e maior preservação dos traços individuais.
Os números ajudam a dimensionar essa mudança. A pesquisa nacional Padrões de Beleza e Bem-Estar 2026, realizada pelo Opinion Box com 1.275 pessoas, mostrou que 30% dos brasileiros já fizeram procedimentos estéticos permanentes ou de longa duração. Entre esse público, 69% apontaram como objetivo amenizar os sinais do envelhecimento.
Ao mesmo tempo, as cirurgias de rejuvenescimento facial avançaram. Dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS) mostram que o número de facelifts realizados no Brasil passou de 68.013 em 2020 para 121.494 em 2024, crescimento de aproximadamente 78,6% em quatro anos.
O movimento acompanha o que já vem sendo chamado por especialistas de “era do indetectável”: intervenções capazes de produzir uma aparência mais descansada e rejuvenescida, mas sem modificar excessivamente as características individuais.
Para o cirurgião plástico Vidal Guerreiro, mestre em Cirurgia Plástica pela Unifesp e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, a mudança já pode ser percebida dentro do consultório.
“Tenho recebido pacientes que não chegam mais dizendo: ‘quero aumentar isso ou preencher aquilo’. Algumas chegam justamente com a sensação contrária. Dizem: ‘Doutor, olho uma foto minha de alguns anos atrás e sinto que perdi os meus traços’. É uma conversa muito diferente, porque o desejo não é ter outro rosto. É voltar a enxergar o próprio rosto com mais leveza”, explica.
Segundo Vidal, isso não significa que preenchimentos ou outros procedimentos minimamente invasivos tenham deixado de ter indicação. O problema surge quando a adição de volume passa a ser utilizada repetidamente para tratar alterações que nem sempre são decorrentes da perda de volume.
“Imagine uma paciente cuja principal mudança ao longo dos anos foi a queda dos tecidos da face. Se a cada vez que ela percebe essa queda nós simplesmente acrescentarmos mais produto, podemos aumentar o volume sem necessariamente corrigir aquilo que a incomoda. Em alguns casos, chega um momento em que é preciso parar, olhar o rosto como um todo e perguntar: o que realmente está acontecendo aqui?”, exemplifica.
É nesse cenário que procedimentos cirúrgicos como o facelift voltam a ganhar espaço. Diferentemente de tratamentos baseados principalmente na adição de volume, as técnicas modernas de lifting trabalham com o reposicionamento dos tecidos da face. Entre elas estão abordagens em planos profundos, como o deep plane facelift, utilizadas para tratar estruturas que sofreram deslocamento com o envelhecimento.
Na avaliação do cirurgião, a maior procura por cirurgia não deve ser interpretada como uma substituição automática dos tratamentos menos invasivos. Cada recurso tem uma finalidade.
“Eu não acredito numa guerra entre cirurgia, preenchimento, toxina botulínica ou tecnologia. Há pacientes que precisam de muito pouco e não têm indicação cirúrgica alguma. Há outros em que continuar adicionando produto já não faz sentido. A boa indicação é justamente saber quando fazer, quanto fazer e, principalmente, quando não fazer”, afirma.
Nos casos em que existe excesso de preenchimento com ácido hialurônico, também pode ser necessária uma avaliação específica. Dependendo da situação, exames de imagem podem auxiliar na identificação do produto e a hialuronidase pode ser utilizada para dissolver o ácido hialurônico. A decisão deve ser individualizada e realizada por profissional habilitado.
Para Vidal, a mudança mais importante está na expectativa de quem procura o consultório. Se durante determinado período a transformação mais evidente chegou a ser valorizada, agora muitos pacientes chegam com uma preocupação diferente: continuar parecendo eles mesmos.
“Naturalidade não significa sair de uma cirurgia ou de um tratamento exatamente como entrou. Tem que existir uma melhora, senão não faria sentido. Mas o resultado que considero mais bonito é aquele em que a pessoa ouve: ‘Você está ótima, descansada, diferente’, e não: ‘O que você fez no rosto?’. Quando preservamos a identidade, o procedimento não vira protagonista. O protagonista continua sendo o paciente”, conclui.
—



































