Com milhares de espécies nativas ainda pouco exploradas, o Brasil reúne potencial para ampliar a inovação em um segmento que ganha relevância na área da saúde.
Créditos: istock/Inna Dodor
Os fitoterápicos vêm ganhando espaço em meio ao crescimento do interesse da população por um estilo de vida mais saudável e por terapias preventivas. Esse movimento tem impulsionado cada vez mais o investimento no isolamento de princípios ativos de plantas e bioativos naturais para o desenvolvimento de produtos.
Mais do que uma tendência de consumo, os medicamentos fitoterápicos passaram a ocupar um espaço estratégico no mercado da saúde. A transição dos produtos naturais, antes associados principalmente ao conhecimento popular e tradicional, para medicamentos validados por testes laboratoriais e pesquisas clínicas marca uma nova fase do setor no Brasil e no mundo.
Potencial econômico dos fitoterápicos
Plantas utilizadas há séculos por comunidades tradicionais agora despertam o interesse da ciência e da indústria farmacêutica.
Levantamento coordenado pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro com a participação de 979 pesquisadores de 224 instituições em 25 países, consolidado na plataforma Flora do Brasil 2020, aponta que o país possui 46.975 espécies nativas de plantas, algas e fungos, sendo 55% das plantas terrestres exclusivas do território nacional.
Apesar disso, o mercado de fitoterápicos ainda ocupa uma parcela pequena da indústria. Segundo dados do Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico Brasileiro de 2024, o segmento faturou cerca de R$ 825 milhões no país, o equivalente a apenas 0,51% do mercado farmacêutico nacional.
Porém, o cenário global é promissor: de acordo com a consultoria Fortune Business Insights, a área pode alcançar US$ 437 bilhões até 2032.
Para estimular esse mercado, o Ministério da Saúde investiu cerca de R$ 60 milhões em projetos voltados à produção local de fitoterápicos em 1.462 municípios entre 2024 e 2025.
Da tradição popular à validação científica
O avanço da ciência permitiu que plantas tradicionalmente utilizadas passassem a ser estudadas de forma mais rigorosa. Hoje, pesquisadores analisam composição química, segurança, eficácia e possíveis efeitos biológicos antes que um produto seja disponibilizado.
O desenvolvimento e a validação de novos compostos extraídos da natureza dependem diretamente do avanço da pesquisa científica. Profissionais da área de saúde, incluindo biomédicos formados na faculdade de biomedicina, são capacitados para analisar os efeitos biológicos de substâncias naturais no organismo, contribuindo para a validação científica de plantas medicinais.
Entre os exemplos mais conhecidos está o guaraná (Paullinia cupana), oficialmente reconhecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Rico em cafeína, é associado ao aumento da disposição física e mental, além da melhora do estado de alerta e da concentração.
Outro destaque é a espinheira-santa (Maytenus ilicifolia), utilizada no tratamento de gastrites, dispepsias e úlceras. Presente tanto na Rename quanto na Renisus, conta com ação antiulcerogênica e efeito protetor sobre a mucosa gástrica documentados em estudos clínicos.
Já a unha-de-gato (Uncaria tomentosa) possui propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras estudadas principalmente no alívio de sintomas ligados à osteoartrite e à artrite reumatoide. A planta está entre os poucos medicamentos fitoterápicos incorporados à Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename), segundo o Ministério da Saúde.
Perspectivas para o futuro
Além das plantas já consolidadas, outras espécies brasileiras seguem em análise científica. O óleo de copaíba, por exemplo, apresenta compostos com potencial antioxidante e analgésico. Apesar de bastante utilizado em cosméticos devido às propriedades emolientes, ainda depende de estudos clínicos para consolidar aplicações medicinais em humanos.
A andiroba também exemplifica a transição entre uso tradicional e validação científica. Amplamente utilizada por comunidades amazônicas, possui propriedades anti-inflamatórias, cicatrizantes e analgésicas. Embora reconhecida pela Anvisa na Denominação Comum Brasileira da Farmacopeia, ainda não há medicamentos fitoterápicos registrados à base dela.
Mesmo diante dessas limitações, o setor de produtos fitoterápicos apresenta forte potencial de crescimento. O avanço das pesquisas e o interesse crescente por terapias preventivas e produtos naturais impulsionam novos investimentos na área.
Com isso, os fitoterápicos deixam de ocupar apenas um espaço ligado ao conhecimento tradicional e passam a integrar um mercado cada vez mais respaldado por evidências científicas, testes laboratoriais e inovação tecnológica.
































