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O hype passa, as comunidades ficam: o que aprendemos com as ondas do mercado

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Por Yuri “Fly” Uchiyama, CEO da Gamers Club
Lembro perfeitamente da época em que a gente estava tentando captar nosso primeiro investimento Seed para a Gamers Club. Traduzindo do jargão de Venture Capital para o português claro, o Seed é aquele primeiro cheque que os investidores assinam para provar que a sua ideia não é uma loucura completa. O medo de o dinheiro acabar me rendeu noites em claro. Enquanto a gente contava moedas, eu olhava o mercado e via um monte de empresas surfando ondas gigantes de tendências, captando milhões em meses, enquanto o nosso trabalho era o de formiguinha: pessoa por pessoa.
Quem vive de perto o mercado digital já aprendeu a reconhecer esse padrão. Surge alguma coisa nova, todo mundo corre para dentro. O assunto vira pauta, vira promessa de investimento e juram que aquilo vai mudar a história da humanidade. E, por um tempo, parece mesmo.
Foi assim com o Fortnite, que saiu de um jogo para virar um fenômeno cultural absurdo. Foi assim com o Among Us, que virou nosso ponto de encontro na pandemia. E também foi assim com Axie Infinity, que trouxe uma nova lógica de economia digital e atraiu gente que nunca tinha olhado para o mercado de games antes. Em todos esses casos, a sensação era a mesma: quem não entrar agora, ficou para trás.
Só que tem um detalhe que o mercado insiste em esquecer no calor da emoção. O hype sempre passa. E quando a espuma baixa, sobra apenas o que foi construído com fundação real.
Eu gosto de fazer paralelo com esportes. No futebol, você não constrói um time campeão que dura décadas apenas contratando um jogador midiático para vender camisa em um verão. O que mantém o clube vivo é a torcida que vai no estádio na quarta-feira à noite debaixo de chuva. Nos games, a lógica é idêntica. Counter-Strike está aí há mais de 20 anos, o League of Legends segue gigante depois de mais de uma década. Esses jogos vivem de base. E base, nesse mercado, tem nome: comunidade.
A grande verdade é que eu não aprendi isso lendo livro de negócios. Aprendi na prática, errando e tomando susto. Teve um momento na nossa trajetória em que a gente tentou abraçar uma dessas tendências quentes do momento para escalar rápido. Colocamos energia e recursos nisso. O resultado? A galera não apenas ignorou, como cobrou que a gente estava perdendo a nossa essência.
Como a gente opera na lógica de que existem as decisões reversíveis e as que não dão para voltar atrás, essa era claramente uma rota que dava para corrigir. A gente engoliu a vaidade, tirou o pé do acelerador daquela ideia, pediu desculpas e voltou a focar no que importava. A execução de ouvir a comunidade tem que ser mais rápida do que o ego de querer estar certo.
O resumo da ópera é que não existe construção sustentável sem proximidade real com quem está do outro lado do monitor. E proximidade não é disparar uma pesquisa de satisfação fria. É convivência e cobrança dura.
Quando o mercado entra em modo hype, muita empresa passa a operar olhando só para a métrica: custo de aquisição, crescimento acelerado, tentar fazer o gráfico subir a todo custo. Faz parte de fazer dar certo, claro. Mas o problema é quando isso vem sem lastro. Vimos projetos recentes nascerem com muito barulho e investimento, mas que simplesmente derreteram quando o interesse geral diminuiu. Faltava vínculo.
Comunidade não funciona na base da força. Ela demora, dá trabalho e não escala na mesma velocidade de uma campanha patrocinada. As pessoas percebem em dois minutos quando uma marca tenta forçar uma gíria ou simular uma proximidade que não existe. Pertencer exige estar presente quando não é conveniente para o seu faturamento e ouvir quando é desconfortável.
Nós precisamos lembrar que CNPJs são só ferramentas para realizar os sonhos de pessoas. A conexão humana é sempre o fim e a tecnologia é só o meio que a gente usa para entregar isso.

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Hoje, vendo de perto marcas tentando entrar no universo gamer, fica claro quem entendeu essa dinâmica e quem ainda quer controlar o público de cima para baixo. O hype vai continuar existindo. Sempre vai ter uma nova onda prometendo mudar tudo. Mas o que sustenta qualquer mercado depois que a onda quebra na praia são as pessoas que continuam ali, jogando, discutindo e construindo junto com você.

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