A transformação digital ganhou um novo protagonista no ambiente corporativo: as identidades não humanas. APIs, bots, contas de serviço, certificados digitais e, mais recentemente, agentes de inteligência artificial passaram a executar tarefas essenciais para o funcionamento das empresas, conectando sistemas, processando dados e automatizando decisões em uma escala inédita.
Embora invisíveis para a maioria das pessoas, esses recursos digitais já dominam a infraestrutura das organizações. Segundo a Cloud Security Alliance (CSA), as identidades não humanas superam as humanas em uma proporção média de 45 para 1 nas empresas, podendo alcançar 144 para 1 em ambientes nativos na nuvem (cloud-native).
Ao mesmo tempo, dados da Postman apontam que 89% dos desenvolvedores já utilizam IA no trabalho. No entanto, apenas 24% afirmam projetar APIs considerando agentes de IA como consumidores dessas interfaces. O contraste evidencia um dilema atual: enquanto a automação avança em ritmo acelerado, a governança e a segurança da informação ainda tentam acompanhar a expansão dessa nova dinâmica.
Muito além de incorporar tecnologias pontuais, as empresas passaram a operar com uma nova força de trabalho digital. Sempre que um cliente realiza uma compra online, processa uma transferência bancária ou interage com um chatbot que consulta diferentes bases de dados em tempo real, há uma cadeia de identidades digitais atuando nos bastidores. São elas que sustentam a espinha dorsal da economia digital.
Essa mudança altera profundamente a forma como a cibersegurança precisa ser encarada. Se antes o foco da proteção corporativa estava concentrado em dispositivos e usuários humanos, hoje a superfície de ataque é muito mais ampla, dinâmica e composta por elementos automatizados que interagem continuamente entre si.
“Durante muito tempo, as empresas souberam exatamente quantos colaboradores tinham no contrato de trabalho, mas ignoravam quantas identidades digitais faziam parte da operação diária. Hoje, compreender esse ecossistema é tão vital quanto conhecer a própria infraestrutura de TI”, destaca Fernando Dulinski, fundador do Cyber Economy Brasil, hub estratégico criado para acelerar a maturidade cibernética no país.
A chegada dos agentes de IA acelera e complexifica esse cenário. Diferentemente das automações tradicionais e determinísticas, os novos agentes inteligentes consultam múltiplos sistemas, interpretam informações contextuais, tomam decisões e interagem com outras aplicações de forma autônoma. Se por um lado isso maximiza a eficiência operacional, por outro exige uma visão de risco mais abrangente sobre processos críticos de negócio.
Para Dulinski, o desafio atual não consiste em conter ou desacelerar a adoção da inteligência artificial, mas em assegurar que inovação e governança evoluam lado a lado. “A discussão sobre segurança da informação precisa evoluir no mesmo ritmo da transformação digital. Não basta proteger computadores, servidores ou redes. As organizações precisam compreender que APIs, automações e agentes inteligentes já integram a força de trabalho e devem ser geridos como ativos estratégicos”, conclui o especialista.
À medida que a economia se torna cada vez mais hiperconectada e automatizada, proteger um negócio passa por administrar com visibilidade, segurança e governança essa nova realidade. Os “funcionários invisíveis” vieram para ficar, e o sucesso da maturidade digital corporativa dependerá da capacidade de liderar essa transição.


































