A onça-pintada conhecida como Ousado, no Pantanal, ficou “famosa” durante a tragédia dos incêndios que assolaram o bioma em 2020. Ele foi resgatado no Parque Estadual Encontro das Águas – que abriga a maior concentração de onças-pintadas do mundo e fica próximo de Porto Jofre, no Mato Grosso –, com as quatro patas queimadas (com ferimentos de segundo grau) e passou por tratamento longo e inovador para se recuperar. E, assim, se tornou símbolo de resiliência.
Quase um mês depois de ser solto na natureza (fim de novembro de 2020), ele foi flagrado caçando. Em junho de 2021, foi visto acasalando: quem flagrou as onças foi Ailton Lara, guia de turismo e proprietário da pousada Jaguar Camp. Em 2020, o pantaneiro foi um dos que largou tudo para ajudar a resgatar animais dos incêndios.

Foto: Cesar Leite/divulgação Ampara Silvestre
Quando fazia um ano que Ousado estava livre, foi flagrado forte e saudável, tranquilo, à beira de um rio (foto abaixo). Em 2023, relatos de que ele pudesse ter se ferido nos incêndios, que ocorreram novamente no bioma – “estava mancando” – foram logo dissipados.
Na ocasião, profissionais do IMCBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e das organizações Panthera Brasil e Ampara Silvestre, que estavam no mesmo Parque Estadual Encontro das Águas fazendo o monitoramento e eventual resgate de animais feridos pelas chamas, foram em seu encalço. Mas Ousado foi encontrado novamente descansando na margem de um dos rios do parque (foto abaixo).
Foto: ICMBio / divulgação
Em outubro de 2023, Ousado foi novamente fotografado, desta vez em ataque espetacular a um jacaré, a presa favorita das onças-pintadas. O casal espanhol Inma Cañada e José Garcia fez as imagens quando passeava de barco na região de Porto Jofre, mas só compartilhou as imagens em fevereiro de 2024 (foto abaixo).

Foto: Imma Canyada
E assim tem sido – todos querem registrar um cadinho da vida de Ousado -, até que, na semana passada, o biólogo e guia de turismo João Biagini, o mesmo que divulgou o vídeo da onça Patrícia, de 13 anos, dando saltos num rio (como contamos aqui) publicou, em seu Instagram, novo vídeo do Ousado, que entristeceu muita gente (veja no final deste post).
Ele estava deitado bem próximo à água de um rio (primeira foto, acima), enquanto se dividia entre observar um jacaré boiando, não muito distante, e o barco de turistas do qual foram feitas as imagens.
Quando assisti à cena, não acreditei que fosse Ousado, de tão diferente, mas imaginava que ele logo correria para predar o réptil, como sempre fez. Que nada! Ele se manteve tranquilo, e só firmou seus olhos no local onde o jacaré estava quando, um minutinho depois, este mergulhou. A onça-pintada pareceu surpresa com o sumiço do animal (foto abaixo).

é que Ousado olhou direto. Parece surpreso como sumiço do réptil
Foto: reprodução de vídeo
Em sua legenda, João chamou a onça de “meu magrelo favorito” e pediu aos seguidores. “Alguém me explica o que aconteceu?”. Sim, porque a situação era inusitada: um jacaré “dando sopa” tão próximo de uma onça e ela não reagiu?
Entre os comentários, alguns palpites como “ela está de barriga cheia”. Foi o que a princípio pensei e muitos ali, no post, também. Mas sua magreza é visível e logo vieram outros palpites, que me fizeram cair na real. “Ele parece triste”, disse um. “Ele perdeu os dois caninos superiores”, contou outro. Se isso é verdade, não consegue caçar, por isso está tão magro. João logo corrigiu dizendo que quebrou uma das presas inteira e parte da outra.
“Ele sabe que está a caminho do fim da vida. Vai se alimentar de caças mais frágeis. Ele conhece seu limite”, comentou alguém. E, num dos palpites, João respondeu: “Sobre doença não sei. Ele quebrou dentes, perdeu um dedo, a idade tá chegando”.
“Ele tá velhinho, né?”
Enviei o vídeo para o Jorge Salomão, médico veterinário e responsável técnico da Ampara Silvestre, que participou do resgate de Ousado em 2020 e de sua soltura em novembro de 2020 (foto abaixo). “Infelizmente, ele tá velhinho, né?”, respondeu. “Tá com idade por volta de 11, 12 anos que, para uma onça de vida livre, já é avançada”. E completou: “Uma pena todo esse desgaste da vida livre”.
Conclusão: é a vida passando, normalmente, para Ousado. Sua energia e sua concentração não são mais as mesmas e, agora, ele se adapta às novas condições para poder se alimentar e se manter vivo da melhor maneira possível, até que chegue seu fim.
Então, o que nos resta é seguir acompanhando seus passos pelas lentes de biólogos, guias de turismo e fotógrafos que atuam no Pantanal e o encontram em suas andanças. Vamos amá-lo e admirá-lo para sempre, como um símbolo inesquecível do Pantanal.
A seguir, assista ao vídeo gravado pelo biólogo e guia de turismo João:
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Foto reprodução de vídeo






























