Iniciativa idealizada por pesquisadores indígenas e apoiada pelo Instituto Serrapilheira mostra como o saber tradicional, a observação e a vida no território constroem uma ciência viva e rigorosa. Episódios inéditos vão ao ar semanalmente, todas às sextas-feiras.
O que vem à sua mente quando você pensa na palavra “ciência”? Para a maioria das pessoas, a imagem imediata é a de laboratórios fechados, tubos de ensaio e jalecos brancos. No entanto, uma nova produção em áudio convida o público a expandir esse horizonte e olhar para outro tipo de laboratório: um espaço gigante, vivo, sem teto e cercado pela biodiversidade da floresta e do Cerrado, que funciona há milhares de anos.
Lançado oficialmente nesta sexta-feira (18), o podcast Raízes do Saber: a ciência sob a perspectiva indígena nasce para redefinir o diálogo sobre a produção de conhecimento no Brasil. Criado por Helena Corezomaé e Isaac Amajunepá com o financiamento do Instituto Serrapilheira, o projeto propõe um encontro entre o rigor científico e a sabedoria ancestral, apresentando a “ciência dos povos”, um conhecimento construído a partir das vivências, das histórias territoriais e da cosmovisão de cada povo representado.
A primeira temporada é composta por cinco episódios, que serão lançados semanalmente, todas às sextas-feiras. Cada programa traz uma liderança intelectual indígena para conectar sua trajetória de vida à pesquisa e à preservação do futuro.
O episódio de estreia, já disponível, é apresentado por Helena Corezomaé em uma caminhada pela Aldeia Umutina (MT) ao lado de seu pai, Heleno Corezomaé (“Doutor da Terra”), e conta com a participação da cientista indígena Braulina Baniwa. O programa aborda o conceito de Etnociência, mostrando como a observação, o método e a transmissão oral geram uma ciência rigorosa, viva e preventiva.
No segundo episódio, o público acompanha Edna Bakairi, professora e liderança da Brigada de Mulheres Indígenas da Aldeia Santana, em Nobres (MT). A produção explora o Manejo Integrado do Fogo (MIF) sob a ótica ancestral, mostrando como as brigadistas evitam o adensamento lenhoso no Cerrado, combatem os incêndios descontrolados e superam barreiras de gênero na conservação ambiental.
O terceiro episódio apresenta a trajetória de Yaiku Tapayuna, que mora na Terra Indígena Wawi, no Parque Indígena do Xingu. Para enfrentar os impactos das mudanças climáticas na roça tradicional, Yaiku uniu o saber de seu povo à tecnologia social do “Sisteminha Embrapa”, desenvolvida pelo professor Luiz Carlos Guilherme, utilizando a piscicultura e o reuso de água para garantir a soberania alimentar.
Na quarta edição, o convidado é Adriano Bororó Makudá (Bóe-Bororo), bacharel em direito e professor. O episódio analisa o ritual fúnebre, na Aldeia Meruri, como uma complexa engenharia biológica e social que faz o gerenciamento ritual da decomposição do corpo ao longo de meses, celebrando a reciprocidade clânica e descolonizando o saber acadêmico.
O quinto e último episódio da temporada traz a história de Tereza Paresi (Haliti-Paresi), pedagoga e liderança. Com uma trajetória marcada pela resistência, Tereza debate o combate à desinformação climática, a preservação da língua materna como pilar do conhecimento tradicional e o papel das mulheres indígenas ao “demarcar a tela”.
O primeiro episódio de Raízes do Saber já pode ser ouvido nas principais plataformas de streaming de áudio, como o Spotify. Os próximos programas serão publicados todas às sextas-feiras.































