Dois personagens para uma só pessoa. Sóbrio era vaqueirão, companheiro; no álcool, “pinga ruim.” Imbatível num “partidor,” era guaino de prestígio.
Eu era um menino e ele para mim, um pouco assustador
Nas redondezas, cada fazenda celebrava o seu santo ou alguma data especial.Aqui na fazenda não louvávamos um santo e sim o Dia Primeiro do Ano, que se tratava da data mundialmente festejada como o Dia da Confraternização Universal.
O meu saudoso tio e padrinho Aleixo, na fazenda Sacramento, posuia dois cavalos mestiços, meio sangue inglês, de nomes Sheik e Faruk dos quais muito se orgulhava.
Não saberia dizer quem tratou a carreira.Talvez os capatazes Manoel de Arruda e Benedito Silva.O primeiro da Sacramento e, por óbvio, o outro da São Camilo.
Carreira tratada e então não haveria outro assunto nas duas propriedades.Um saco de milho e muita palha de bocaiuveira, esse seria o grande investimento nos contendores.
Galopes nos areiões pelas madrugadas, banho de corixo, tiradas de tempo, treinos de partidor.
O nosso parelheiro era o Cata Níquel, aqui simplesmente Catanique.Um tordilho de origem poconeana que despontou em nossa minguada tropa, naqueles tempos.
Ramão ficou por conta de preparar o nosso cancheiro.
Um mês de trato e treinamento e eis que chega o dia da festa.
Também a peonada encomendou chapéu, bota, faixa e “pareios”novos de roupas.
Mamotas escolhidas a dedo aguardavam no piquete.José Marques era o assador de sempre.
Dia trinta e um de dezembro e a vizinhança vai chegando de todos os quadrantes.Me lembro que o Manoel de Arruda se hospedou em nossa casa com a familia.No jantar, a primeira novilha.O baile rompeu noite e madrugada.
Mas o melhor estaria reservado para o dia seguinte.Quebra torto com carne, mandioca bolos e biscoitos para repor as energias e rebater o efeito da cerveja.
O ” vira baixo” corria solto sobre caronas e ponchos onde houvesse uma sombra.Rodas de truco espanhol denunciavam, pelas piancas gritadas, a quantia de alcool ingerida.
Apenas os jóqueis não participaram dessa primeira parte.Cuidaram dos seus pupilos temendo alguma malandragem.Os cavalos fizeram jejum e dormiram suspensos pra não pastar o capim orvalhado.
Chega então a hora da porfia.As torcidas de ambas as fazendas vão se separando.Algumas parelhas de redomões locais fazem a preliminar. A emoção vai aumentando.Desafios para apostas de ambos os lados.Dinheiro, cigarro, tralha de montaria, qualquer coisa que despertasse o interesse das partes.
Como do nada surgem os cavalos e seus guainos.É um momento mágico e de grande emoção para todos os presentes.Eles vem em sentido contrário da cancha e passam elegantes, provocando um verdadiro frisson na platéia empolgada.Juizes aprumam as estacas no trecho combinado e se alinham para o “fotochart.”A diferença de porte dos animais era evidente.
Lá no partidor, a saída é livre, é salve-se quem puder.O sól já vai alto e todos suam de calor e nervosismo.
Primeira partida e o Ramão corta nos dez metros.A segunda e as seguintes também.O mestiço se zanga e dificulta o seu domínio.Após muitas escaramuças e quando parecia que nada daria certo, eis que o Ramão corre um piado e chega a varinha de goiabeira no vazio do seu montado.
O mestiço valente ainda tentou, mas comeu poeira e perdeu “de luz””para o “pelo duro” mimoseano.
O cavalo Sheik era cego do um olho e o Ramão, velhaco, escolheu esse lado para posicionar o Catanique.Além de enervar o mestiço e seu jóquei com os cortes de partida, tirou vantagem da sua pouca visão.Penso que aquele grito assustou os seus oponentes, jóquei e cavalo, retardardando a arrancada.
Ramão teve triste fim, morrendo assassinado por quem o temia.
Sua família trabalhou muito tempo em nossas fazendas.
Meu tio, pleno de razão, nunca se conformou e acho que jamais perdoou o bugre Ramão.Pensou–se em um tira teima, que não aconteceu….
Manoel Martins de Almeida




























