Rezar é conectar-se aos orixás ao colher as ervas sagradas na mata e aguadas, macerar as folhas e preparar um chá ou um banho.
Em todas as ações, tarefas executadas dentro e fora de um terreiro por amor as entidades há uma vibração, uma essência e uma permanência poderosa.
Mantém-se os diálogos mais íntimos e secretos com os orixás varrendo silenciosamente o chão terreiro. Areando os panelões ou lavando os alguidares os ouvidos são envolvidos em sussurros cadenciados de ensinamentos.
Enquanto se prepara as comidas dos orixás, enfeita-se o congá, troca-se os mantos do peji, limpa-se as imagens e as recolocam nos seus lugares, em tudo há benção de dar e receber. Vibra-se intuições que extasiam os corações.
Em todas as experiências, há inúmeras possibilidades de renovar, de alegrar, potencializar a magia e os segredos ancestrais.
Se orar e vibra na intensidade dos orixás, amando ao próximo, demonstrando respeito pelos mais velhos e mais novos.
Inicia-se e amplia-se as amálgamas com os Orixás e os Santos na convivência diária das giras, na realização das obrigações corriqueiras ou nas homenagens festivas.
Pactua-se, cria-se laços afetivos, afiniza-se e encanta-se quando se compreende que as graças recebidas dos orixás são no tempo deles. Eles nos apresentam outras temporalidades, dimensões, realidades e eus.
Louvam-se os Orixás com os pontos riscados, entoando cânticos, na sinfonia das palmas e nas danças circulares que os reverenciam, atinge-se o bom ânimo para continuar caminhando entre os encantados.
Reza-se para cultuar os orixás, cultua-se os orixás para agradecer a vida, para pedir saúde, proteção, paz, força e perdão.
Entre sorrisos e lágrimas, no entrecruzamento da desesperança e da fé, consagram-se os Orixás.
Nas batalhas perdidas e ou vitoriosas, nos nascimentos e ou mortes há inspiração e o sopro oracular dos divinos ancestrais orixás.
Por Gilda Portella – sacerdotisa de umbanda, multiartista e mestranda PPGECCO/UFMT
Fala de um Preto Velho.
O balanço das águas mareava aquela tripulação a caminho do desconhecido. A higiene e condições de abrigo eram precaríssimas. Os homens sequer tomavam banho ou se alimentavam como deveriam.
A viagem era muito longa, sem previsão de chegada, pois a natureza podia adiar as previsões do capitão.
Tudo andava conforme se esperava, até o momento em que passamos por um local inóspito, onde o clima virou e enfrentamos uma inesquecível tempestade. Os homens apenas rezavam, pois o navio estava à deriva, não havia como controlá-lo naquelas condições, apenas evitavam que ele fosse arrebentado pela ressaca do mar. Naquela noite, muitos pereceram e outros sobreviveram ao que parecia ser “a Ira de Deus”.
Eu agradeço por ter sobrevivido àquilo e, mesmo assim, não tinha ideia do que me esperaria em terra firme. Assim que cheguei, fui comercializado e segui para uma família desconhecida na condição de escravo. Achei que, talvez, pudesse ser um homem livre, mas não esperava ser tratado como um escambo, uma moeda de troca.
A fé no Alto nunca foi esquecida por mim. Trabalhava de sol a sol, seguia as ordens dos senhores e cumpria tudo o que era determinado. O tempo foi passando, fui envelhecendo e não tinha mais forças para trabalhar no pesado, então, comecei a auxiliar os homens doentes, os escravos machucados e todos que precisavam de auxílio, mas os senhores de engenho eram incapazes de chamar um médico.
Fui aprendendo, na prática, como poderia ajudá-los com ervas e plantas para a cicatrização de feridas, para cura de males e chás para recuperação de doenças, males e problemas em geral.
Dediquei muitos anos de minha vida ao auxílio a homens que, como eu, não tinham a liberdade de ir e vir. Depois disso, fui médico noutra vida, estudei, aprendi muita coisa e pude ajudar muitas pessoas, mas o dinheiro falava mais alto e, muitas vezes, não atendi os homens que não podiam pagar. Atendia alguns, mas não a todos que chegavam pedindo e implorando ajuda.
Hoje, trabalho no plano espiritual e auxilio a pessoas que trabalham com cura; muitos me perguntam por que não me mostro como um médico e sim como um simples escravo negro. Digo que as marcas que mais tocam o coração do homem são as que formam cicatrizes na caminhada entre as vidas.
Como médico, aprendi muito e sou grato, mas como negro, posso dizer que carrego as marcas exemplares da minha caminhada, pois o Cristo me ensinou que os dons recebidos de graça devem ser dados também gratuitamente.
Como trabalho para o Cristo, prefiro me mostrar naquela roupagem em que nada cobrava e fazia por amor a todos que me apareciam.
Não deixo de ser médico, mas antes disso, sou apenas um negro que amou a todos os doentes que passaram por mim.
Vô Manuel
Mensagem recebida no dia 12/06/2014 por Filipe Gimenes de Freitas, advogado, escritor, palestrante espiritualista e filho do CENSC

Casamento de Anita e Wendell
Casamento de Anita e Wendell em 20 de Novembro de 2024 no CENSC
Há quase dez anos sou trabalhadora do Centro Espírita Nossa Senhora do Carmo, casa que me acolheu com muito amor e emocionada tenho dificuldades em externar minha gratidão.
Nesses anos já passamos por tantas situações difíceis em nossas vidas, que se não fosse nossa religião Umbanda que tanto amo, que nos acolheu, que nos ensina e ajuda a enxergar nossos erros para que possamos melhorar, creio que não teríamos chegado até aqui. A maior prova disso, é que minha família está comigo nessa caminhada e meu filho se tornou o Ogãn chefe do terreiro e ele me acompanha desde do início. Meu marido Wendell, do seu jeito e de forma discreta, também se faz sempre presente.
Maior demonstração de fé e carinho que recebi foi a surpresa que meu esposo, juntamente com minhas Mães de Santo Gilda e Giulianna – amigas e confidentes, fizeram ao organizar em segredo uma festa de casamento coincidindo com uma outra data que já seria de grande valia para mim, minha iniciação na linha de Oxalá. O compromisso que reafirmamos marcou o início de uma nova etapa dentro do terreiro, com maiores responsabilidade e compromisso quando estava faltando praticamente um mês para completarmos 21 anos de matrimônio. Sim!!! Nos casamos perante a Oxalá.
A iniciativa do Wendell consagrou a fé e o amor que temos e firmamos na nossa religião e a confiança que temos nesta casa. Que surpresa linda!!! Ainda estou encantada com tudo que vivi naquele dia, as lembranças estarão guardadas eternamente em minha memória e levarei por toda minha vida…
Que nosso amor e nossa família estejam cada vez mais fortalecidos com as bençãos desta casa e dos Orixás.
Por Anita Penna – biomédica, funcionária pública e umbandista.
“ALMITRA falou de novo e disse:
– Mestre, que pensais do Casamento?
Ele respondeu, dizendo:
– Nascestes juntos,
juntos ficareis para sempre.
Ficareis juntos
quando as asas brancas da morte
dispersarem os vossos dias.
Sim. Ficareis juntos
até na silenciosa memória de Deus.
Mas que haja espaço na vossa comunhão;
e que os ventos do céu
dancem no meio de vós.
Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um empecilho:
seja antes um mar vivo
entre as praias das vossas almas.
Enchei cada um o copo do outro,
mas não bebais por um só copo.
Partilhai o pão;
mas não comais do mesmo bocado.
Cantai e dançai juntos, sede alegres;
mas permaneça cada um sozinho,
como estão sozinhas as cordas do alaúde
enquanto nelas vibra a mesma harmonia.
Dai os vossos corações;
mas não a guardar um ao outro.
Porque só a mão da Vida
pode conter os vossos corações.
Mantende-vos juntos,
mas nunca demasiado próximos:
porque os pilares do templo
elevam-se, distanciados,
e o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro”.








Célia Soares































































































































































































































































































































































