Imagina a seguinte cena: um especialista do agronegócio, cheio de dados
brilhantes sobre produtividade, rastreabilidade e sustentabilidade. Sua
apresentação é impecável, os gráficos saltam da tela, mas com um pequeno
detalhe: do outro lado está a Dona Maria, que por acaso estava trabalhando
no local da palestra, e ficou no cantinho vendo a apresentação. A Dona Maria
não entendeu absolutamente nada. Ela quer saber se o tomate é docinho, se a
alface está fresca, se a carne é macia.
Esse é o maior desafio no agro hoje, a comunicação!
Falamos tanto em fora da porteira, furar a bolha, em levar a mensagem além
das cercas das propriedades. Mas de que adianta falar se quem ouve não
entende? É como tentar explicar astrofísica usando equações diferenciais
para uma criança de cinco anos. A intenção é boa, o resultado é nulo. A
comunicação se torna uma ferramenta importante apenas quando é, de fato, uma
via de mão dupla, com a mensagem chegando intacta e sendo compreendida.
O grande erro, e um muito comum, é pregar para o convertido. Ficamos
confortáveis falando com nossos pares, usando jargões como ILP, agricultura
de precisão ou barreira fitossanitária. É uma conversa gostosa, fluida, onde
todos se entendem com um piscar de olhos. O problema é que isso não expande
nosso alcance. Não conquistamos novos corações e mentes. É um clube fechado
onde todos se conhecem e já concordam entre si.
Mas existe uma situação pior do que pregar para convertidos: é pregar para
surdos. A mensagem bate e volta. E aí mora o perigo, porque no vácuo da
informação, nascem os mitos, as fake news e os preconceitos contra o setor.
O desafio central, portanto, é fazer a Dona Maria entender. Ela é a
peça-chave. Ela representa o consumidor final, a sociedade urbana. Como
fazer ela compreender a complexidade do modelo produtivo brasileiro? Como
explicar que a dor do produtor não é só o preço da commodity, mas é a
logística, o clima, a burocracia?
A resposta está numa palavra simples: adaptação. Adequar a linguagem ao
público é a chave mestra. Em vez de suinocultura tecnificada com bem-estar
animal, que tal “a gente cuida dos porquinhos com muito carinho e conforto
para a carne ficar ainda melhor”? Em vez de grãos com alto potencial
genético, que tal “sementes especiais que fazem a comida render mais no
prato”?
Trata-se de contar histórias. Mostrar o rosto por trás do alimento. Explicar
que a qualidade do produto está diretamente ligada ao cuidado na
propriedade. Falar do potencial do agro brasileiro não com números de
exportação, mas com o sabor da fruta, o cheiro do pão fresco com nosso
trigo, a maciez do churrasco no final de semana.
Quando conseguirmos traduzir a realidade do campo para a linguagem da
cidade, as Donas Maria vão entender que existe muito trabalho, suor e
dedicação naquele alimento, e mais, vai valorizar tanto o produto quanto o
produtor. É a comunicação fazendo seu papel, levar a informação, as
narrativas e as histórias de quem conta, de maneira que quem as ouve se
imagina no lugar onde tudo aconteceu.
*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.
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