Na vastidão do Pantanal, assim como na consciência humana, surge o atalho de quem ignora a rota da passagem dos bois: uma senda invisível não por falta de marcador, mas por recusa introspectiva de ver o curso do rio onde ele corre.
Eis que se ergue o discurso técnico e político como muralha, clamando por legitimidade, por audiências públicas, por peritagem, como se a verdade fosse propriedade exclusiva de quem empunha o poder e não um rio comum a todos onde se lavram quedas e remansos.
Ali, na planície onde a água decide o destino das margens, aprender não é competir pelo monopólio da narrativa, mas escutar o canto dos currais alagados, o rumor dos peixes, a memória dos boiadeiros ancestrais — nesses gestos simples reside a ética da conservação e a justiça de um pertencimento que não se inventa com leis, mas se revela com a prática.
Só quem aceita a incerteza do alagado aprende o itinerário sagrado, pois o Pantanal não é mapa para os que insistem em dominar, mas templo para os que se deixam atravessar pela rota do vivente.
Tácito Loureiro
Filósofo Pantaneiro





























