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Um divã no Pantanal( lV)

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Fazenda Cingapura, em Porto Murtinho. Joana, filha única do proprietário, sr Galeno, chega de ferias da Universidade de Madison, EUA, onde fazia mestrado em veterinária.
Focada em sua profissão, mesmo nas férias, praticava inseminação no fino gado de corte da fazenda e assim o fez desta vez, porém
o que ela não esperava eram aqueles olhos verdes, do moreno Vítor, peão inseminador, com sua postura e sua virilidade misturada a tanta delicadeza. …
Trabalharam juntos por uma tarde toda e, findo o servico, ela seguiu para a casa grande, onde à noite ligava-se o gerador e ele para o galpão, onde um lampião a querosene propiciava um mínimo de luminosidade no seu interior.
…Nessa noite, o sono de Joana já não foi tranquilo como antes e não encontrava posição em sua cama, onde a voz e o corpo de Vítor perpetuavam sua insônia…
..Ao acordar, com olheiras devido a noite mal dormida, foi à cozinha tomar um gole de café e, logo após o primeiro gole, sentiu que a ficha caíra: estava apaixonada….
Tentou dissimular durante o quebra-torto, mas seus pais notaram, na filha, um olhar mais longínquo e distraído, logo ela, uma moça focada e objetiva, porém concordaram em não comentar nada, aguardando algo que partisse dela.
Seu Galeno e sua esposa, maiores proprietários de terra da região, investiram tudo nessa filha, tanto na sua educação quanto em seus estudos e, esse investimento, só estaria completo ao vê-la casada com alguém da sociedade murtinhense.
…Só que esse sonho estava ameaçado, pois nessa mesma tarde, Joana convida Vítor para ir até a cidade, no intuito de comprar nitrogênio para inseminacão… e logo ali, a dois quilômetros além da porteira, a Hylux
de Joana encosta à beira da rodovia e os apaixonados se entregaram e selaram seus destinos….
Amanheceu novo dia em Cingapura,
e Joana, mesmo feliz, começou a perceber o drama shakespeareano
que estava criando para si, ou seja, um romance tórrido com um peão da fazenda, romance esse que não poderia ter um bom final. Não tendo com quem desabafar,
resolveu ir a procura do dr Edmundo, analista em Miranda , que já se tornava conhecido no Estado pantaneiro.
…Foi atendida na varanda, devido a maior conforto…….e logo após os cumprimentos, expôs ao dr o seu conflito…..
– O que está acontecendo comigo, dr? Uma cilada do destino ? Uma armadilha para os meus pais ? Uma destruição dos meus planos?
, É, Joana, você está diante de uma paixão que, por sua natureza, é cega , e, por isso, não enxerga as consequências…..e eu, por profissão, às vezes tenho que fazer o papel de ” carrasco” do amor. Vejo que você está diante de um fogo que ainda pode ser apagado, e que, considerando idade e saúde de seus pais, poderá haver consequências graves e será difícil administrar essa culpa…….., porém a escolha é sua, sòmente sua….
…Joana abaixou a cabeça, prendeu um soluço e disse: é, doutor, a vida é feita de escolhas, né?
– É, Joana, sucessivas….
Joana respirou fundo e falou :
– o sr tem sido uma bênção nesta região e só tenho a lhe agradecer…..
…Logo após a consulta, Joana volta para sua fazenda, já com uma decisão selada…..e avisa o piloto do Cessna de seu pai que sairiam logo cedo para Campo Grande, onde pegaria o primeiro vôo para S. Paulo.
E assim foi feito. Joana no mesmo dia, segue para S.Paulo, muito triste, mas carregando em si um trunfo de que não molestou seus pais.
Vítor, acabrunhado, na rede do galpão, manda avisar o capataz que ñ trabalharia nesse dia e que queria as suas contas….

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Fernando Almeida

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