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Como vemos o outro; Por Soraya Medeiros

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Não vemos os outros como eles realmente são; vemos os outros como nós somos. A frase, à primeira vista, pode parecer estranha, mas revela uma verdade profunda sobre a forma como percebemos o mundo.

Toda vez que avaliamos alguém, fazemos isso a partir das nossas próprias referências. É como se usássemos lentes invisíveis, moldadas ao longo da vida por experiências, valores, cultura e relações. Nossos “óculos” carregam traços da educação que recebemos, das pessoas com quem convivemos e do ambiente em que estamos inseridos.

O problema é que essas lentes nem sempre estão intactas. Muitas vezes, estão marcadas por traumas, frustrações e vivências difíceis. Isso altera nossa forma de enxergar a realidade — e, consequentemente, influencia nossos julgamentos. Assim, aquilo que parece óbvio para um pode ser completamente diferente para outro.

O psicólogo Carl Jung reforça essa ideia ao afirmar. “Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão de nós mesmos.” Ou seja, muitas das críticas que fazemos dizem mais sobre nossas próprias questões internas do que sobre o comportamento alheio.

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Ao longo do tempo, essas lentes se tornam tão naturais que esquecemos que estamos olhando através delas. Passamos a acreditar que nossa visão é a própria realidade, quando, na verdade, ela é apenas uma interpretação.

Por isso, é arriscado sair julgando o outro com tanta convicção. Afinal, o que é a verdade? Seria a realidade livre de distorções — algo a que dificilmente temos acesso completo.

Julgar é um reflexo humano, quase automático. No entanto, a sabedoria está em exercitar a cautela. Ao adotar uma postura rígida diante do outro, corremos o risco de aplicar uma medida que também recairá sobre nós — uma medida baseada em imperfeições.

Mais do que evitar julgamentos, é necessário cultivar empatia. Isso significa reconhecer que cada pessoa carrega sua própria história, suas dores e suas formas de ver o mundo. Significa, também, não exigir do outro uma perfeição que nem nós mesmos conseguimos alcançar.

Se não podemos retirar completamente nossas lentes, podemos ao menos limpá-las. Torná-las mais claras, menos rígidas, mais abertas à compreensão.

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No fim, olhar para o outro é também olhar para si mesmo. É nesse exercício que nasce a possibilidade de relações mais justas, humanas e verdadeiras.

Antes de apontar falhas alheias, talvez valha a pena ajustar o próprio olhar. Pensemos nisso.

*Soraya Medeiros é jornalista.

Soraya Medeiros

Assessora de imprensa

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