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Criadoras do primeiro Território de Uso Comum, mulheres do rio Manicoré resistem em meio à destruição no Amazonas

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A reportagem acompanha desde 2021 a luta dessas mulheres que transformaram a defesa do território em modo de vida. No final de 2025, o retorno a Manicoré revelou um cenário de invasões e desmatamento.

Por Izabel Santos

Maria Cleia, do Território de Uso Comum (TUC) do Rio Manicoré, testemunha a morte e resiste junto à floresta. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro

 

O pacote chegou sem aviso. Não havia nem remetente. Ele estava dentro de uma marmita ainda morna. Para qualquer pessoa, poderia parecer só uma entrega no endereço errado. No entanto, para Silvia Elena Moreira Batista, liderança extrativista do rio Manicoré, um afluente do rio Madeira, no sul do Amazonas, o gesto era um recado claro: “quando chegou a marmita, eu entendi na hora: não era comida, era um aviso. Era para dizer: ‘a gente está de olho em ti'”.

 

Silvia segurou a embalagem por alguns segundos antes de colocá-la sobre a mesa. Não comeu.

 

Ela, Maria Cleia Delgado Campino e Marilurdes Cunha da Silva são lideranças históricas do Território de Uso Comum (TUC) do Rio Manicoré. TUC é uma categoria fundiária criada no Amazonas para dar o mínimo de proteção fundiária e segurança social a moradores de comunidades tradicionais fora de áreas protegidas. Ele foi criado após os moradores locais conquistarem uma Concessão de Direito Real de Uso (CDRU) coletiva, um instrumento jurídico por meio do qual o poder público autoriza um grupo ou comunidade a utilizar terras públicas, de forma gratuita ou mediante pagamento, por prazo determinado ou indeterminado.

 

 

Uma CDRU é como um título para vários donos da terra e é utilizada em processos de regularização fundiária, especialmente em áreas de uso comum. Essa concessão assegura a posse coletiva e o uso sustentável da área, sem transferência da propriedade do imóvel.

 

A categoria do TUC foi regulamentada pelo Decreto nº 50.941/2024 do governo do Amazonas. Esse tipo de território é inédito no Brasil — é resultado de uma luta pela proteção territorial que tirou a paz da comunidade por muitos anos e virou sinônimo de insegurança, especificamente para as mulheres.

 

Para Josinaldo Aleixo, técnico de campo do Programa Ordenamento e Governança Territorial na Amazônia (Ordam), do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB), a experiência do TUC do rio Manicoré representa um avanço singular na disputa por direitos na Amazônia. Ele destaca o papel central das mulheres, que desafiaram padrões tradicionais de poder e revelaram um feminismo popular ligado à autonomia territorial.

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“A análise conjunta indica que a experiência do TUC do Rio Manicoré não pode ser compreendida apenas como mais um de resistência territorial: ela está inserida em um contexto amazônico de conflitos intensos em que mulheres defensoras enfrentam obstáculos estruturais de violência e desigualdade. Ao mesmo tempo, a centralidade que elas ocupam na construção de um novo tipo de territorialidade autogestionada oferece pistas sobre como práticas locais de liderança feminina podem reconfigurar relações de poder tradicionais — mesmo em ambientes marcados por altos riscos de violência”, analisa o sociólogo.

 

Comunidade Barro Alto, no Território de Uso Comum (TUC) do Rio Manicoré, Amazonas. Foto: Marizilda Cruppe/Varadouro

 

Cinco anos de jornada
Acompanho como jornalista o rio Manicoré desde 2021, observando a luta para combater as invasões, as ameaças e todo o tipo de ilegalidade contra o lar dos cerca de 4.500 moradores da região, que abriga 15 comunidades. Em 2025, voltei ao TUC pela terceira vez. Flagrei o mesmo cenário: ausência do poder público, desmatamento e garimpo ilegais (leia mais em O Tracajá e o Pedral). Nesta reportagem, eu conto a história de três mulheres-chave dentro da resistência do território: as “mães” do TUC do Rio Manicoré.

 

Em Manicoré, a 390 quilômetros de Manaus — acessível apenas por água ou pelo ar —, as ameaças não vêm com bilhete, mas disfarçadas de cotidiano: uma fofoca na mesa de bar, um disse-me-disse na igreja, uma conversa informal entre amigos. Depois, elas desembarcam no território, nos ouvidos ou no celular dos destinatários. Elas não chegam aos berros. Chegam educadas, sorridentes, com um discurso cheio de promessas de dias melhores. Não anunciam violência com objetividade; é a tal da passividade agressiva que instala a angústia entre os alvos das ameaças e suas famílias.

 

“Eu vivo assim [preocupada], porque não posso deixar Manicoré para trás e me mudar para outra cidade”, me disse Silvia. “Minha família está toda aqui. Todo mundo sabe quem eu sou”, acrescenta. “A violência não precisa dizer que vai matar. Ela só precisa te deixar em alerta o tempo todo”, fala com a voz rouca e embargada.

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Silvia nasceu na comunidade Três Estrelas, uma das 15 comunidades do TUC, em uma família de extrativistas que cortavam seringa, principalmente, mas também plantavam. Ela foi para a sede de Manicoré estudar e, depois, para Manaus. Construiu uma trajetória no serviço público, na gestão ambiental, inclusive de Unidades de Conservação. Hoje, atua no terceiro setor como secretária de Direitos Humanos do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS).

 

“As ameaças não chegam direto. Elas chegam por terceiros, chegam pelos comentários, chegam pela família. Às vezes alguém vem e diz: ‘estão falando de ti’. Às vezes é um olhar atravessado. Isso vai criando um clima que não te deixa em paz”, relata Maria Cleia Delgado Campino, presidente da Central das Associações Agroextrativistas do Rio Manicoré (Caarim). “Eles não dizem que vão matar. Dizem que o nosso caixão já está pronto”, acrescenta a professora Marilurdes Cunha da Silva, outra liderança histórica do território.

 

Margens que se cruzam

Encontro das águas barrentas do rio Madeira com as escuras do rio Manicoré, logo no início do território. Crédito: © Christian Braga / Greenpeace

 

Quando minha vida entrou no curso do rio Manicoré, em 2021, o Amazonas passava por um dos anos mais difíceis da história recente, no auge da pandemia de Covid-19. Todos se asfixiaram de muitas formas. Eu trabalhava na secretaria-executiva do Observatório BR-319, uma rede de organizações da sociedade civil que monitora o licenciamento da rodovia entre os estados do Amazonas e de Rondônia, e acompanhava denúncias da área de influência da estrada.

 

Como comunicadora socioambiental, essa foi uma das minhas primeiras missões: noticiar invasões de grilagem, retirada ilegal de madeira, abertura de ramais, dragas por boatos de ouro no rio Manicoré. Logo descobri que quase sempre as mulheres são as principais vozes dessas denúncias.

 

Confira a reportagem completa no portal do Infoamazonia.

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