A recente série de bombardeios às exportações de carne bovina brasileira
expõe uma crise que vai além de questões sanitárias pontuais. Nos últimos
dias, a União Europeia retirou o Brasil da lista de países aptos a exportar,
seguida pela suspensão de mais três unidades frigoríficas para a China. Este
cenário não é fruto do acaso, mas sim o resultado de um acúmulo de
fragilidades estruturais que o país insiste em não corrigir. Mas a pergunta,
embora que proibida, é direta: estamos dando motivos para retaliações?
Porém, para compreender o que está acontecendo, é preciso analisar o
contexto das exigências internacionais, onde tanto a União Europeia quanto a
China têm elevado seus padrões de controle de qualidade, sanitário e
socioambiental, e a carne brasileira, que já enfrentava desconfianças por
desmatamento ilegal, agora vê sua credibilidade arranhada diante de falhas
sistemáticas de fiscalização.
Mas as sanções não são atos arbitrários, e sim decorrentes de não
conformidades detectadas em auditorias, como a presença de substâncias além
do permitido, falhas na identificação de origem animal e lacunas nos
sistemas de controle, e quando um país fecha suas portas, não está apenas
punindo, mas protegendo seus consumidores e sua própria reputação sanitária.
No entanto, a narrativa de que o Brasil é vítima de retaliações comerciais
disfarçadas de barreiras sanitárias precisa ser revista com honestidade.
No caso da União Europeia por exemplo, a o Brasil foi avisado em 2023 e
embora existam sim interesses geopolíticos e protecionismo disfarçados, o
Brasil tem oferecido munição para críticas. Por que o Argentina, o Uruguai e
o Paraguai não sofreram as mesmas restrições? Talvez a resposta esteja na
falta de ações efetivas e de transparência.
Por exemplo, no final de 2024 o Brasil aprovou o Plano Nacional de
Identificação Individual de Bovinos e Búfalos, o PNIB, que até hoje não foi
implementado por que simplesmente não existe um sistema capaz de fazer a
interligação dos dados estaduais com a base federal, e infelizmente esse tem
sido o calcanhar de Aquiles da pecuária nacional, afinal sem um sistema
robusto de rastreabilidade individual não há como provar, com precisão, que
um lote de carne não está vinculado a áreas desmatadas ilegalmente a falhas
sanitárias.
A rastreabilidade individual não é uma utopia, mas uma tecnologia já
disponível e utilizada por todos os nossos grandes concorrentes, e se
implementada em larga escala no Brasil, ela transformaria a pecuária em um
setor de transparência total. Mais do que isso, daria ao Brasil um argumento
irrefutável contra acusações infundadas.
Se a rastreabilidade individual brasileira funcionasse, o cenário atual
seria radicalmente diferente e o Brasil não teria que se defender de
suspeitas genéricas e simplesmente poderia apresentar dados concretos de
cada lote exportado. As auditorias internacionais deixariam de ser um jogo
de adivinhação e se tornariam verificações de sistemas confiáveis. A União
Europeia e a China, em vez de suspenderem unidades, estariam negociando
acordos de equivalência sanitária baseados em evidências.
O Brasil precisa decidir se continuará reagindo a embargos com promessas de
melhoria ou se adotará, de uma vez por todas, a rastreabilidade individual
como pilar estratégico, já que o momento exige ação concreta, não retórica.
É hora de agir, e não reagir!
*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.
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