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Fora da lista *Por Luciano Vacari

JOSE MEDEIROS

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Ao longo das últimas décadas, a ciência e a pesquisa permitiram o
desenvolvimento de tecnologias que otimizam a produção de alimentos com
total segurança ao consumidor, como os melhoradores de desempenho, hormônios
e antibióticos. Essas ferramentas são aplicadas sob rigoroso controle
sanitário e respaldo de órgãos reguladores nacionais e internacionais,
garantindo que a proteína animal chegue à mesa do consumidor com qualidade e
total ausência de riscos à saúde.

Porém, como sempre tem um porém, o mercado global não é homogêneo e existem
compradores extremamente exigentes que optam por não adquirir produtos que
tenham feito uso dessas tecnologias. Esse é um direito legítimo do
consumidor, e cabe ao Brasil, como líder global, respeitar essa demanda e
oferecer garantias robustas para atender a todos os perfis de mercado, do
mais ao menos restritivo. E esse episódio com a União Europeia é um ótimo
exemplo.

Mais do que perder um faturamento de 2 bilhões de dólares, ficar de fora da
lista do mercado europeu significa um duro golpe na reputação da produção
nacional, pois evidencia que não conseguimos oferecer as garantias de
controle do não uso das tecnologias listadas. E esse é o ponto, não adianta
banir o uso da tecnologia, isso seria um enorme retrocesso e a confirmação
de que não somos capazes. Precisamos sim, dar garantias para os mercados de
que somos capazes de segregar o uso, e em um cenário de concorrência global,
essa capacidade é um diferencial competitivo estratégico.

Isso não apenas atende às exigências dos mercados mais restritivos, como
também agrega valor ao produto brasileiro, que pode ser oferecido com
diferentes níveis de certificação.

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E para que essa segmentação seja viável, a rastreabilidade individual dos
animais torna-se mais do que uma ferramenta logística: ela é a base para
qualquer tipo de segregação. Sem um sistema que identifique cada animal
desde a origem até o abate, não é possível atestar, com credibilidade, que
um lote atende a padrões específicos, como a ausência de antibióticos ou o
uso controlado de hormônios.

No entanto, a implementação eficaz de qualquer ferramenta de segregação
depende do comprometimento de todos os elos da cadeia de valor, do produtor
rural à indústria de processamento, já que cada etapa precisa registrar e
compartilhar informações de forma padronizada e confiável. O produtor rural,
por exemplo, deve registrar o nascimento, a alimentação, as medicações e o
manejo sanitário de cada animal. A indústria de processamento, por sua vez,
precisa integrar esses dados ao sistema de abate e desossa, garantindo que o
produto final mantenha a identidade de origem.

E nesse contexto, as fábricas de insumos, como as de ração e medicamentos
veterinários, desempenham um papel central, afinal são elas que fornecem os
insumos que determinam as características do produto final. Sem o
compromisso dessas indústrias em rotular, registrar e rastrear seus próprios
produtos, todo o processo de produção da carne fica incompleto.

Portanto, é urgente que o setor como um todo avance na criação de um
portfólio de produtos brasileiros que demonstre, de forma clara e auditável,
as características de cada oferta. Esse portfólio deve incluir desde carnes
produzidas com todas as tecnologias disponíveis até aquelas que atendem a
protocolos específicos, como orgânicos, livres de antibióticos ou com uso
restrito de hormônios.

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A construção desse catálogo de mercadorias exige investimento em sistemas de
informação, capacitação técnica e alinhamento entre todos os agentes da
cadeia. O Brasil já possui a escala e a competência técnica para liderar
esse movimento. Agora, precisa demonstrar ao mundo que é capaz de oferecer
garantias à altura da sua posição de maior produtor de proteína animal,
respeitando a diversidade de exigências dos mercados consumidores e
consolidando sua reputação como fornecedor confiável, seguro e inovador.

*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.

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