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Fundos e investidores institucionais ampliam apetite por créditos judiciais estressados enquanto recuperações judiciais batem recorde no Brasil

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Mercado movimenta R$ 120 bilhões em ativos de difícil liquidez; FIDCs atingem quase R$ 800 bilhões em patrimônio e consolidam novo caminho para destravar créditos complexos
O Brasil encerrou 2025 com um cenário que, ao mesmo tempo em que expõe fragilidades do ambiente de crédito, está criando uma janela de oportunidade para investidores, fundos e escritórios especializados: o país registrou recorde histórico de recuperações judiciais, com 2.466 empresas no processo, alta de 13% em relação a 2024, segundo dados da Serasa Experian. No setor agropecuário, principal motor da economia nacional, foram 743 companhias em recuperação judicial apenas no ano passado, equivalente a 30% do total. Nesse cenário, o mercado de créditos judiciais estressados deixou de ser uma aposta de nicho para se tornar uma das frentes mais aquecidas do mercado financeiro brasileiro.
O volume de créditos estressados no Brasil já soma cerca de R$ 120 bilhões, segundo levantamento da MA7 Negócios, com o agronegócio respondendo por uma fatia crescente desse montante. Estima-se que aproximadamente 15% de todo o crédito do setor já apresente algum nível de estresse. Ao mesmo tempo, os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), principal veículo de aquisição e reestruturação desses ativos, atingiram quase R$ 800 bilhões em patrimônio líquido em 2025, crescimento de 177% em apenas dois anos, segundo dados da Liberum Ratings. No mercado primário, as emissões superaram R$ 212 bilhões em 2024, alta acima de 30% em relação ao ano anterior, conforme anuário da Uqbar.
Para o advogado Marco Antonio Galera Mari, especialista em Direito Processual e Sócio-Diretor do escritório Galera Mari Advogados, com 40 anos de atuação e sede em Mato Grosso, o movimento reflete uma transformação estrutural na forma como o mercado lida com ativos de difícil liquidez. “O crédito judicial estressado deixou de ser visto como problema para se tornar uma classe de ativo. Fundos e investidores institucionais entenderam que, com a estrutura jurídica e financeira adequada, esses ativos podem gerar retorno relevante enquanto ajudam a destravar o sistema. O que antes exigia anos de espera e incerteza hoje pode ser convertido em liquidez de forma estruturada”, afirma.
Com a taxa Selic abaixo de 15%, o acesso ao crédito bancário tradicional ficou mais caro e seletivo, pressionando empresas já alavancadas e dificultando renegociações. No quarto trimestre de 2025, 5.680 companhias estavam em processo de recuperação judicial, volume 24,3% superior ao do mesmo período de 2024, segundo o Monitor RGF. Só no último trimestre do ano, 510 novas empresas fizeram pedidos de recuperação, acumulando cerca de R$ 40 bilhões em dívidas.
Nesse contexto, os FIDCs se consolidaram como alternativa robusta ao crédito bancário. Desde dezembro de 2024, os FIDCs ultrapassaram os fundos de ações em volume de patrimônio, segundo dados da Anbima. O número de fundos ativos passou de 2.354 para mais de 3.044 entre 2023 e 2025, refletindo a entrada de novos players e o apetite crescente por esse tipo de operação.
Para a Galera Mari, a sofisticação do mercado chegou também à advocacia. “O escritório que atua nesse segmento não pode mais ser apenas jurídico. É preciso entender de mercado de capitais, de securitização, de estruturação financeira. A integração entre o direito avançado e a inteligência financeira é o que diferencia quem consegue entregar resultado real para o cliente e quem apenas conduz um processo”, diz o advogado.
Mato Grosso no centro do mapa de ativos estressados
O Centro-Oeste concentra parte expressiva do problema. Em 2025, Mato Grosso liderou os pedidos de recuperação judicial na região, com 332 processos, seguido por Goiás (296) e Paraná (248). O estado, que responde por parcela significativa da produção agrícola nacional, enfrenta uma combinação de margens menores, pressão ambiental e endividamento acumulado em anos de expansão acelerada.
“Mato Grosso é um estado que cresceu muito rápido. O agronegócio puxou esse crescimento, mas também trouxe uma estrutura de dívida que agora precisa ser equacionada. Há um volume relevante de créditos judiciais no estado que ainda não encontrou o caminho da liquidez. Esse é exatamente o espaço onde a atuação especializada faz diferença”, avalia o advogado Gerson da Silva Oliveira, sócio-diretor da Galera Mari Advogados.
Um dos movimentos mais relevantes observados por especialistas é a adoção da securitização como instrumento para converter créditos judiciais complexos em ativos negociáveis. A operação envolve a cessão de direitos creditórios a fundos ou securitizadoras, que assumem o risco jurídico e financeiro em troca de retorno estruturado. O modelo reduz o tempo de espera do credor original, melhora indicadores de balanço e transfere a gestão do processo para quem tem capacidade técnica de conduzi-lo.
“A securitização jurídica não é uma saída de emergência. É uma ferramenta de gestão financeira que empresas e instituições estão incorporando de forma estratégica. Quando bem estruturada, ela gera liquidez imediata para o credor, retorno adequado para o fundo e desobstrução do sistema judicial. Todos ganham”, afirma o advogado.
A expectativa do mercado é de continuidade do aquecimento. Projeções do setor apontam que o volume de carteiras cedidas pode alcançar R$ 100 bilhões até 2029, partindo dos R$ 60 bilhões registrados em 2024. Com 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro de 2026, dívida média superior a R$ 23 mil por empresa e cerca de sete restrições por cadastro, segundo dados da Serasa Experian, o estoque de ativos com potencial de reestruturação segue elevado.
“O mercado de créditos estressados e ativos judiciais de difícil liquidez vai continuar crescendo. A questão não é se haverá demanda, mas se haverá estrutura jurídica e financeira para atendê-la com qualidade. Esse é o desafio e, ao mesmo tempo, a oportunidade para escritórios que investiram em especialização real”, conclui Marco Antonio Galera Mari.

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