Na área do Aeroporto Internacional Marechal Rondon, viviam mais de 100 famílias de quilombolas
No bairro Cristo Rei, em Várzea Grande (área metropolitana de Cuiabá), nasceu Xumxum, de 59 anos, o serralheiro autônomo do Quilombo Urbano Capão de Negro.
Xumxum é uma personalidade bastante conhecida na região.
Mas, se o procurar pelo nome de Elizeu de Farias Silva, provavelmente, ninguém saberá quem é.
Para além dos serviços de consertos em portões e grades que lhe asseguram renda, Xumxum integra uma luta constante na busca por reconhecimento de direitos roubados dele e de seus ancestrais.
A comunidade quilombola onde nasceu, no bairro Cristo Rei, está dentro da área onde atualmente é o Aeroporto Internaconal Marechal Rondon, o principal de Mato Grosso.
Ele conta que a comunidade foi desfeita em 1962, com a expulsão das famílias para a instalação definitiva e obras de ampliação do terminal aéreo.
Em 2009 – ou seja, 47 anos depois -, a Fundação Palmares reconheceu a área onde viviam descendentes e a família de Xumxum como quilombo.
Divulgação

Xumxum, em evento que lançou o processo de Mapeamento dos Povos e Comunidades Tradicionais de MT, em SP: debates e lutas em defesa de direitos de comunidades tradicionais e afrodescendentes
Essa fundação é a instituição federal do Ministério da Cultura que atua na pesquisa e estudos voltados à promoção e preservação da cultura e dos valores afro-brasileiros.
A área reconhecida está estimada em 700 hectares.
Na região viveram bisavós, avós, pais, tias, irmãos e outros parentes de Xumxum.
“Fomos expulsos, levados para outra área, ainda no bairro Cristo Rei, de onde voltamos a ser retirados, anos depois”, reclama ele.
Na medida em que o Município de Várzea Grande foi se desenvolvendo, os remanescentes do quilombo foram se espalhando.
Xumxum, por exemplo, atualmente, mora no bairro Jardim Jockey Club, na periferia Sul de Cuiabá.
O Quilombo Urbano Capão de Negro agora existe apenas no papel, por reconhecimento público.
Também se constituiu como uma associação, entidade que tenta, por meios legais, fazer com que o reconhecimento do quilombo se converta em reparação de ressarcimento financeiro ou de terras.
Desde que foi reconhecido, segundo ele, há processo em tramitação no Incra (Instituto de Colonização e Reforma Agrária) reivindicando a legalização das terras.
Xumxum sabe que retornar à área é uma missão quase impossível, exceto se o aeroporto for transferido para outra região.
Mas, diz que se orgulha da história de sua comunidade e do reconhecimento do quilombo.
“Na vila onde vivíamos, meu avô, Eudorico, era como um médico, um curandeiro a quem todos recorriam”, conta.
“Ele entrava na mata para colher ervas medicinais e preparava remédios com os quais tratavam todos na vila”, recorda.
“Já a minha avó, ela fazia colchões de capim. Costurava à mão. Além de servir a família, os colchões eram vendidos na região”, continua ele.
Na vila, segundo ele, também havia terreiros de religiões de matrizes africanas, que funcionavam sob a liderança de suas tias.
Na última sexta-feira (17), Xumxum participou do evento que lançou o processo de Mapeamento dos Povos e Comunidades Tradicionais de Mato Grosso, promovido pelo Conselho Estadual dos Povos e Comunidades Tradicionais (Cepct-MT).
Em nível nacional, ele também tem participado de eventos de debates e lutas em defesa de direitos de comunidades tradicionais e afrodescendentes.
Em um deles, uma conferência em São Paulo, deu voz ao seu quilombo, em um encontro com o rei de Gana, Nene Tetteh Ayiku Abordonu IV.
MARCA – O apelido Xumxum, conta ele, recebeu aos cinco anos, do próprio pai, Ângelo Crisóstomo da Silva.
Ele conta que o pai o apelidou após cortar seu cabelo e comparar sua aparência com um xumxum, peixe bastante comum no rio Cuiabá e em outros rios mato-grossenses.
































