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Laço fraterno com Cuiabá é tão forte que Corumbá não comemora a criação de MS

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Com características próprias, desde o jeito de falar, Corumbá ficou de costas para o “Sul Maravilha”. (Foto: Divulgação)

O dia 11 de outubro de 1977, quando o presidente-general Ernesto Geisel assinou o ato de criação de Mato Grosso do Sul, é uma data que o corumbaense prefere ignorar e esquecer. A divisão de Mato Grosso foi traumática para Corumbá, do ponto de vista político e econômico, e, sobretudo, impactante pela ruptura cultural, fraternal e de identidade cultivada por séculos com Cuiabá, a capital mato-grossense.

 

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Naquele 11 de outubro de 1977, enquanto o “Sul Maravilha” saía às ruas para celebrar o novo estado, com foguetório e festa em Campo Grande, a frustração tomava conta de uma cidade isolada fisicamente da então capital sul-mato-grossense, com uma forte ligação com o Norte, um modo de vida pantaneiro, puxando o “sss” na fala e um jeito carioca de ser. O Sul, na corrente migratória, expressava o “tchê”, o “uai”…

O jornalista e escritor corumbaense Edson Moraes, 70, lembra que mesmo aqueles favoráveis – uma minoria – não festejaram a separação porque não aceitavam Campo Grande como capital. “Bairrismo puro e equivocado”, reconhece ele, hoje morando na Capital e integrando a comunidade corumbaense que migrou após a decadência da cidade. Havia — observa — uma esperança de que fosse criado o Estado de Corumbá ou o Estado do Pantanal.

 

 

O “diplomático” Cássio Leite de Barros condenou, décadas depois, o processo da divisão. (Foto: Reprodução)

“A ideia do Estado de Corumbá não prosperou, mas sobreviveu o desejo de fazer da cidade a capital do Sul, se a divisão territorial se confirmasse. Para os mais bairristas, não era apenas fazer de Corumbá a capital, mas evitar que esse status institucional contemplasse Campo Grande. E essa rivalidade acendeu os ânimos pré-divisionistas, que se intensificaram logo após o golpe militar de 1964”, lembra Moraes.

 

 

Força política – Com a Arena (partido governista) dividida, as forças políticas e empresariais e os intelectuais de Corumbá se opunham ao movimento divisionista, apoiando o então governador nomeado José Garcia Neto, que tentou convencer Geisel a retroceder da ideia já irreversível. Ele “loteou” seu governo com os sulistas, escolhendo o corumbaense Cássio Leite de Barros para ser o vice.

 

Em abril de 1977, Garcia Neto foi informado que o projeto da divisão estava em curso, sem volta, E “orientado” a não atrapalhar, o que poderia custar a exoneração, declarou à imprensa: “Há 15 minutos eu era contra, mas agora vesti a camisa do presidente e já sou a favor”. Após sua renúncia para disputar o Senado, Cássio, pecuarista, assumiu o governo até março de 1979, em plena ebulição da divisão em Cuiabá.

 

 

Paulo Duarte: “Pelo seu passado econômico, Corumbá merecia ser a capital do Estado”. (Foto: Divulgação)

Anos depois, o último governador do Mato Grosso uno, um político pacifista e reservado, rompia o silêncio e revelava sua frustração e contrariedade com a forma como o governo militar conduziu a criação do novo Estado, sem ouvir a população do Norte e do Sul nem medir as consequências, principalmente para a sua cidade, que ficou no meio do caminho. Afastado da política, ele morreu em 2004, aos 77 anos.

 

 

Ficou o gostinho – Assim como Cássio, outras lideranças pantaneiras saíram de cena e Corumbá perdeu sua liderança no novo estado, depois de dividir forças políticas com Cuiabá. O cacique arenista José Fragelli, corumbaense, defendeu a divisão. Esse enfraquecimento contribuiu para sucumbir projetos de desenvolvimento, como o Programa Pantanal. O acesso rodoviário (BR-262) foi finalizado somente em 2001 com a ponte sobre o Rio Paraguai.

 

“Os laços históricos, culturais e os hábitos com Cuiabá permanecem, são indissolúveis, mas o grande equívoco dessa ruptura, por mais que justifique a extensão territorial de Mato Grosso, foi o nome escolhido para o novo estado”, aponta o deputado estadual corumbaense Paulo Duarte, que tinha 14 anos em 1977. “A falta de respeito e ignorância geográfica incomodam muito, tendo que corrigir até altas autoridades”, alfineta.

 

Duarte ressalta que Corumbá mantém uma relação muito forte com Cuiabá, pelo Rio Paraguai, e a logística com Campo Grande veio paulatinamente devido a falta de acesso. Posição sustentada pelas gerações pós-divisão, também considera uma injustiça o fato da cidade não ter sido escolhida como capital. “Merecia pelo seu apogeu, o passado econômico, o maior município do Pantanal. Ficou esse gostinho”, cita.

 

 

 

Corumbá foi o 3º maior porto fluvial do país até meados do século XX, com 25 agências bancárias. (Foto: Reprodução)

Capital econômica – Com o bairrismo acerbado e as rusgas com Campo Grande explicitando a falta de investimentos do poder central na região, os 48 anos da criação de Mato Grosso do Sul, como ocorreu ao longo de quase cinco décadas, não terá nenhum ato público na cidade, neste sábado. Tal qual ocorreu no dia 11 de outubro de 1977, sem manifestação a favor, com a imprensa local condenando o ato de Geisel.

 

Porém, estabeleceu-se um hiato nesses anos, uma interrupção no desenvolvimento da cidade — de costas para o sul. Um cenário bem diferente do início do século XX, quando, então considerada a “capital econômica”, Corumbá fez um movimento malsucedido para se tornar a capital mato-grossense. Foi o terceiro maior porto fluvial da América Latina e teve o maior rebanho bovino do país, com 3 milhões de cabeças.

 

A birra com Campo Grande é um misto de intolerância e frustração.  “Só falta levarem o Rio Paraguai”, bradam os mais radicais. O município reduziu sua população, nas últimas décadas, e se viu minado na divisão dos investimentos públicos nestes 48 anos.

A bioceânica (pela Bolívia) mudou de rota e as manobras ambientalistas impedem o uso da hidrovia e grandes indústrias. Enquanto isso, a capital e o resto do Estado prosperam….

 

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