CARTA ABERTA À IMPRENSA, ÀS AUTORIDADES E À SOCIEDADE MATO-GROSSENSE
Diante das recentes notícias veiculadas na mídia e da publicação do Extrato de Protocolo de Intenções SINFRA/MT e SEILOG/MS nº 01/2026, de 04 de fevereiro de 2026, que propõe a criação de um corredor logístico rodoviário interligando os pantanais de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul — incluindo a construção de uma ponte de concreto sobre o Rio Cuiabá, em Porto Jofre, vimos a público manifestar nossa posição.
O segmento do turismo de natureza e observação de vida silvestre do Pantanal de Mato Grosso — incluindo agentes, operadores, proprietários de pousadas, barcos-hotel e embarcações turísticas, juntamente com comunidades indígenas, ribeirinhas e representantes da sociedade civil organizada que atuam no Pantanal Mato-Grossense, especialmente na região de Porto Jofre, no município de Poconé (MT), manifesta-se por meio desta Carta Aberta à imprensa, às autoridades e à sociedade mato-grossense.
Somos contrários à execução da ponte em Porto Jofre
e ao aumento do tráfego de veículos na Estrada Parque Transpantaneira, pelos motivos a seguir:
Considerando que:
- A região de Porto Jofre, onde se localiza o Parque Estadual Encontro das Águas, é o principal destino mundial para observação de onças-pintadas. Essa atividade movimenta cerca de US$ 30 milhões por ano apenas nessa localidade, com crescimento contínuo, gerando impostos, empregos, renda e promovendo o desenvolvimento sustentável por meio da conservação dos recursos naturais e culturais;
- A Estrada Parque Transpantaneira, em sua condição rústica de terra e cascalho, proporciona uma experiência singular aos visitantes do Pantanal Mato-Grossense, permitindo o avistamento de onças, tamanduás, antas, veados, ariranhas e centenas de aves. Essas características garantem uma verdadeira imersão na natureza selvagem, que seria comprometida pela ligação interestadual. Além disso, a intensificação do tráfego elevará significativamente o risco de atropelamento de fauna e a consequente perda de biodiversidade;
- A Estrada Parque Transpantaneira é um cartão-postal de Mato Grosso, reconhecida nacional e internacionalmente, por sua paisagem única e por sua importância para o turismo. Transforma-la em uma via de passagem para um corredor logístico interestadual significará descaracterizar o símbolo do Estado e enfraquecer a vocação turística que tanto contribui para economia local. Ademais, tal medida representa um risco adicional de ocorrência de incêndios florestais.
- O aumento do fluxo de veículos em áreas sensíveis representa risco concreto à fauna silvestre, como já observado em outras rodovias do bioma Pantanal, ampliando o número de atropelamentos e ameaçando espécies emblemáticas;
- A implantação da ponte tende a direcionar o uso da estrada para o transporte de commodities, com circulação de veículos pesados incompatíveis com a atividade turística e com a conservação ambiental;
- O Pantanal enfrenta atualmente desafios severos, como secas prolongadas e redução da área alagada, exigindo medidas de proteção e conservação, e não a abertura de novas frentes de impacto;
- A criação de um corredor logístico interestadual nesse contexto representa um duro impacto a um dos biomas mais sensíveis do planeta, comprometendo sua integridade ecológica e seu potencial turístico sustentável.
Somos favoráveis a:
Que os recursos anunciados, sejam direcionados à melhoria da infraestrutura e da integração interna do Pantanal de Mato Grosso, incluindo:
- A interligação entre Barão de Melgaço e Porto Cercado;
- A melhoria do acesso ao histórico Porto Conceição;
- O fortalecimento da ligação entre Poconé e a região do Boqueirão;

Tais investimentos contribuem para ampliar o tempo de permanência dos visitantes no Estado, fortalecer a economia local e valorizar o turismo sustentável.
Considerações finais
Desenvolvimento baseia-se na valorização e proteção do ambiente, buscando o equilíbrio entre a geração de renda e a conservação ambiental.
A construção da ponte interestadual não traz benefícios ao turismo de Mato Grosso; ao contrário, o aumento do tráfego de veículos na Transpantaneira compromete o modelo de desenvolvimento sustentável que o Estado efetivamente necessita.
São necessários a participação pública e critérios técnicos e sócios ambientais rigorosos em qualquer decisão que envolva a Estrada Parque Transpantaneira, Parque Estadual Encontro das Águas e o Pantanal de Mato Grosso.
Desenvolver não é apenas construir infraestrutura, mas conservar aquilo que torna o território único. O Pantanal precisa continuar vivo, íntegro e selvagem.
MANIFESTANTES E APOIADORES
AECOPAN- Associação Civil do Ecoturismo Pantanal Norte
ADEPAN-Associação de Defesa do Pantanal de Poconé
ASSOCIAÇÃO DOS GUIAS DE TURISMO DO PANTANAL NORTE
AMEPE- Associação Mato-grossense de Ecoturismo e Pesca Esportiva
COLÔNIA DE PESCADORES Z-11 Poconé Mato Grosso
ABETA MT – Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura
ABAV – Associação Brasileira de Agências de Viagens
SINGETUR – Sindicato dos Guias de Turismo do Estado de Mato Grosso
IGR PANTANAL MT -Instância de Governança Regional do Pantanal Mato-Grossense
INSTITUTO IMPACTO- Instituto de Mitigação de Problemas Ambientais com Comunidades Tradicionais e Onças
ECOTRÓPICA – Fundação de Apoio à Vida dos Trópicos
PANTHERA BRASIL
INSTITUTO URIHI
ICAS – Instituto de Conservação de Animais Silvestres
FONASC – Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas
IPP -INSTITUTO DE PESQUISA DO PANTANAL – UFMT
REDE PRO UC – Rede Nacional Pró-Unidades de Conservação
INSTITUTO CHALANA DO PANTANAL / MS
OBSERVATÓRIO RODOVIAS SEGURAS
MIKE BUENO – Codiretor do documentário a “Marcha das Onças” – NETFLIX
ASSOCIAÇÃO INDIGENA BORORO – ALDEIA PERIGARA – PANTANAL MT
ASSOCIAÇÃO INDÍGENA GUATÓ – ALDEIA BAIA DOS GUATÓ – PANTANAL MT































