Operacionalização do marco regulatório fortalece demanda por diagnósticos de emissões e leva produtores a buscar informações antes de pensar na geração de créditos de carbono
O mercado de carbono iniciou em 2026 em uma nova etapa de desenvolvimento no Brasil. Mais do que mudanças na legislação, o primeiro semestre foi marcado pelo início da operacionalização do marco regulatório, que tornou obrigatória a mensuração das emissões de gases de efeito estufa para parte das empresas brasileiras. No agronegócio, o movimento começou a repercutir na busca por inventários de carbono, diagnósticos ambientais e projetos voltados à redução e remoção de emissões dentro das propriedades rurais.
Na avaliação do gerente de projetos da SIA Serviço de Inteligência em Agronegócios, Gustavo Heissler, o período representou uma mudança na maturidade do mercado. Segundo ele, as empresas passaram a priorizar informações técnicas, auditáveis e com rastreabilidade, substituindo expectativas baseadas apenas em promessas futuras. “O que vimos nesse primeiro semestre foi um aumento significativo na procura por inventários corporativos e agropecuários de carbono, uma maior busca por projetos que possam reduzir ou remover emissões e uma valorização de histórias concretas, auditáveis e com rastreabilidade”, afirma Heissler.
O avanço dessa demanda também trouxe uma dúvida frequente entre produtores rurais: afinal, quem pode medir as emissões de uma propriedade? Do ponto de vista técnico, qualquer profissional que domine as metodologias pode elaborar um inventário. Entretanto, Heissler ressalta que produzir um cálculo não significa, necessariamente, entregar um diagnóstico confiável para orientar decisões dentro da fazenda. “A qualidade da informação depende tanto da metodologia quanto de um profissional que compreenda os sistemas produtivos e consiga transformar os dados em recomendações para o produtor”, explica o gerente de projetos.
Para realizar esse diagnóstico, é necessário reunir informações detalhadas sobre a propriedade, incluindo características do sistema produtivo, uso da terra, indicadores zootécnicos ou agrícolas e fatores regionais de emissão. A partir desses dados é possível calcular o balanço de carbono, identificar as principais fontes de emissão e apontar oportunidades para reduzir impactos ambientais e aumentar a eficiência produtiva.
Outra questão recorrente diz respeito ao custo do inventário. Conforme Heissler, não existe um valor único porque cada projeto possui características próprias. A finalidade do levantamento e a escala de trabalho influenciam diretamente o investimento necessário. Inventários destinados apenas à mensuração das emissões costumam apresentar custo inferior aos projetos que incluem diagnóstico técnico completo e recomendações de manejo. Da mesma forma, iniciativas envolvendo grupos de produtores reduzem o custo individual por propriedade.
Além do valor do investimento, muitos produtores ainda confundem inventário com crédito de carbono. Embora ambos utilizem como referência o dióxido de carbono equivalente (CO₂e), eles têm funções completamente distintas. O inventário é a ferramenta utilizada para medir emissões e remoções de gases de efeito estufa, enquanto o crédito representa um ativo comercializável obtido somente quando determinados critérios metodológicos são atendidos. “O inventário responde quanto eu emito, quanto eu removo e qual é o meu balanço de carbono. Isso não significa, automaticamente, que a propriedade terá créditos para comercializar. A geração dos créditos depende da comparação com uma linha de base regional e de regras específicas de cada metodologia”, esclarece Heissler.
Entre as oportunidades futuras está o carbono armazenado no solo. O gerente de projetos explica que já existem metodologias internacionais capazes de transformar esse estoque em créditos de carbono, embora a mensuração ainda exija protocolos rigorosos de coleta e monitoramento. “Mas, isso depende de uma amostragem adequada, monitoramento de longo prazo e análises consistentes para acompanhar a dinâmica desse carbono ao longo do tempo”, afirma.
Apesar desse potencial, o especialista destaca que os projetos brasileiros voltados à agricultura e à pecuária ainda passam por uma fase de validação. Por isso, a expectativa é que a geração recorrente de créditos ocorra apenas nos próximos anos. Enquanto esse mercado amadurece, propriedades que comprovam baixa pegada de carbono já começam a agregar valor aos produtos e fortalecer sua posição junto às cadeias produtivas.
Para Heissler, esse cenário exige uma mudança de foco por parte do produtor rural. Em vez de perguntar quanto vale um crédito de carbono, a prioridade deve ser compreender o desempenho ambiental do próprio sistema produtivo. “A pergunta correta é qual é o balanço de carbono da minha propriedade e quais oportunidades existem para melhorar esse sistema produtivo”, afirma o gerente de projetos da SIA.
Na avaliação do especialista, o mercado brasileiro caminha para privilegiar propriedades capazes de demonstrar resultados concretos. “O mercado está migrando das promessas para as evidências. Quem souber medir, monitorar e comprovar seus resultados terá vantagem nos próximos anos”, conclui Heissler.
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Assessoria de Comunicação – SIA Brasil
AgroEffective
Nestor Tipa Júnior –




























