Mato Grosso, 18 de junho de 2026
É com perplexidade e indignação que recebemos a informação de que o Governo do Estado de Mato Grosso está as vias de proibir a utilização de cavaco de madeira nativa oriunda de supressão vegetal devidamente licenciada para geração de energia.
Em outras palavras: a mesma madeira que o próprio Estado autorizou explorar, com licenciamento, plano de manejo, taxas e fiscalização, agora não poderá ser transformada em energia limpa, em emprego e em impostos.
A alternativa proposta é queimar a céu aberto. Em pleno 2026, quando o mundo discute transição energética, bioeconomia e descarbonização, descartar milhões de toneladas de biomassa renovável é desperdiçar energia limpa, emprego e arrecadação — logo em um estado referência do agronegócio brasileiro.
A supressão vegetal em questão é legal. Possui licença emitida pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), recolhe taxas e impostos como FETHAB e IMAD, e é rastreada por meio do Documento de Origem Florestal (DOF), além de garantir a compensação ambiental prevista em norma. O produtor cumpre a lei, o Estado arrecada, o meio ambiente ganha e os trabalhadores e suas famílias têm seu sustento garantido. Ao proibir o aproveitamento, o Estado impede que uma atividade legal e legítima seja desenvolvida, provocando insegurança jurídica e instabilidade socioeconômica.
O cavaco é energia renovável. Substitui combustíveis fósseis, gás e óleo BPF nas caldeiras das indústrias. Reduz emissão de carbono fóssil e dá destino nobre a um resíduo que, de outra forma, vira cinza sem valor. Aliás, o uso de energia limpa e renovável é justamente um dos principais diferenciais das cadeias produtivas presentes em Mato Grosso, como é caso do etanol de milho. Diferentemente do etanol produzido nos Estados Unidos, que utiliza derivados de petróleo em seu processo produtivo, o bioetanol mato-grossense é considerado um dos mais limpos do planeta por ser produzido de fontes 100% renováveis.
Queimar resíduo a céu aberto é contrassenso. Este sim é verdadeiro retrocesso ambiental. Emite CO₂, material particulado e fuligem, sem qualquer aproveitamento energético. É justamente o que a legislação ambiental busca evitar desde os anos 1990.
Além de tudo isso, o prejuízo é bilionário. Só em 2024, Mato Grosso produziu 2,63 milhões de m³ de madeira nativa manejada. Desse volume, ao menos 30% vira resíduo passível de cavaco. Proibir seu uso é rasgar R$ 400 milhões por ano em energia, logística e tributos. É impedir o desenvolvimento de regiões mais afastadas e menos favorecidas de nosso estado. É tirar o pão da mesa de 12 mil famílias que vivem da cadeia produtiva florestal e biomassa.
É controversa, para dizer o mínimo, a nova medida do Governo de Mato Grosso contra o uso de cavaco de madeira nativa oriunda de supressão legal. Enquanto de um lado o Estado festeja a atração de bilhões em investimentos das grandes fabricantes de etanol de milho, de outro trabalha para impedir sua expansão e cortar o fornecimento do principal combustível que move essas mesmas indústrias: a biomassa.
O Governo incentivou. Agora ameaça inviabilizar.
Para se ter uma ideia, nos últimos cinco anos, Mato Grosso ofereceu incentivos fiscais, áreas de instalação e investimentos em logística para atrair grandes players da cadeia de biocombustíveis. São mais de R$ 18 bilhões que vão gerar empregos, renda e desenvolvimento. Proibir o uso de resíduo de supressão licenciada é decretar o apagão energético da nova indústria mato-grossense.
A conta não fecha
Engana-se quem pensa que a produção de floresta plantada é suficiente para abastecer a demanda de nosso estado. A área de cultivo em Mato Grosso é de 120 mil hectares, segundo a Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ). Só para abastecer as unidades de etanol já instaladas, são necessários 380 mil hectares, ou seja, há um déficit de 260 mil hectares. E ainda é preciso considerar que o ciclo de eucalipto leva 7 anos entre plantio e colheita.
As caldeiras não podem esperar. A oferta de cavaco de floresta plantada é insuficiente para a demanda industrial do estado. Então, por que proibir a única fonte complementar legal e ambientalmente correta disponível?
Política ambiental séria não se faz com proibições. Faz-se com regulação inteligente. O que nós esperamos é um governo centrado, que incentive o uso integral da madeira licenciada. Que transforme passivo em ativo. Que entenda que sustentabilidade não é proibir, é dar inteligência ao uso.
Mato Grosso precisa escolher entre dois caminhos: o da modernidade, que transforma resíduo em energia, legalidade em valor agregado e floresta manejada em desenvolvimento; ou o do retrocesso, que prefere a fogueira à caldeira do progresso.
O Ministério Público tem legitimidade e dever de exigir o cumprimento da lei ambiental. Mas tem, sobretudo, o dever de promover o interesse público. E não há interesse público em transformar recurso renovável em passivo ambiental. Não há interesse público em jogar fora R$ 400 milhões por ano em energia, emprego e tributo. Não há interesse público em exportar para o mundo a imagem de um Estado que autoriza, taxa, fiscaliza e depois manda queimar.
O que se espera do MP é que seja guardião da legalidade e indutor de boas práticas. Que apoie o consumo nobre da biomassa licenciada. Que exija filtros, eficiência energética e rastreabilidade. Que diferencie o produtor que cumpre a lei do criminoso que desmata. E o setor produtivo está pronto para trabalhar junto pelo desenvolvimento sustentado na legalidade, na rastreabilidade e na conservação da nossa biodiversidade.
Por Gleisson Omar Tagliari – Presidente do Centro das Indústrias Produtoras e Exportadoras de Madeira do Estado de Mato Grosso (CIPEM)
Flávio Salino Moreira, Presidente do Sindicato dos Madeireiros de Sorriso (SIMAS)
João Carlos Paulino Júnior, Presidente do Sindicato das Indústrias Madeireiras e Moveleiras do Noroeste de Mato Grosso (SIMNO)
Carlos Roberto Torremocha, Presidente do Sindicato das Indústrias de Laminados e Compensados do Estado de Mato Grosso (SINDILAM)
Fernando Zafonato, Presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias de Base Florestal do Estado de Mato Grosso (SINDIFLORA)
Felipe Antoniolli, Presidente do Sindicato das Indústrias Madeireiras do Norte do Estado de Mato Grosso (SINDUSMAD)
Antônio Luís Benedet, Presidente do Sindicato Intermunicipal das Indústrias Madeireiras do Vale do Arinos (SIMAVA)
Dioni Brezovsky Domiciano, Presidente do Sindicato dos Madeireiros do Extremo Norte de Mato Grosso (SIMENORTE)
Claudinei Melo Freitas, Presidente do Sindicato das Indústrias Madeireiras do Médio Norte do Estado de Mato Grosso (SINDINORTE)































