O calor chega mais cedo. A estiagem dura mais tempo. Os rios e nascentes já não seguem o mesmo ritmo de anos atrás. Nos territórios indígenas do noroeste de Mato Grosso, as mudanças climáticas deixaram de ser uma preocupação com o futuro. Elas já fazem parte da rotina das comunidades.
Os povos Apiaká, Kayabi, Rikbaktsa e Munduruku convivem hoje com um cenário cada vez mais desafiador em suas terras, localizadas nos municípios de Juara, Brasnorte e Cotriguaçu, elas também enfrentam a pressão da expansão agropecuária, da exploração madeireira, da mineração ilegal e da implantação de hidrelétricas.
Os impactos sobre a floresta são evidentes. Somente entre 2015 e 2024, mais de 131 mil hectares foram desmatados na região, segundo dados do Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
É nesse contexto socioambiental que nasce o Projeto Semear Vida – Povos indígenas cultivando florestas e restaurando o futuro. A iniciativa é executada pelo Instituto Centro de Vida (ICV) e foi selecionada no Edital nº 003/2025 do Restaura Amazônia (Terras Indígenas), executado na Macrorregião 2 (Mato Grosso e Tocantins), sob gestão da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), com recursos do Fundo Amazônia/BNDES.
Mais do que recuperar áreas degradadas, o projeto busca ampliar a capacidade das comunidades de enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, fortalecer a soberania alimentar e criar novas oportunidades de geração de renda.
Entre as estratégias adotadas está a implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs), uma metodologia que combina árvores, cultivos agrícolas e espécies nativas em uma mesma área, prática muito tradicional entre os povos indígenas. Inspirados no funcionamento da própria floresta, os sistemas agroflorestais aumentam a diversidade de alimentos, recuperam a fertilidade do solo, favorecem a conservação da água e ampliam a produção destinada ao autoconsumo e à comercialização, inclusive por meio de políticas públicas como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
Outra frente do projeto é a Regeneração Natural Assistida, técnica que estimula a capacidade de recuperação da vegetação existente por meio de práticas simples de manejo, como o controle de espécies invasoras, a proteção contra incêndios, o isolamento de áreas sensíveis e o enriquecimento com espécies nativas.
Essas metodologias representam exemplos concretos de Soluções Baseadas na Natureza, abordagem reconhecida internacionalmente por utilizar os processos naturais para enfrentar desafios sociais e ambientais. Ao restaurar áreas degradadas, conservar a biodiversidade e fortalecer a agricultura indígena, o projeto também contribui para aumentar a resiliência dos territórios frente às mudanças climáticas.
“O Semear Vida parte de uma convicção: as comunidades indígenas sempre cultivaram a floresta de forma sustentável. Nosso papel é apoiar essas práticas — fortalecendo os sistemas agroflorestais, a regeneração natural e a produção de alimentos — para que elas próprias sejam a base da adaptação climática nos territórios. Não se trata de levar soluções prontas, mas de reconhecer e potencializar o que já existe e funciona.” Pontua Rodrigo Marcelino Gestor de Projetos Territórios Indígenas do Instituto Centro de Vida.
Comunicação que nasce nos territórios
Assim como o conhecimento tradicional é fundamental para restaurar a floresta, a comunicação também desempenha um papel estratégico para fortalecer os territórios. Por isso, o Projeto Semear Vida será desenvolvido em parceria com a Rede Juruena Vivo, articulação que há mais de 12 anos reúne organizações da sociedade civil, povos indígenas, agricultores familiares e movimentos sociais na defesa dos direitos socioambientais da bacia do rio Juruena.
A iniciativa também contará com a participação do Coletivo Olhos D’Água, formado por comunicadores indígenas que irão colaborar na construção da estratégia de comunicação do projeto e produzir conteúdos audiovisuais sobre as ações desenvolvidas nas aldeias. Mais do que registrar atividades, a proposta é ampliar a visibilidade das iniciativas conduzidas pelas próprias comunidades, fortalecendo o protagonismo indígena e valorizando os conhecimentos que ajudam a conservar a floresta.
Ao unir restauração ecológica, agricultura tradicional, comunicação comunitária e fortalecimento dos povos indígenas, o Projeto Semear Vida demonstra que enfrentar as mudanças climáticas passa, também, por reconhecer e apoiar as soluções que já existem nos territórios.
_________________________________________________________________
O Projeto Semear Vida – Povos indígenas cultivando florestas e restaurando o futuro foi selecionado no Edital nº 003/2025 do Restaura Amazônia (Terras Indígenas), executado na Macrorregião 2 (Mato Grosso e Tocantins), sob gestão da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), com recursos do Fundo Amazônia/BNDES.
Executado pelo Instituto Centro de Vida (ICV), o projeto promove ações de restauração ecológica e produtiva em Terras Indígenas por meio da implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs) e Restauração Natural Assistida (RNA), da valorização dos conhecimentos tradicionais, do protagonismo indígena e do fortalecimento da geração de renda.
O edital conta com o apoio institucional do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) e do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA).
O Restaura Amazônia é uma iniciativa do Fundo Amazônia, BNDES e instituições gestoras parceiras para o financiamento não reembolsável de projetos de restauração ecológica com espécies nativas e sistemas agroflorestais na Amazônia Legal