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Única moradora da Fernando Corrêa em Cuiabá vive na mesma casa há mais de 60 anos e viu transformação da avenida: ‘era uma rua de terra vermelha’

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memória viva

Da Redação – Bruna Barbosa

Enquanto milhares de veículos atravessam diariamente a avenida Fernando Corrêa da Costa, a casa azul de Air Guimarães de Jesus, de 86 anos, resiste às transformações de uma das vias mais movimentadas de Cuiabá. Os olhos de Air já viram o antigo caminho de terra vermelha — onde o principal meio de transporte eram os cavalos e os carros de boi —  ser asfaltado e duplicado durante mais de seis décadas de mudanças. Agora, a pequena casa azul de Air é cercada por concessionárias e prédios comerciais, enquanto a senhora simpática que se protege do frio no quintal tem apenas os trabalhadores do entorno como vizinhos. “Até sábado, meio-dia, domingo é o dia inteiro sem ninguém”, brinca.

Na memória, que por vezes teima em falhar com um detalhe ou outro, Air guarda as lembranças de uma vizinhança que desapareceu, da época em que a avenida Fernando Corrêa da Costa era endereço de sítios e ponto de parada dos carros de boi. A vizinhança desapareceu, mas ela insiste em permanecer no lugar que aprendeu a chamar de lar aos 7 anos.

“A gente morava com o padrinho da minha mãe [em outra casa na avenida Fernando Corrêa] que tinha um armazém e uma casa onde ele recolhia as pessoas que vinham de fora, dava comida para os cavalos e gados, porque naquela época eram carros de boi. Não tinha carro, né? Era carro de boi. Não ficava passando carro, de jeito nenhum, não tinha carro mesmo. Passado muito tempo arrumaram um que chamava ‘jardineira’, um carrinho bem feio, só os ricos que tinham, pobre não tinha isso”, lembra.

Como uma boa cuiabana das antigas, Air intercala “causos” que ajudam quem não viveu a Cuiabá de décadas atrás a imaginar a cidade do passado. Sobre o padrinho com quem morou na infância, por exemplo, ela conta da vez em que ele criou uma anta que quase foi responsável pela morte dele durante um banho no rio Cuiabá. “Uma vez ele criou uma anta, ele foi um dia no Rio Cuiabá e amarrou a anta na cintura para ela não ir embora. Se não fossem os soldados do 16 que estavam na beira do rio, ele tinha morrido, porque a anta saiu correndo, ela é de terra e de água, quase que mata ele”, recorda entre risos.

Air nasceu em uma casa na avenida Coronel Escolástico, em frente ao Monumento dos Bandeirantes e só deixou Cuiabá durante dois breves períodos: antes dos 7 anos e depois que se casou. No entanto, os quatro filhos foram criados na casa azul na avenida Fernando Côrrea da Costa.

“Aqui criei meus filhos. O segundo nasceu em Cáceres, mas os outros já nasceram para cá. Tive seis filhos, são quatro vivos. Os dois que faleceram nasceram no mesmo dia. Dividiram aniversário, era 21 de junho. Meus filhos todos são bons, mas eles falam que esses dois eram privilegiados. Aqui moro com minha nora, que era mulher dele, e uma filha dele, porque a outra já casou, mas está sempre aqui com a gente. Agorinha eles estão aqui para ver o jogo. Eu já falei para eles que não vou ficar aqui fora, está muito frio”.

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Na infância, a cidade foi o quintal de Air, que tomava banho no Córrego do Gambá, um dos afluentes do Rio Cuiabá que passa pela avenida Fernando Côrrea, algo que não condiz mais com a realidade da cidade que cresce continuamente. Na memória, a imagem de uma enorme figueira ficou marcada para Air.

“Ali [no Córrego do Gambá] era tipo um rio, a gente tomava banho. Depois passamos a não tomar mais banho, porque lá em cima fizeram a casa dos leprosos, não podia mais tomar banho porque a água caía no rio. Mais para cima tinha um local muito bom que chamava Água Azul. Cresci brincando aqui na Fernando Corrêa”. A lembrança retrata um temor comum naquele período, marcado pela existência dos leprosários, instituições de isolamento compulsório para pessoas com hanseníase, prática que foi abolida no país.

Antes de Air se mudar com a família nem mesmo a casa azul que hoje resiste na avenida existia. “Só tinham duas casas, a dele [do padrinho] e a outra da esquina, lá para baixo tinham outras casas que eram tipo sítios. Depois foi vindo gente para morar, hoje não tem mais quase ninguém. Bem no começo, quando eu tinha 7 anos, não tinha ninguém, eram poucas pessoas”.

Nem sequer o meio-fio havia sido planejado e a rua de terra passava logo na porta da casa azul. Com a duplicação da Avenida Fernando Corrêa da Costa, a residência original foi desapropriada e a família foi indenizada pelo antigo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), órgão federal responsável pela construção e manutenção das rodovias brasileiras até 2001, quando foi substituído pelo DNIT. A nova casa foi construída alguns metros para trás, preservando a permanência no mesmo terreno.

“Não tinha esse asfalto, a porta da minha casa era onde é o meio-fio hoje. Era uma casa muito grande. Depois, quando foi duplicar aqui, o DNER fez essa casa para a gente, indenizou e fez a casa para cá [mais para trás]”, relembra.

A saudade de uma vizinhança que desapareceu

A casa azul é a única da época em que a avenida Fernando Côrrea era um endereço mais residencial do que comercial, apesar de abrigar prédios antigos e de alto padrão em sua extensão. Com saudade, Air se lembra de alguns dos vizinhos que conviveram com ela ao longo das seis décadas no endereço. “Tem muitos que já se foram”, resume a idosa.

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Entre os mais antigos da vizinhança, ela se recorda de Ester que era uma costureira de mão cheia apaixonada por conversar com os vizinhos. “Batizei quase todos os filhos dela. Com a duplicação, ela não pôde ficar ali. Hoje ela está perto do Manso com Alzheimer. Aqui ela costurava, conversava com todo mundo. Muito triste. Em setembro ela vai fazer 90 anos”.

Perto da Praça dos Motoristas há uma outra residência com moradores de resistem, assim como nos fundos da casa azul. “Falo para o pessoal que acho engraçado, porque eu aqui não vendi e aqui, no fundo tem outra que não vendeu também, ela está espremidinha, eu não estou muito espremida, mas ela está. As duas casas são azuis”.

Ao longo dos anos, conforme a avenida se transformava em um corredor comercial, as propostas para comprar o imóvel se tornaram frequentes. Air conta que era comum interromper os afazeres de casa para atender pessoas interessadas no terreno. Houve quem oferecesse outro lote em troca, às margens do rio Cuiabá, mas ela nunca se convenceu. “Veio um aqui que queria trocar comigo o terreno dele na beira do rio, terreno bom. Falei: ‘meu filho, se o terreno é tão bom assim, por que você quer trocar?’. Tenho só a cara de boba”, diz, entre risos.

A única vez em que cogitou deixar a casa foi após a morte de um dos filhos. Chegou a visitar um apartamento e conversou com a família sobre a mudança, mas desistiu ao imaginar uma rotina longe do lugar onde construiu a própria história. “Não moro numa coisa assim, você não conhece ninguém, não vê ninguém. Aí tô aqui, deixa eu, vou ficar aqui”, afirma.

Apesar dos 86 anos e do susto que levou após o rompimento de uma úlcera, Air diz que não pretende desacelerar. Faz questão de preparar o almoço, lavar roupa, cuidar do próprio quarto e ajudar no que consegue dentro de casa. “Tudo que precisar eu faço. Mas, assim, no meu limite”, afirma. A energia também é dedicada ao trabalho voluntário. Presidente da Associação Mato-grossense Pró-Idosos (Ampi-MT), ela diz que seu maior desejo é deixar um legado para quem envelhece em Mato Grosso.

“Meu desejo é deixar tudo pronto para os idosos para o dia que eu deixar aqui. Vivo batalhando por isso, eles não querem que eu saia da Ampi-MT”, conta. Mãe de seis filhos, avó de 12 netos e bisavó de oito bisnetos, Air diz que construiu a família amparada pela fé e acredita que ainda tem uma missão a cumprir.

Enquanto isso, ela garante que só deixará a casa quando seguir para sua “morada na Piedade”, em referência ao Cemitério da Piedade, no Centro Histórico de Cuiabá, onde deseja ser sepultada.

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