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A mentira da carne de burro na Argentina

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Caso ocorrido na Patagônia mostra como a propagação de notícias falsas contribui para manipulação política

Se o bife ficou caro, as famílias direcionam sua procura para o frango e, especialmente, para a carne suína, diz o articulista; na imagem, um corte de carne crua Marcello Casal Jr/Agência Brasil Xico Graziano

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Minha mãe Ignez, 96 anos, perguntou-me outro dia, ao visitá-la em Araras (SP): “Como faço para saber se aquilo que a gente lê na internet é verdadeiro ou falso?”. Coloquei a mão.

Tomei como exemplo um fato ocorrido recentemente na Argentina. Um açougueiro da cidade de Trelew, situada a 1.300 km de Buenos Aires, na Patagônia, teve a ideia de vender carne de burro. Preparou uns cortes, fez uma linguiça e, com ajuda de um pequeno restaurante, divulgou a novidade. O preço, barato, menos da metade da carne bovina, agradou. Vendeu 500 kg em 2 dias.

Alguém, malicioso, politizou o sucesso da iniciativa. Escreveu na rede social que o governo de Javier Milei tinha empobrecido o povo, levando os argentinos a abandonarem a parrilha, substituindo-a pela carne de burro para sobreviver. Culpa da direita. Viralizou.

Irritada, a Casa Rosada, sede do governo federal, utilizou seu perfil “Escritório de Resposta Oficial” no X para esclarecer que a notícia sobre a carne de burro refletia um caso isolado na Patagônia. Não tinha nada a ver com a política econômica. A polêmica correu a nação. Estava em jogo a imagem do país.

O assunto repercutiu no Brasil. No ambiente polarizado e tóxico do debate nacional, o burro argentino serviu de estopim para a guerra de narrativas entre os extremos. O ICL (Instituto Conhecimento Liberta), ligado à esquerda, tendo como sócio o influencer Felipe Neto, publicou em manchete: “Argentinos recorrem à carne de burro contra a fome durante crise econômica no país”.

Naqueles dias, há cerca de 1 mês, nossa faxineira chegou para o trabalho, em casa, aqui em São Paulo. Mal me viu, puxou prosa: “Viu como está feia a situação na Argentina? O pessoal está tendo que comer carne de burro”.

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Era a prova de que a maledicência esquerdista prosperara. A carne de burro tinha se transformado em sinal de pobreza dos hermanos.

O pessimismo provocado pela notícia se chocava com o otimismo dos índices econômicos, conforme mostrado por relatório do Banco Mundial. O equilíbrio das contas públicas e a forte queda da inflação traziam sinais de prosperidade no país. Em resumo: combatendo o caos populista, o governo Milei tem conseguido o milagre de salvar a Argentina.

É simplesmente mentira que o consumo de carne de burro tenha estourado na Argentina. Na realidade lá ocorreu, como também no Brasil, uma forte elevação no preço da carne bovina. Entre as razões, destacam-se as crescentes compras da China e, em contraposição, a queda da pecuária norte-americana. O rebanho bovino dos EUA é o menor dos últimos 75 anos. Apertou assim a demanda global.

Face aos preços relativos, verifica-se nos últimos meses, aqui como na Argentina, uma tendência de substituição no consumo popular de carnes. É racional. Se o bife ficou caro, as famílias direcionam sua procura para o frango e, especialmente, para a carne suína. Cortes atraentes de porco, antes inexistentes nas gôndolas, atraem o consumidor. Funciona o marketing.

Aos números. O consumo doméstico de carnes na Argentina, somando o conjunto delas –avícola, suína e bovina– cresceu 3,85% em 2025, situando-se ao redor de 115 kg/hab/ano. Está acima do consumo médio per capita brasileiro, de 100 Kq/hab/ano….

A carne bovina, entretanto, cedeu espaço às demais carnes na Argentina, caindo perto de 5 kg per capita/ano. No país que liderou a pecuária mundial desde o século XIX, o frango ultrapassou o boi. A mesma tendência se observa no Brasil, onde há tempos a carne avícola ganhou a preferência popular.

Continua irrelevante o consumo de carne de burro na Argentina. Mas a proteína originada do cavalo poderia crescer. Sim. Poucos sabem, mas a Argentina é um dos maiores exportadores mundiais, há décadas, de carne de cavalo. Vendem, com bons preços, aos russos e europeus. No mercado interno, porém, a carne de cavalo, por razões culturais, não é aceita.

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Tenha apreço pelo saber. E tome muito cuidado com a desinformação. Esse episódio da Argentina mostra o perigo da conversa fiada. Como enfrentar o problema das fake news, quer saber minha mãe?

Na maioria dos casos, é simples: basta conferir, nos veículos tradicionais da imprensa, se a notícia que lhe chamou a atenção na rede digital procede. Somente essa ação elementar resolve 90% dos casos suspeitos. Mesmo existindo contaminação ideológica em parte do jornalismo, dificilmente as redações de jornais e revistas deixam de checar a origem da notícia.

A fonte da informação diz tudo. Se minha mãe a tivesse procurado, descobriria que o argentino Julio Cittadini, o dono daquele pequeno açougue em Trelew, decidiu arriscar na carne de burro (e jumento) porque andava com pouca oferta de gado, bovino e ovino, face ao ataque de predadores, felinos, nas crias do rebanho. Quem estava com fome na Patagônia era a onça.

O azar do burro foi o puma. Essa é a verdade. Cuidado com a guerra ideológica. Ela cria muitas burrices por aí. publicidade o Poder360 integra o autores Xico Graziano Xico Graziano, 73 anos, é engenheiro agrônomo e doutor em administração. Foi deputado federal pelo PSDB e integrou o governo de São Paulo. É professor de MBA da FGV. Escreve para o Poder360 semanalmente às terças-feiras.

nota do editor: os textos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados no espaço “opinião” não refletem necessariamente o pensamento do Poder360, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor e conceitos divulgados….

Leia mais no texto original: (https://www.poder360.com.br/opiniao/a-mentira-da-carne-de-burro-na-argentina/)
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