Estudo comparativo entre Brasil e outros países da região mostra que, apesar da alta conscientização sobre riscos geopolíticos, há desalinhamento no tema entre conselheiros e diretoresNova pesquisa conduzida pelo IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), em parceria com a consultoria Better Governance, revela que mais de 80% dos conselheiros e diretores da América Latina reconhecem a relevância estratégica do contexto geopolítico para os negócios. Porém, a capacidade de transformar essa consciência em decisões efetivas e estratégicas ainda é limitada.
O estudo “O conselho de administração e o contexto geopolítico: análise comparativa entre países da América Latina” ouviu 424 respondentes, sendo 357 no Brasil e 67 distribuídos por Argentina, Colômbia, Costa Rica, México, Panamá, Peru e Uruguai. Em 2025, a edição inicial da pesquisa, em comemoração aos 20 anos da Better Governance e aos 30 anos do IBGC, focou apenas no Brasil. Agora, a expansão para outros países da região deve-se à intensificação das dinâmicas geopolíticas globais.
Risco e oportunidade
A pesquisa aponta que a geopolítica é percebida majoritariamente como uma combinação de riscos e oportunidades. Tal visão é compartilhada por cerca de 66% dos conselheiros brasileiros e 71% dos latino-americanos. No entanto, há uma diferença relevante entre os diretores: enquanto no Brasil apenas 10% enxergam o cenário predominantemente como oportunidade, nos demais países da região esse índice sobe para 36,4%, sugerindo uma postura mais voltada à captura de valor fora do país.
Apesar da elevada conscientização, mais de 80% dos conselheiros afirmam estar cientes dos riscos geopolíticos e cerca de 70% reconhecem oportunidades decorrentes desse contexto. Menos da metade dos respondentes afirma que suas empresas têm modelos estruturados e atualizados para acompanhamento de riscos. Processos formais de monitoramento de crises geopolíticas são apontados como inexistentes por cerca de 50% dos entrevistados. Esse é um dos pontos mais críticos da governança, segundo o relatório.
O uso de tecnologias como inteligência artificial para análise geopolítica ainda não é percebido como adequado, com elevada concentração de respostas neutras e negativas, especialmente entre conselheiros. Além disso, menos de 40% dos respondentes no Brasil consideram que as informações disponíveis sobre o tema são suficientes para fundamentar decisões estratégicas.
Um dos padrões mais consistentes identificados é a assimetria de percepções entre conselheiros e diretores. Enquanto conselheiros tendem a avaliar positivamente a capacidade do conselho e sua abertura a visões externas, como a inexistência de resistência a perspectivas externas, os diretores são mais críticos, especialmente no Brasil, onde cerca de 43% discordam que o conselho agregue as competências necessárias para lidar com o tema.
“A compreensão do conselho sobre o contexto geopolítico é suficiente para avaliar seus impactos?” é uma das perguntas em que a divergência fica mais evidente: conselheiros brasileiros concordam em maior proporção do que diretores, enquanto nos demais países da América Latina ocorre o padrão inverso, com diretores demonstrando mais confiança do que os próprios conselheiros. “O principal desafio não está na conscientização, mas na capacidade de traduzir essa consciência em práticas consistentes de governança e decisão estratégica”, resume o relatório.
Três lacunas simultâneas
A pesquisa conclui que a governança geopolítica enfrenta três tipos de lacunas combinadas: cognitiva (compreensão insuficiente do tema); comportamental (resistência percebida a perspectivas externas); e estrutural (falta de processos e ferramentas formalizados). Essas fragilidades, segundo o estudo, limitam a capacidade dos conselhos de atuar de maneira proativa diante de um cenário global em rápida transformação.
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