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Burros “bombeiros” estão ajudando a apagar incêndios florestais na Espanha

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Animais comem pasto inflamável, criando bloqueios naturais que previnem que as chamas se espalhem

Daniel Olivares Gallego, da CNN

Neste verão, incêndios florestais intensos varreram o sul da Europa mais cedo do que o habitual. Mais de 240.000 acres de terra já foram destruídos na Espanha, com um incêndio recente no sul virando rapidamente em um dos mais letais do país.

A prevenção de incêndios florestais tornou-se uma tarefa de alta tecnologia, envolvendo satélites, drones e sistemas de IA. Mas, a cerca de 130 quilômetros ao sul de Barcelona, ​​uma solução antiga percorre silenciosamente as montanhas: um rebanho de burros.

A Tivissa Donkey Firefighters, uma organização sem fins lucrativos no sul da Catalunha, reabilita burros maltratados e abandonados, colocando-os para trabalhar como “bombeiros”. Ao pastar a vegetação mais inflamável nas montanhas e áreas rurais, eles criam bloqueios naturais para as chamas na paisagem seca do Mediterrâneo.

O experimento se transformou em uma operação em tempo integral, e Cedó — agora prefeito da pequena cidade de Tivissa — passou a gestão diária para Jordi García, um voluntário que se juntou ao projeto em 2021. “É muito gratificante”, disse García, em espanhol. “Você está em contato com a natureza e deu uma chance a esses animais.”

Um dos primeiros a chegar foi Roberto, um antigo burro de corrida enviado para o matadouro depois que parou de vencer devido ao seu porte robusto. “Ele é especial, e acho que ele sabe disso”, disse o criador da Donkey Firefighters.

Outra burra, Paloma, chegou com problemas de obesidade por ter sido alimentada com “biscoitos de supermercado e torrões de açúcar”, acrescentou ele. “Essa não é uma dieta adequada para um animal como esse… É também uma forma de maus-tratos.”

E o trabalho deles nunca foi tão crucial. Em 2025, a União Europeia registrou a temporada de incêndios florestais mais destrutiva de sua história, com a Espanha perdendo quase um milhão de acres para o fogo.

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Por que burros?

Os burros são animais de pasto e preferem as gramíneas que secam durante o verão, formando o chamado “combustível fino”, uma biomassa vegetal que se inflama mais facilmente e acelera a propagação do fogo, explicou o Dr. Jordi Bartolomé Filella, professor da Universidade Autônoma de Barcelona e pesquisador em ecologia de herbívoros.

Para obter um “efeito bastante completo, funciona bem combinar diferentes tipos de herbívoros”, explicou Bartolomé, “de modo que atuem sobre as diferentes camadas e espécies da vegetação rasteira”.

Mas Cedó vê algo especial em seus animais: “O trabalho que os burros fazem, nem cabras nem ovelhas conseguem fazer”, disse ele. “Eles pesam mais; portanto, a cada passo, pisam com mais força e comem mais.” Ao pisotearem o solo, eles rompem a camada contínua de folhagem seca de que o fogo precisa para se propagar.

Pesquisas mostram que animais de pasto podem ser uma defesa eficaz e mais barata do que a abertura destes bloqueios com maquinário mas, como ocorre com a prevenção de incêndios em geral, não é uma solução mágica.

“É difícil garantir que, com o pastoreio de animais, não haverá incêndios”, disse Bartolomé, “mas isso pode reduzir a intensidade deles e, consequentemente, torná-los mais fáceis de extinguir.”

“É uma situação em que todos ganham”, disse Cedó. “Eles abrem os aceiros, nós colocamos os animais lá e mantemos a área limpa.” Cedó acrescentou que as trilhas abertas pelos burros podem ser usadas “para passar mangueiras caso ocorra um incêndio”.

Resgatando uma ideia antiga

O fogo sempre foi uma característica da região do Mediterrâneo, e o pastoreio de animais, tanto selvagens quanto domésticos, tem controlado há muito tempo o acúmulo de vegetação em áreas secas.

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“Sem grandes herbívoros, mais cedo ou mais tarde essa biomassa seria ‘consumida’ pelo fogo. Ao contrário dos herbívoros, o fogo a consome de forma repentina, com consequências abrangentes para o ecossistema e riscos para as pessoas”, disse Bartolomé.

Cedó buscou inspiração e conselhos na “El Burrito Feliz” (O Burrinho Feliz), uma organização sem fins lucrativos pioneira no sul da Espanha, onde burros resgatados pastam nas áreas periféricas do Parque Nacional de Doñana desde 2014.

Projetos semelhantes estão surgindo em todo o país. Iniciativas de renaturalização na Galícia, no noroeste da Espanha, estão trazendo de volta cavalos selvagens para atuar como “cortadores de grama naturais” na região mais propensa a incêndios do país.

As autoridades reconhecem o valor da criação de animais na prevenção de incêndios, disse Bartolomé, mas não sabem ao certo como agir a esse respeito. Ele argumenta que as iniciativas de pastoreio só ganharão escala quando os governos pagarem por elas como um serviço ecossistêmico, da mesma forma “que se paga pela limpeza mecânica do terreno”.

Cedó afirmou que os pastores recebem até 80 euros por hectare (cerca de 464 reais) de área limpa em terras privadas e até 300 euros por hectare (aproximadamente R$ 1750) em terras públicas, valores insuficientes para sustentar o trabalho. Atualmente, o projeto “Tivissa Donkey Firefighters” depende de doações e parcerias para cuidar do rebanho.

“Este projeto nasceu do nada, por acaso”, disse Cedó. “Mas tem sido uma lição profunda, tanto social quanto pessoalmente.”

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