A cadeia do cacau no Brasil vive um choque de realidade. Em menos de dois anos, passou de um boom histórico de preços para um tombo das cotações no início deste ano. A causa é uma combinação de normalização da oferta mundial, diminuição de demanda e fortalecimento do real frente ao dólar.
De fins de 2024 ao começo de 2026, as cotações internacionais do cacau registraram retração superior a 70%, caindo de US$ 13 mil por tonelada para níveis próximos a US$ 3 mil a US$ 5 mil, em meio a uma menor demanda global e superávit no mercado mundial.
No contexto brasileiro, especialmente na Bahia, os produtores enfrentaram redução similar de cerca de 70% nos preços recebidos por arroba. Esse movimento apertou a margem do produtor e trouxe desafios para a viabilidade econômica e implementação de investimentos na implantação de novas lavouras.
O resultado desse choque, é conhecido por quem está no campo: a arroba caiu, os custos de produção seguiram altos e muita gente passou a trabalhar no limite da margem de lucro ou abaixo do ponto de equilíbrio. Não por acaso, vimos bloqueios de rodovias, assembleias de produtores e uma cobrança crescente por bloqueio nas importações de cacau e pelo fim dos descontos praticados nas compras internas.
Para quem atua nessa cadeia, é possível observar um movimento importante: cresceram os investimentos de empresas, fundos socioambientais e políticas públicas que enxergam o cacau como cultura âncora para restaurar paisagens. Sobretudo em sistemas agroflorestais, o cacau ajuda a reconstruir a fertilidade do solo, melhorar a infiltração e a qualidade da água, aumentar a diversidade de árvores e animais e estocar carbono, enquanto gera renda para as famílias.
É por isso que ele aparece no centro de tantos projetos de recuperação de pastagens degradadas, recomposição de matas ciliares e adequação ambiental de propriedades na Amazônia e na Mata Atlântica. Quando o mercado olha para “clima” e “natureza”, o cacau bem feito se encaixa como peça-chave.
Economicamente, o cacau continua sendo uma cultura intensiva em trabalho e muito sensível à combinação de produtividade e preço. Em sistemas de produção que combinam técnicas mais avançadas, a conta fecha quando se alcança um certo patamar de produção por hectare e um preço minimamente remunerador.
É o que acontece com a cabruca, sistema de produção tradicional na Bahia, que, em uma versão modernizada, faz poda seletiva, adubação precisa e uso de bioinsumos, resultando em um aumento significativo da produtividade.
Já em modelos mais intensivos, como o cacau a pleno sol ou irrigado, é preciso produzir ainda mais para compensar o investimento pesado em estrutura, energia e insumos.
A queda recente de preços acende um alerta: se o valor do cacau permanecer muito baixo por tempo prolongado, parte dos novos plantios voltados à recuperação de áreas degradadas pode desacelerar ou ser adiada, simplesmente porque a percepção de risco aumenta e a atratividade econômica diminui. Em outras palavras, preços reprimidos hoje podem sabotar a agenda de sustentabilidade de amanhã.
Estudos de viabilidade para cabruca na Bahia e sistemas agroflorestais no Pará apontam que novos projetos ficam mais confortáveis quando o preço se mantém em uma faixa intermediária, capaz de remunerar o capital ao longo dos anos.
Quando o mercado cai para algo próximo dos níveis atuais, em torno de U$ 2 mil por tonelada, o risco aumenta bastante, principalmente se esse patamar se mantiver por longo período. Nessas condições, a implantação de novas lavouras tende a ficar restrita a casos de produtividade muito acima da média, custo bem controlado ou algum tipo de apoio público que reduza o peso do investimento inicial.
Por outro lado, experiências em diferentes regiões mostram caminhos concretos para manter a competitividade da lavoura mesmo em cenários de preços menos favoráveis. Ensaios de campo indicam que um manejo nutricional bem feito, o uso de bioinsumos e a adoção de boas práticas de produção — poda regular, manejo de sombra, adubação equilibrada, conservação de solo — conseguem elevar significativamente a produtividade e, em muitos casos, reduzir a dependência de insumos químicos caros.
Produtores que investem em solo vivo, bioinsumos e sistemas agroflorestais bem manejados tendem a ficar em melhor posição para atravessar períodos de baixa, preservando margem e mantendo o cacau como alternativa de investimento interessante em médio e longo prazo.
Seguro climático e econômico
A literatura e a prática convergem em uma mensagem desconfortável, mas animadora: sistemas mais sustentáveis — com diversidade de espécies, sombreamento adequado, solos vivos e conservação de florestas — funcionam, na prática, como um seguro climático e econômico para a cacauicultura.
Municípios que conservaram melhor suas florestas colhem hoje mais e com menos risco do que aqueles que avançaram de forma agressiva sobre a vegetação nativa. Em um cenário em que regulamentos como a lei europeia de combate ao desmatamento começam a condicionar o acesso a mercados, o país tem a chance de transformar a combinação entre cabruca na Bahia, sistemas agroflorestais no Pará e cacau de origem no Espírito Santo em uma vantagem competitiva robusta.
No curto prazo, isso não diminui o sufoco de quem está vendo a arroba desabar e os custos continuarem subindo. Mas, olhando para frente, a mensagem mais honesta é que a cacauicultura brasileira só será realmente atraente se for tratada como um ativo de longo prazo, enraizado em sistemas produtivos de alta eficiência e alta resiliência ecológica, apoiado por contratos mais equilibrados com a indústria e por políticas que reduzam os extremos de preço e câmbio.
Diante da crise atual, a escolha difícil que se coloca é entre continuar reféns de ciclos de euforia e colapso ou usar este choque de realidade como ponto de virada para fazer do cacau brasileiro sinônimo de produtividade sustentável, recuperação de áreas degradadas e segurança de oferta.
*Eduardo Trevisan Gonçalves é diretor de ESG e Certificações do Imaflora

































