Por Bruna Barbosa – Da Redação
Quem passa desatento pela avenida Senador Metelo, no Porto, em Cuiabá, pode não ter a sorte de reparar em Elza Benedita Arruda e Silva, de 81 anos, organizando os quitutes cuiabanos que prepara no balcão da lanchonete que leva seu nome desde 1998. Dona Elza transpira energia e vitalidade que podem dar inveja a muitos jovens enquanto exibe, orgulhosa, a quantidade dos tradicionais bolos de queijo cuiabano e bolinhos de carne, o mais famoso entre os clientes fieis do estabelecimento, que já preparou antes do relógio marcar 11h.
Entre bolinhos de carne e histórias de vida, Dona Elza transforma lanchonete em patrimônio afetivo de Cuiabá
“Sou uma menina do interior, de Barão de Melgaço, filha de uma família simples, uma família de cor. Nunca renego a minha cor e a minha origem. No momento em que eu ocultar a minha origem, não sou verdadeira filha de Deus, a pessoa tem que ter consciência do que é, não do que quer ser. Sou uma pessoa bem original.Não minto minha idade, nunca menti minha idade, hoje estou com 81 anos, trabalhando”, começa Elza.
Aos 10 anos, as mãos, que agora ostentam os sinais dos anos que já se passaram, foram responsáveis por cuidar de uma criança no primeiro trabalho de Elza, que era babá em Barão de Melgaço (MT). Mais tarde, ela se mudou para Cuiabá para estudar.
“Trabalhei quase 10 anos no Liceu Cuiabano, aposentei, trabalhei muitos anos, eu era escriturária naquela época”.
Acostumada a trabalhar desde os primeiros anos de vida, Elza não se adaptou com os dias morosos da aposentadoria e desabafou com o filho sobre a vontade de voltar a ter um trabalho.
“Mamãe, você não precisa”, lembra ter ouvido do filho.
“Mas eu queria trabalhar, queria fazer algo útil para mim, nem que fosse vender pastelzinho na rua. Já gostava de cozinhar”, conta.
Depois de convencer a família, Elza convidou a filha Ana Paula Arruda e Silva, de 50 anos, para montarem um buffet juntas. Nasceu, então, o Buffet Arruda. “Graças a Deus fui muito bem sucedida, trabalhei muito tempo e abri essa lanchonete em 1998. Comecei com uma portinha, dessa portinha comecei com um restaurante, muito famoso, Tempero Caseiro da Dona Elza”.
Em 2020, faleceu o marido de Elza, com quem ficou casada por 52 anos. Não foi a primeira vez em que precisou lidar com o luto de alguém que amou muito. Enquanto continua o trabalho de enrolar as bolinhas de carne, ela lembra da filha que perdeu, aos 3 anos, e do filho, de 21, que partiu de forma vítima da meningite. “Ele era lindo, um jovem forte, acordou com dor de cabeça, me ligou para dizer que estava passando mal. À noite ele faleceu”.
“É o ciclo das nossas vidas, porque a morte não é um castigo, para quem acredita em Deus, para quem vive com ele 24 horas, a morte não é nenhuma coisa drástica na sua vida, é uma coisa que você espera hoje ou amanhã. Nós não temos amanhã, temos o hoje. Achei um companheiro, amigo, marido, amante… Maravilhoso. Amamos dançar baile, dançávamos quase todo final de semana, mas infelizmente ele foi embora, me deixou”.
‘Não deixei de viver’
Ao se ver sem o grande amor e companheiro dos bailes da vida, Elza relembrou as conversas que teve com ele em vida, em que ambos prometeram não deixar de viver do jeito que gostassem desde que respeitassem a si mesmos, reforça. A botequeira, como se define ao recusar ser chamada de empresária, passou a construir novos momentos ao lado da família e das amigas, com quem agora divide os bailes e viagens para o Nordeste.
“A gente conversava muito que nossa vida continuaria, um de nós dois teria que ir embora, se eu fosse primeiro, ele iria viver a vida dele, do jeito que ele gostasse, com respeito consigo. Eu fiquei. Gosto de dançar baile, tenho minhas amigas maravilhosas, gosto de viajar, viajo muito”.
“Nesses 81 anos já sorri muito, já chorei bastante, perdi dois filhos, uma filha com 3 anos e um filho com 21 anos. Mas nunca fiquei por baixo. Deus me dá força, sou filha de Deus, não sou uma pessoa fanática em igreja e religião. Sou Deus, converso com ele, que me dá essa força de levantar às 4h para estar aqui na lanchonete, servindo meus clientes… É Deus que me dá essa força. Hoje o pessoal não pensa em Deus, eles pensam em si. Bens materiais vão, nós ficamos. Tudo que temos aqui é emprestado”, completa Elza.
Na bancada que fica de frente para a avenida Senador Metelo e coberta por um mosqueteiro, os quitutes ficam expostos do mesmo jeito há anos — e os clientes fazem questão que continue assim. Entre memórias afetivas e o movimento de fregueses antigos, a lanchonete resiste ao tempo sem pressa de se modernizar, preservando o jeito simples que transformou o espaço em referência para quem cresceu frequentando o lugar.
“Sirvo comida cuiabana, bolo de arroz, bolinho de carne, pão com ovo e carne moída, coxinha de mandioca, bolo de milho, sopa paraguaia… Iguarias que faço, sou muito curiosa. Tenho clientes desde que comecei, os filhos já casaram, os filhos dos filhos são meus clientes. Já fui madrinha de vários clientes meus. Tudo que faço é com gratidão. As pessoas hoje abrem uma porta acham que são donas, empresárias, não… Eu sou Dona Elza, botequeira, pessoa simples, que veio do interior, que trabalha porque gosta de trabalhar”.
Entre os quitutes mais procurados da lanchonete está o bolinho de carne, que dona Elza ainda chama pelo nome antigo: almôndega. A receita atravessa gerações da família e carrega lembranças das festas de São Miguel, quando o prato era presença obrigatória nas mesas. Ao lado dele, o tradicional bolo de arroz também guarda marcas do passado cuiabano.
“Antes era feito em forno de lenha, em lata de sardinha, hoje está tudo mais moderno”, relembra dona Elza, enquanto fala das receitas que resistiram ao tempo sem perder o sabor afetivo.
O segredo para envelhecer bem, conta Dona Elza, é agradecer todos os dias e não reclamar. Nas horas vagas, por exemplo, ela costuma ir em hospitais para visitar os pacientes que sequer conhece.
“Minha vida é maravilhosa, todos os dias levanto e a primeira coisa é conversar com Deus. Não quero parar de trabalhar, só no momento que Deus falar ‘para’. Sábado fui em uma feijoada, dançando, com 81 anos isso é maravilhoso. Amar e respeitar a si próprio, porque se eu não me respeitar, não te respeito, se eu não me amar, não te amo. São coisas que você tem que aprender para você. Tenho isso aqui porque amo o que você, amo meus clientes, amo eles sentados comendo, se está triste quero saber o que está acontecendo”.
Dona Elza diz que aprendeu cedo que a vida não pode ser medida pelo dinheiro ou pelos bens acumulados ao longo do caminho. Enquanto relembra a própria trajetória, a voz desacelera ao falar da perda de uma filha de 3 anos, em uma época em que a família tinha fazenda e uma condição financeira confortável. “Na época que mais tive dinheiro, perdi minha filha. Meu dinheiro não comprou a saúde dela”, conta.
A dor transformou a forma como passou a enxergar o mundo e o próprio trabalho. “Na hora que eu achava que podia tudo, que tinha o poder de fazer tudo para minha filha não ir, ela foi.” Desde então, Elza diz viver com gratidão e consciência de que nada é permanente. “Saber que tudo que tenho aqui não é meu. Então, agradeço a Deus. Essa é minha vida.”






























