CUIABÁ
Pesquisar
Close this search box.

Da fartura às miniporções: canetas emagrecedoras começam a transformar setor gastronômico de Cuiabá

publicidade

menos apetite

Da Redação – Bruna Barbosa

A chegada das primeiras versões nacionais da semaglutida, princípio ativo das canetas emagrecedoras Ozempic e Wegovy, acelera a mudança no comportamento dos consumidores brasileiros e começa a provocar adaptações em bares e restaurantes. Em Cuiabá, empresários do setor já percebem clientes consumindo menos alimentos e bebidas, apostando em porções reduzidas e pratos mais leves.

O ano do feito à mão: feiras de arte transformam Cuiabá em vitrine da criatividade local com peças exclusivas e artesanais

Enquanto o proprietário do Ditado Popular, Kadu Corrêa, atribui parte da mudança ao avanço dos medicamentos para emagrecimento, a chef Francyne Rabaioli, dos restaurantes Canto, Olga Cozinha Italiana e Ninho, avalia que o movimento também reflete uma busca crescente por qualidade de vida. Já o chef Hugo Rodas, da Dorê Croissant, Gudus, Bello Pizza e Dona Parmê, acredita que a queda no ticket médio está mais relacionada ao cenário econômico, embora reconheça que o novo perfil de consumo exige adaptações.

A mudança que dá os primeiros passos em Cuiabá acompanha um movimento já consolidado nos Estados Unidos, país que liderou a popularização dos medicamentos da classe dos GLP-1. Nos últimos dois anos, reportagens do The New York Times mostraram que esse crescimento vem alterando a forma como os estadunidenses frequentam restaurantes, com redução no consumo de álcool, pedidos menores e compartilhamento dos pratos, além de mudanças na dinâmica dos jantares entre amigos.

A mudança de hábitos também já mobiliza a indústria alimentícia nos Estados Unidos, onde a Nestlé lançou a linha Vital Pursuit, com refeições congeladas em porções menores, além de maior teor de proteínas e fibras voltadas a consumidores que utilizam medicamentos da classe dos GLP-1. No Brasil, dados da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) mostram que 61% dos empresários do setor já perceberam mudanças no comportamento dos consumidores relacionadas ao uso de medicamentos para emagrecimento.

Como as canetas emagrecedoras estão mudando os restaurantes (1).png

Adaptação dos cardápios em Cuiabá

No Ditado Popular, Kadu afirma que a estratégia foi adaptar o cardápio antes que a mudança de comportamento afastasse clientes. O estabelecimento passou a oferecer versões reduzidas de petiscos tradicionais, como porções menores de batata frita, filé e bolinhos, para que consumidores em dieta ou em tratamento medicamentoso continuem frequentando o bar.

“Antigamente o setor gastronômico era movido pela fome. Hoje ele é movido pela experiência. As pessoas saem pelo convívio social, acabam comendo menos, mas continuam querendo estar com os amigos. Se ela encontrar uma opção que cabe na dieta, vai preferir esse lugar”, afirma.

Embora reconheça a mudança de hábitos, a chef Francyne Rabaioli, proprietária dos restaurantes Canto, Olga Cozinha Italiana e Ninho, avalia que o fenômeno começou antes da popularização das canetas emagrecedoras e está relacionado a uma busca mais ampla por qualidade de vida.

Leia Também:  INSCREVA-SE; Últimos dias para Inscrições no 3º Encantos da Gastronomia Sorriso

“Não que a gente não tenha sido impactado, porque não tem como, mas não estou vendo, nesse momento, essa onda da caneta. Há anos percebo que as pessoas estão comendo menos e já vinha adaptando os meus restaurantes para isso”, afirma.

Segundo a chef, todos os restaurantes do grupo dela já oferecem meia porção e pratos compostos apenas por proteína, salada e legumes, mudanças implementadas para reduzir desperdícios e atender consumidores que preferem refeições menores. Ela, no entanto, faz ressalvas à estratégia de associar esses pratos diretamente aos medicamentos para emagrecimento.

“Acho extremamente de mau gosto. Jamais colocaria um ‘Menu Mounjaro’ no restaurante. É deselegante fazer o cliente dizer que quer um Menu Mounjaro. Quem está usando o medicamento, seja por estética ou por saúde, não precisa expor isso”.

Para Francyne, a tendência deve se consolidar com a maior oferta dos medicamentos, mas os restaurantes precisam responder com naturalidade. “Como eu observo isso há tempo, porque eu faço uso de caneta há muitos anos, mas para controle de açúcar, já vinha com essa mentalidade dentro dos restaurantes. Hoje todos os meus restaurantes tem meia porção, tem pratos só de proteína com salada e legumes, que é uma comida que, na verdade, eu consumo”.

Já o chef Hugo Rodas, proprietário da Dorê Croissant, Gudus, Bello Pizza e Dona Parmê, acredita que a queda no ticket médio está mais ligada ao cenário econômico do que ao uso das canetas emagrecedoras.

“Muita gente fala da caneta, mas eu senti muito mais a falta de dinheiro. Minha casa continua cheia, mas o tíquete médio caiu praticamente pela metade”.

Mesmo assim, ele decidiu testar um “Menu Mounjaro”, composto por uma refeição menor. A iniciativa, segundo ele, surgiu por sugestão da equipe de marketing. “Eu achei que era uma bobeira e que não venderia, mas vendeu. Ainda assim, sai numa proporção parecida com uma salada. Acho que o cliente está mais preocupado com o preço do que com o tamanho da porção”.

O empresário afirma que algumas adaptações são possíveis, mas outras inviabilizam a operação. “Não dá para fazer meio croissant ou criar uma nova linha para atender 10% dos clientes. Em alguns casos, a adaptação acaba atrapalhando todo o fluxo da cozinha”.

Como as canetas emagrecedoras estão mudando os restaurantes.png

Impactos das canetas emagrecedoras no Brasil

Os efeitos da mudança de comportamento também aparecem nos números da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). Entre os principais impactos identificados está a redução no consumo de pratos principais e, principalmente, de sobremesas. Mais da metade dos empresários (56%) percebeu mudanças no volume de pedidos dos pratos principais, com predominância de quedas moderadas. No caso das sobremesas, 65% notaram alterações e, entre eles, um em cada cinco relatou forte redução na demanda.

Leia Também:  Com Lula e Alckmin vacinados em Anápolis (GO), Governo do Brasil promove a Campanha Nacional de Vacinação contra a Influenza

O levantamento indica ainda uma busca crescente por refeições menos calóricas. Segundo a pesquisa, 64% dos empresários observaram aumento nos pedidos de miniporções, enquanto mais de 70% perceberam maior procura por opções consideradas mais leves. O hábito de compartilhar pratos principais também avançou e foi mencionado por 64% dos entrevistados.

A mudança de perfil do consumidor também alcança as bebidas. Embora 65% dos empresários tenham percebido alterações no consumo de bebidas alcoólicas, o crescimento das opções sem álcool foi mais consistente, sendo observado por 53% dos entrevistados.

O cenário já começa a impactar as finanças do setor. De acordo com a Abrasel, quatro em cada dez empresários afirmam que ainda não conseguiram compensar a redução no volume consumido por cliente, o que tem acelerado a adoção de novas estratégias comerciais.

Entre as principais iniciativas está a criação de combos e menus estruturados, adotada por 26% dos estabelecimentos. Em seguida aparecem ações para estimular que o consumidor frequente o restaurante mais vezes, estratégia citada por 22% dos entrevistados, na tentativa de compensar um tíquete médio menor com maior recorrência de visitas. Já 21% apostam na oferta de itens de maior valor agregado.

Enquanto o setor ainda tenta medir o peso do uso das canetas emagrecedoras no setor gastronômico cuiabano, os empresários concordam que o comportamento dos clientes está mudando e que a adaptação dos cardápios deve ganhar mais espaço nos próximos anos.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva em fevereiro deste ano mostra que a presença desses medicamentos nas residências brasileiras saltou de 26% no fim de 2025 para 33% no início deste ano, o equivalente a um em cada três domicílios com ao menos um morador usuário de medicamentos como Ozempic e Mounjaro. Entre os entrevistados, 24% afirmaram já ter utilizado as canetas para perda de peso — na prática, quase um em cada quatro brasileiros adultos.

Desse total, 11% são usuários atuais e 13% já fizeram uso no passado. A pesquisa também aponta que nove em cada dez pessoas que já utilizaram esses medicamentos gostariam de voltar ao tratamento.

Para a chef Francyne Rabaioli, o desafio agora é acompanhar uma transformação mais ampla dos hábitos alimentares. “As pessoas estão pensando mais em saúde. Temos que nos adaptar e oferecer uma comida compatível com essa realidade”.

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade