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Quando vencer o câncer não basta

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Reconstrução mamária faz parte do tratamento e é um direito garantido por lei, mas centenas de mulheres ainda aguardam pela cirurgia no SUS em Mato Grosso; falta de estrutura, limitações técnicas e filas prolongam um sofrimento que vai além da doença

JOANICE DE DEUS Da Reportagem DC
Reconstrução mamária faz parte do tratamento e é um direito garantido por lei

Vencer o câncer de mama nem sempre significa o fim do tratamento. Para centenas de mulheres mato-grossenses, a cura da doença representa apenas o início de uma nova etapa marcada pela espera por uma cirurgia que pode devolver não apenas a mama retirada, mas também parte da autoestima, da identidade feminina e da qualidade de vida.

Embora a legislação brasileira determine que pacientes submetidas à mastectomia tenham direito à reconstrução mamária pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a realidade ainda está distante do que prevê a lei. Em Mato Grosso, entre 200 e 210 mulheres aguardavam, até maio deste ano, pela cirurgia reparadora. Em todo o país, estima-se que 70% a 80% das pacientes mastectomizadas na rede pública não consigam realizar a reconstrução, segundo a Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM).

Os números refletem um problema que tende a crescer. O câncer de mama é o tipo de tumor mais frequente entre as mulheres brasileiras, excluindo os casos de câncer de pele não melanoma. Em Mato Grosso, centenas de novos diagnósticos são registrados todos os anos, aumentando a demanda por cirurgias, tratamentos complementares e, posteriormente, pelos procedimentos de reconstrução mamária.

A demora transforma um procedimento previsto como parte do tratamento oncológico em mais uma etapa de sofrimento para quem já enfrentou cirurgias, sessões de quimioterapia, radioterapia e o impacto emocional provocado pelo diagnóstico.

“Nem todas conseguem fazer essa reconstrução. Muitas vezes existe o direito, mas ele não se concretiza. Há pacientes que precis

Fundadora e presidente da Associação de Apoio aos Pacientes Oncológicos de Cuiabá (AAPOC), Janaína Santana

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Fundadora e presidente da Associação de Apoio aos Pacientes Oncológicos de Cuiabá (AAPOC), Janaína Santana

am da prótese, outras precisam do expansor, e isso nem sempre é oferecido pelo SUS”, afirma Janaína Santana, presidente da Associação de Apoio aos Pacientes Oncológicos de Cuiabá (AAPOC).

 

Ela lembra que algumas mulheres conseguem apenas a reconstrução da mama retirada, mas permanecem com assimetria porque o sistema público nem sempre oferece a simetrização da mama saudável quando existe indicação médica. Em outras situações, a limitação está na indisponibilidade de materiais indispensáveis ao procedimento.

Um dos principais obstáculos é justamente o expansor de tecido, dispositivo utilizado para preparar a pele antes da colocação definitiva da prótese em pacientes que passaram por radioterapia ou apresentam perda importante de tecido mamário. O equipamento, que pode custar mais do que a própria prótese, não é disponibilizado em todos os serviços públicos, restringindo as possibilidades de reconstrução para parte das pacientes.

Apesar das dificuldades, especialistas alertam que a reconstrução mamária não deve ser encarada apenas como um procedimento estético.

“O câncer de mama atinge mulheres em plena fase produtiva da vida. A reconstrução melhora a imagem corporal, reduz sintomas de ansiedade e depressão, facilita o retorno ao convívio social e ajuda a paciente a retomar sua rotina com mais segurança e qualidade de vida”, explica o mastologista Luís Fernando Barros, presidente da Sociedade Brasileira de Mastologia em Mato Grosso e coordenador do Serviço de Reconstrução Mamária do Hospital de Câncer de Mato Grosso.

Segundo ele, entretanto, nem toda paciente pode ser submetida imediatamente ao procedimento.

A indicação depende da extensão da doença, do estado clínico da mulher, da necessidade de tratamentos complementares, especialmente a radioterapia, e da avaliação da equipe médica.

“Muitas pacientes têm o direito garantido por lei, mas isso não significa que exista indicação técnica para a reconstrução imediata. Em alguns casos, esperar representa mais segurança para a própria paciente e permite alcançar um resultado melhor no futuro”, explica.

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Essa distinção ajuda a esclarecer parte da fila existente no sistema público, mas não explica toda a demora.

Hoje, outro gargalo está na própria organização da assistência oncológica. A legislação obriga apenas os Centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Cacons) a oferecerem a reconstrução mamária. Já nas Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacons), responsáveis por grande parte dos tratamentos contra o câncer no país, a realização da cirurgia continua sendo facultativa. Na prática, muitas mulheres fazem a mastectomia em um hospital e precisam ingressar em uma nova fila para conseguir a reconstrução em outra unidade habilitada.

No Hospital de Câncer de Mato Grosso, referência estadual para esse tipo de procedimento, são realizadas, em média, entre oito e dez reconstruções mamárias por mês. A direção da instituição apresentou à Assembleia Legislativa um projeto para ampliar a capacidade de atendimento, com a criação de uma nova sala cirúrgica exclusiva para reconstruções e aumento da oferta de procedimentos.

Enquanto isso, novas pacientes continuam chegando ao sistema, fazendo com que a fila se renove constantemente.

Nos últimos anos, a legislação brasileira avançou na tentativa de ampliar esse direito. Desde 2025, uma lei de autoria da senadora Margareth Buzetti (PSD-MT) passou a garantir a reconstrução mamária pelo SUS também para mulheres que sofreram mutilações decorrentes de acidentes, queimaduras ou malformações congênitas, ampliando o alcance da política pública.

Para especialistas e entidades de apoio às pacientes, o desafio agora é fazer com que o direito previsto na legislação seja efetivamente cumprido. Afinal, reconstruir a mama significa muito mais do que restaurar a aparência física. É devolver autoestima, segurança, dignidade e contribuir para que mulheres que venceram o câncer possam, enfim, encerrar uma das etapas mais difíceis de suas vidas.

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