REPORTAGEM ESPECIAL – FLOR RIBEIRINHA
Grupo mato-grossense conquista o 5º título mundial na Turquia. Tradição é referência internacional da cultura popular brasileira
Especial para o DIÁRIO DC
Cinco vezes campeão do mundo.
Poucas manifestações culturais brasileiras podem ostentar um feito dessa dimensão.
Em um festival que reuniu representantes de 38 países diante de um público estimado em 70 mil pessoas, o grupo Flor Ribeirinha voltou a colocar o Brasil no lugar mais alto do pódio e escreveu mais um capítulo de uma história que começou muito longe dos grandes teatros e das arenas internacionais.
Começou em um quintal de chão batido, na comunidade São Gonçalo Beira Rio, às margens do Rio Cuiabá, onde uma mulher decidiu que o siriri e o cururu não desapareceriam enquanto ela tivesse forças para cantar, dançar e ensinar.
A conquista do quinto título mundial, alcançada no 27º Festival Mundial de Folclore, em Istambul, na Turquia, representa muito mais do que um troféu.
É o reconhecimento internacional de uma identidade cultural construída ao longo de cinco décadas por moradores de uma das comunidades mais tradicionais de Cuiabá. É também a confirmação de que uma manifestação regional, muitas vezes restrita às festas populares do interior de Mato Grosso, tornou-se patrimônio cultural admirado em diferentes continentes.
No centro dessa história está Domingas Leonor da Silva, conhecida simplesmente como Vó Domingas.
Aos 72 anos, completados em fevereiro, ela observa com serenidade uma trajetória que ultrapassou tudo o que poderia imaginar quando começou a reunir vizinhos e familiares para cantar e dançar no quintal de casa.
De aparência frágil, mas dona de uma disposição impressionante, ela transformou a própria vida em sinônimo de resistência cultural.
Descendente de indígenas por parte de mãe e de paraguaios por parte de pai, Vó Domingas cresceu cercada pelas manifestações populares que ajudaram a formar a identidade cuiabana.
A avó materna, conhecida como Tola, viveu até os 110 anos e transmitiu à família parte dos saberes tradicionais que atravessaram gerações. O pai, morador de Assunção, era harpista.
Entre influências indígenas, paraguaias e pantaneiras, Domingas construiu uma relação profunda com a música, a dança e o artesanato, tornando-se também uma reconhecida ceramista e, mais tarde, produtora cultural.
Foi nesse ambiente que nasceu sua missão de preservar o siriri e o cururu, expressões populares que durante muito tempo sobreviveram graças ao esforço das próprias comunidades.
Antes mesmo da criação oficial do Flor Ribeirinha, em julho de 1995, ela já liderava o grupo Nova Esperança, também formado em São Gonçalo Beira Rio.
A iniciativa reunia moradores da comunidade em torno da música, da dança e da convivência, fortalecendo uma tradição que corria o risco de perder espaço diante das transformações sociais e culturais vividas pelo Estado.
São Gonçalo Beira Rio não é um cenário qualquer nessa história.
A comunidade, reconhecida como um dos berços históricos de Cuiabá, preserva até hoje costumes, culinária, religiosidade, cerâmica e manifestações culturais que ajudam a explicar a formação da capital mato-grossense.
Foi desse ambiente que surgiu o Flor Ribeirinha, carregando consigo não apenas uma expressão artística, mas uma maneira de compreender e celebrar a identidade regional.
Quando o grupo começou, ninguém imaginava que aquele conjunto de dançarinos pisaria nos maiores palcos do planeta.
O objetivo era simples: manter viva uma tradição popular.
Aos poucos, porém, o talento dos integrantes, a dedicação de Dona Domingas e o envolvimento da comunidade fizeram o Flor Ribeirinha ganhar reconhecimento dentro de Mato Grosso e, posteriormente, em outros estados brasileiros.
Hoje, quem conduz essa trajetória é Avinner Augusto, de 35 anos, neto de Dona Domingas.
Ainda criança, ele acompanhava os ensaios realizados no quintal da avó. Cresceu entre músicos, dançarinos e artesãos, absorvendo naturalmente os valores que moldaram o grupo.
Com o tempo, assumiu responsabilidades, tornou-se coreógrafo, diretor artístico e, posteriormente, diretor-geral da companhia.
Sob seu comando, o Flor Ribeirinha iniciou uma profunda transformação.
Sem abandonar o siriri como essência do espetáculo, passou a dialogar com outras manifestações da cultura popular brasileira.
Samba, frevo, boi-bumbá, danças gaúchas e outras expressões passaram a integrar uma narrativa artística construída para apresentar ao mundo a diversidade cultural do Brasil, sempre retornando às raízes mato-grossenses como ponto alto da apresentação.
A mudança exigiu coragem. Havia quem temesse que o grupo perdesse sua identidade ao incorporar novos ritmos.
O tempo mostrou justamente o contrário.
Ao ampliar seu repertório, o Flor Ribeirinha fortaleceu o protagonismo do siriri, apresentando-o dentro de um espetáculo que contextualiza a riqueza da cultura brasileira e conduz naturalmente o público internacional até Mato Grosso.
Essa transformação, porém, não aconteceu por acaso.
Foi resultado de anos de aprendizado, pesquisas, intercâmbios culturais e muito trabalho coletivo. O grupo passou a dialogar com pesquisadores, coreógrafos e companhias de diferentes regiões do país.
A experiência permitiu aprimorar figurinos, cenografia, iluminação, preparação corporal e construção narrativa, elevando o nível artístico das apresentações sem romper com suas origens.
Mesmo diante dessa evolução, o espírito comunitário jamais foi abandonado.
O Flor Ribeirinha continua tendo no quintal de Vó Domingas um símbolo permanente de sua identidade.
É ali que muitos integrantes iniciaram a convivência com o grupo, aprenderam as primeiras músicas e descobriram que a cultura popular também pode transformar vidas.
Para Dona Domingas, cada viagem internacional representa uma recompensa por décadas de trabalho silencioso.
“São cinquenta anos de vida cultural, de luta, muito sacrifício e muitas noites sem dormir.
Mas ver nossa cultura sendo aplaudida por milhares de pessoas em outros países faz tudo valer a pena”, afirma.
Ela lembra que uma das maiores emoções acontece justamente antes das apresentações.
Quando o sistema de som anuncia a entrada do Brasil e os integrantes do Flor Ribeirinha ocupam o palco, a reação costuma surpreender até os próprios artistas.
“No último festival, com representantes de 38 países, quando o Brasil entrou em cena, o público inteiro se levantou para aplaudir. Eles reconhecem nossa identidade. É emocionante.”
O reconhecimento internacional contrasta com uma realidade que nem sempre foi fácil. Durante muitos anos, o grupo enfrentou dificuldades financeiras, limitações estruturais e pouca visibilidade fora de Mato Grosso.
Os integrantes precisavam conciliar ensaios com trabalho, estudo e responsabilidades familiares. Viajar para festivais nacionais já representava um enorme desafio logístico e financeiro.
Foi justamente em uma dessas viagens que a história do Flor Ribeirinha mudaria para sempre.
Em 2013, o grupo decidiu participar do Festival de Dança de Joinville, considerado o maior da América Latina e uma das principais vitrines da dança mundial.
Sem recursos suficientes, viajou em um ônibus antigo conseguido por meio de apoio do Governo de Mato Grosso.
Ninguém imaginava que aquela apresentação marcaria o início da caminhada rumo aos principais festivais internacionais.
No palco principal de Joinville, porém, um imprevisto quase colocou tudo a perder. Durante a apresentação, a energia elétrica acabou. O
silêncio tomou conta do teatro. Em vez de interromper o espetáculo, músicos e dançarinos fizeram o que aprenderam desde o início da trajetória: continuaram cantando e dançando.
A apresentação terminou sob aplausos intensos do público.
Os integrantes deixaram o palco emocionados e acreditando que haviam perdido a oportunidade mais importante da carreira.
Na manhã seguinte descobriram que, justamente por causa daquela demonstração de profissionalismo e entrega, haviam sido convidados para uma segunda apresentação.
Era o começo de uma nova história.
O que parecia apenas um reconhecimento pelo profissionalismo demonstrado em Joinville acabou se tornando o ponto de inflexão da história do Flor Ribeirinha.
A segunda apresentação no festival catarinense atraiu ainda mais atenção do público e dos organizadores.
Mais importante que os aplausos, porém, foi um encontro que mudaria o destino do grupo.
Entre os espectadores estava Régis Bastian, atual presidente do Setor América da Federação de Festivais Internacionais de Dança (Fidaf) e presidente da Comissão Mundial de Festivais.
Experiente na organização de grandes eventos folclóricos ao redor do mundo, ele enxergou potencial em um grupo que apresentava uma manifestação cultural praticamente desconhecida fora de Mato Grosso.
Depois da apresentação, Bastian procurou Avinner Augusto e fez uma pergunta que parecia ousada para quem até então lutava apenas para manter viva uma tradição regional.
“Você nunca sonhou em levar o siriri para o mundo?”
A pergunta ficou ecoando na cabeça do jovem coreógrafo. Mas ela veio acompanhada de um conselho decisivo.
Para competir nos grandes festivais internacionais, explicou Bastian, o grupo precisaria ampliar seu espetáculo. Não bastava apresentar apenas uma manifestação regional.
Era necessário construir uma narrativa que mostrasse a diversidade da cultura brasileira sem perder a identidade mato-grossense.
O desafio foi aceito.
Nos anos seguintes, o Flor Ribeirinha iniciou um intenso processo de profissionalização.
Vieram intercâmbios com grupos reconhecidos nacionalmente, como o Oré Anacã, da Universidade Federal do Ceará; o Tchê, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; e o Maracatu Nação Pernambuco.
Também passaram a colaborar com o grupo pesquisadores, professores e coreógrafos como Beleni Grando, Verônica Weber, Daniele Morais, Altamiro Barcelos, Marcos Moura e o bailarino Paulo Medina, um dos grandes incentivadores da dança em Mato Grosso.
O resultado foi uma transformação artística sem romper com as origens.
O siriri permaneceu como protagonista, mas passou a dialogar com outras manifestações populares brasileiras. Samba, frevo, boi-bumbá, danças gaúchas e ritmos de diferentes regiões passaram a compor uma grande viagem pelo Brasil.
Ao final dessa narrativa, o espetáculo sempre retorna às margens do Rio Cuiabá, reafirmando que toda aquela riqueza cultural nasce, simbolicamente, no quintal de Dona Domingas.
Essa evolução artística provocou debates entre estudiosos da cultura popular. Havia quem enxergasse o risco de descaracterização da tradição.
Para Jan Moura, secretário-adjunto de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso e doutor em Estudos de Cultura Contemporânea pela Universidade Federal de Mato Grosso, ocorreu exatamente o contrário.
Segundo ele, cultura popular não é uma peça de museu.
“O Flor Ribeirinha precisou adquirir uma versatilidade maior para disputar festivais internacionais. Mas isso não significou abandonar o siriri. Ao contrário. O espetáculo percorre diferentes regiões do Brasil e retorna a Mato Grosso celebrando nossa identidade. Essa construção narrativa fortalece o legado cultural”, avalia.
Enquanto aprimorava sua linguagem artística, o grupo começava a colher resultados inéditos.
O primeiro grande passo aconteceu em 2016, quando conquistou o vice-campeonato mundial no Cheonan World Dance Festival, na Coreia do Sul.
O resultado mostrou que a aposta na profissionalização estava no caminho certo.
No ano seguinte veio a consagração.
Na Turquia, durante o Festival Internacional de Büyükçekmece, o Flor Ribeirinha conquistou seu primeiro título mundial.
Para Avinner Augusto, aquele momento permanece vivo na memória.
“Era um sonho que parecia distante.
A cada anúncio dos vencedores, imaginávamos que não seria daquela vez.
Quando vimos a bandeira do Brasil aparecer em primeiro lugar, demoramos alguns segundos para acreditar no que estava acontecendo.”
A conquista mudou definitivamente o patamar do grupo.
Convites para festivais internacionais passaram a chegar com frequência. Vieram apresentações em diversos países, intercâmbios culturais e um reconhecimento que ultrapassava o universo da dança.
Em 2018, o Flor Ribeirinha foi escolhido para representar o Brasil durante a Copa do Mundo de Futebol, realizada na Rússia, levando novamente o siriri para um dos maiores eventos esportivos do planeta.
Os anos seguintes consolidaram a trajetória.
Em 2021, conquistou o título mundial na Polônia.
Em 2022, repetiu o feito na Bulgária.
Em 2023, voltou ao topo do mundo na Coreia do Sul.
Agora, em 2026, retornou à Turquia para conquistar o quinto campeonato mundial e consolidar uma sequência raramente alcançada por grupos folclóricos em qualquer parte do planeta.
Para Avinner, cada vitória possui um significado diferente.
“A primeira representou a realização de um sonho. Esta última simboliza a confirmação de uma trajetória construída com muito trabalho. Defender um histórico de vitórias é ainda mais difícil do que conquistar o primeiro título.”
Segundo ele, a emoção continua sendo a mesma.
“Quando percebemos o público internacional aplaudindo de pé uma manifestação cultural nascida em Mato Grosso, entendemos que nossa missão vai muito além da dança. Estamos levando nossa identidade para pessoas que muitas vezes nunca ouviram falar de Cuiabá.”
Curiosamente, o reconhecimento internacional nem sempre encontra a mesma dimensão dentro do próprio Brasil.
Dona Domingas costuma dizer que o Flor Ribeirinha ainda é mais valorizado no exterior do que em casa.
Mesmo acumulando títulos, o grupo continua enfrentando dificuldades financeiras.
A recente viagem à Turquia só foi possível graças à união de diferentes parceiros.
O Governo de Mato Grosso, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel), destinou R$ 750 mil para a participação do grupo.
Empresas privadas como Energisa, Malai Manso Resort, Bodytech Goiabeiras, Shopping Goiabeiras, Bioóleo e a própria Fidaf também contribuíram para tornar possível a participação no festival.
Ainda assim, foi necessário organizar apresentações no Teatro Universitário da Universidade Federal de Mato Grosso antes da viagem para arrecadar recursos destinados às despesas da delegação.
A realidade financeira afeta principalmente os projetos sociais desenvolvidos pela Associação Cultural Flor Ribeirinha.
Iniciativas como o Sementinha, voltado à formação de crianças e adolescentes, além de atividades direcionadas à terceira idade, precisaram ser suspensas neste ano por falta de recursos.
É justamente essa dimensão social que Avinner considera o maior desafio para o futuro.
“O nosso objetivo nunca foi apenas ganhar campeonatos. Queremos fortalecer a cultura popular, formar novas gerações de artistas e utilizar a arte como instrumento de transformação social. O maior desafio continua sendo garantir sustentabilidade para que esse trabalho permaneça vivo.”
Ao ouvir o neto falar, Dona Domingas sorri discretamente.
Ela ainda o chama de “mascotinho”, como fazia quando ele era criança e corria entre os músicos durante os ensaios realizados no quintal da família.
Hoje, é nele que deposita a esperança de continuidade de um legado construído ao longo de cinco décadas.
“Ele é meu braço direito. Só peço a Deus que continue dando saúde e muita energia para que ele siga conduzindo o Flor Ribeirinha.”
Mais do que uma companhia de dança, o Flor Ribeirinha tornou-se um símbolo da capacidade de Mato Grosso de produzir cultura com identidade, excelência e reconhecimento internacional.
Num tempo em que muitas tradições populares lutam para sobreviver, o grupo demonstra que preservar não significa permanecer parado. Pelo contrário.
É justamente porque soube respeitar suas raízes enquanto dialogava com o mundo que o Flor Ribeirinha transformou um pequeno quintal da comunidade São Gonçalo Beira Rio em um dos mais respeitados palcos da cultura popular internacional.
Cinco títulos mundiais ajudam a explicar esse sucesso. Mas eles não contam toda a história.
A verdadeira conquista talvez seja outra: provar que o som da viola de cocho, o compasso do mocho, o balanço do ganzá e o ritmo contagiante do siriri continuam encontrando novos públicos, novas gerações e novos continentes, sem perder o cheiro de terra, o calor humano e a alma cuiabana que sempre fizeram do Flor Ribeirinha muito mais do que um grupo de dança.
É essa combinação entre tradição, inovação e pertencimento que transforma uma história iniciada às margens do Rio Cuiabá em um patrimônio cultural que hoje pertence ao mundo.
AS ORIGENS DO FLOR RIBEIRINHA
Manter o Grupo Flor Ribeirinha não é tarefa simples, principalmente diante do elevado nível de exigência dos festivais internacionais dos quais participa.
Mesmo quando transporte, hospedagem e alimentação são custeados pelos organizadores ou patrocinadores, é comum que integrantes da delegação vendam rifas e promovam outras ações para arrecadar recursos destinados às despesas da viagem.
Desde 2018, o grupo conta com o maestro, arranjador, compositor e cantor Jefferson Neves, fundador e regente do Coro Experimental de Mato Grosso.
Ele divide os vocais masculinos com o veterano Edmilson Maciel e assumiu a direção musical do Flor Ribeirinha, que também ampliou o número de cantores responsáveis pelo backing vocal.
Ao lado de Dona Domingas, de sua filha Edilaine e de outros moradores da comunidade São Gonçalo Beira Rio, eles ajudam a dar ainda mais força às apresentações.
Apesar dos desafios atuais, as dificuldades enfrentadas pelos pioneiros foram muito maiores.
“Minha mãe e meu tio Candi, que já faleceu e foi um dos responsáveis pela retomada do siriri, saíam do São Gonçalo e iam até o bairro do Porto a pé para comprar retalhos de tecido para confeccionar os primeiros figurinos.
Na volta, se sobrava algum dinheiro, pegavam ônibus até o Coxipó. Às vezes, faziam o percurso de canoa”, recorda Edilaine.
O primeiro grupo criado por Dona Domingas, ao lado do tio paterno, recebeu o nome de Nova Esperança. Era formado principalmente por pessoas idosas, guardiãs das tradições do siriri e do cururu.
O grupo conquistou reconhecimento, mas, com o passar dos anos, muitos integrantes faleceram. Temendo que aquele patrimônio cultural desaparecesse, Domingas decidiu reunir as crianças da comunidade para garantir a continuidade da tradição.
Entre os primeiros participantes estavam seus filhos Erivelto e Ronair, então com 12 e 10 anos.
“Não havia energia elétrica no quintal. Começamos com sete ou oito crianças, numa noite de luar.
Na segunda noite já eram quinze. Quando percebemos, o quintal estava cheio de gente.
Eles aprenderam os primeiros passos de ‘Nandaia’ e, quando vimos que o grupo estava bonito e ensaiado, pensamos que precisava ter um nome.
Quem sabe assim alguém nos contratava e a gente conseguia sair da comunidade?”, lembra a fundadora.
A escolha do nome também nasceu de forma espontânea.
Dona Domingas havia pedido que as crianças e seus pais levassem sugestões escritas em um pedaço de papel.
Antes da reunião, porém, enquanto buscava água no Rio Cuiabá — numa época em que a comunidade ainda não contava com água encanada —, ela se encantou com um aguapé coberto de flores brancas.
Naquele instante surgiu a inspiração.
Quando todos apresentaram suas sugestões, muitas continham a palavra “flor”.
A proposta de Dona Domingas, Flor Ribeirinha, conquistou imediatamente a preferência do grupo e passou a identificar a companhia que, anos depois, se tornaria referência da cultura popular brasileira.
Mais de três décadas depois, o nome continua encantando plateias em diferentes partes do mundo.
A cantora, compositora e escritora Vera Capilé, reconhecida como Mestra da Cultura, acompanha essa trajetória desde o início.
Ela conta que conheceu Dona Domingas em 1994, por intermédio de seu companheiro, o professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Waldir Bertúlio.
“Foi justamente naquele ano que Domingas deu nome ao grupo. Sempre me encantei com o Flor Ribeirinha. Acompanhei sua caminhada passo a passo. Ela é uma guerreira”, afirma.
Segundo Vera, Waldir Bertúlio foi um dos primeiros incentivadores do grupo e é considerado por Dona Domingas um verdadeiro padrinho da companhia.
Ela lembra ainda que a dupla Vera & Zuleika sempre apoiou o trabalho desenvolvido em São Gonçalo Beira Rio e chegou a compor a música Moringa em homenagem à fundadora.
A cantora também guarda na memória um momento marcante vivido ao lado do grupo.
“Participei de um Festival de Siriri em 2005, a convite da Domingas. Havia cerca de 10 mil pessoas no antigo Verdão.
Foi mágico. Até hoje me emociono quando lembro daquele dia.”
A conquista do quinto título mundial, na Turquia, também despertou forte emoção.
“Todos os troféus conquistados são importantes porque mostram a seriedade com que o Flor Ribeirinha faz sua arte. Mas este tem um significado especial.
Foi justamente na Turquia que eles conquistaram o primeiro título internacional e começaram a mostrar ao mundo tudo o que temos de belo, alegre e autêntico em Cuiabá.
Viva o Flor Ribeirinha e torna a revivar!”, celebra.
O orgulho pelo sucesso internacional do grupo é compartilhado por diversos artistas e intelectuais mato-grossenses.
Um deles é o músico Milton Pereira de Pinho, o Guapo, considerado uma das maiores referências da cultura pantaneira e do rasqueado mato-grossense.
Segundo ele, o trabalho desenvolvido pelo Flor Ribeirinha representa a consolidação de um movimento iniciado na década de 1980.
“Quando lançamos, em 1986, a Vanguarda Nativista, ao lado de Vera Bagetti, Zuleika Arruda, Marques Caraí e Julio Jerez, começamos a defender uma nova forma de cantar, pintar, escrever e retratar Mato Grosso.
Muitos artistas surgiram naquele período, mas o Flor Ribeirinha foi além. Hoje leva essa ideologia cultural para o mundo e mostra que o Pantanal, a Amazônia e a cultura mato-grossense possuem valor universal”, afirma.
A editora Maria Teresa Carrión Carracedo, da Entrelinhas Editora, também considera o grupo um dos maiores embaixadores da identidade cultural do Estado.
Para ela, o reconhecimento conquistado pelo Flor Ribeirinha reforça a riqueza de uma cultura construída pela convivência entre diferentes povos ao longo de mais de três séculos de história.
“O mato-grossense precisa sentir orgulho desse reconhecimento internacional. Artistas e grupos como o Flor Ribeirinha mostram ao mundo o valor da nossa cultura popular. Espero que essa conquista desperte o interesse e o respeito de pessoas que vivem em Mato Grosso, principalmente nas regiões de ocupação mais recente, e que muitas vezes desconhecem ou subestimam a riqueza cultural deste território. É uma cultura única, que merece ser conhecida, valorizada e preservada”, afirma.
UMA FLOR QUE SE RENOVA
Um dos maiores trunfos do Flor Ribeirinha é sua capacidade de se renovar.
Ao longo de mais de três décadas, gerações de dançarinos passaram pelo grupo, deixando sua contribuição para uma trajetória marcada por conquistas internacionais.
Alguns seguiram outros caminhos, mas continuam acompanhando com orgulho o crescimento da companhia criada por Dona Domingas.
É o caso de Francismar Petini e Jefferson Rodrigo, que participaram das primeiras conquistas internacionais do Flor Ribeirinha.
Ambos vieram do Grupo Chalana, de Cáceres, fundado e dirigido por Luiz Tolotti, outra referência da dança folclórica mato-grossense. Hoje já não integram o elenco, mas seguem celebrando cada novo título conquistado pelo grupo.
Essa renovação acontece de forma natural.
À medida que os veteranos encerram seus ciclos, novos dançarinos chegam com preparo físico, dedicação e disposição para enfrentar a intensa rotina de ensaios e apresentações, mantendo vivo o legado construído pela comunidade de São Gonçalo Beira Rio.
Entre eles está o cacerense Ismael Diniz, de 28 anos. Integrante do Flor Ribeirinha há cinco anos, ele atua como dançarino, coreógrafo e professor dos projetos sociais desenvolvidos pela Associação Cultural Flor Ribeirinha.
Ator, diretor e professor de teatro, Ismael também ganhou destaque neste ano ao interpretar Ney Matogrosso no espetáculo Um Ney para Cada Um, apresentado pelo Coro Experimental de Mato Grosso, no Cine Teatro Cuiabá.
Na recente conquista do pentacampeonato mundial, na Turquia, ele foi um dos destaques do espetáculo ao interpretar o solo de frevo. A emoção da vitória, conta, só foi compreendida de fato depois que as comemorações terminaram.
“Na hora fiquei sem reação. Só conseguia olhar para a tela e ver todo o grupo vibrando com aquela conquista. Depois das fotos, dos vídeos e das comemorações, quando entramos no ônibus para voltar ao hotel, fui tomado por tudo o que tinha acontecido. A ficha finalmente caiu.”
Naquele momento, vieram à memória as dificuldades enfrentadas desde que ingressou no grupo, em 2021.
“Lembrei de todos os desafios para conseguir participar dos ensaios e das atividades. Naquele instante percebi que tudo tinha valido a pena. Representar Mato Grosso e o Brasil ao lado dessas pessoas, com a bênção da Vó Domingas e a direção do Avinner, é algo impossível de explicar. O sentimento é de gratidão por fazer parte de um trabalho coletivo tão bonito.”
Se Ismael representa a renovação que chega de fora, Ananda Cristina da Rocha Parreira simboliza a continuidade dentro da própria família que fundou o Flor Ribeirinha.
Neta de Dona Domingas e filha de Erivelto, ela participa do grupo há 15 anos. Hoje, aos 25 anos, já integra o time de veteranos, conciliando a carreira artística com o curso de Agronomia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
“Nasci e cresci na cultura popular”, resume.
Ananda viveu dois momentos históricos da companhia. Em 2017, participou da conquista do primeiro título mundial, na Turquia. Nove anos depois, voltou ao mesmo país para celebrar o pentacampeonato.
Segundo ela, a emoção foi praticamente a mesma.
“Quando subi para a cerimônia de abertura, parecia que o tempo tinha voltado. Revivi todas as emoções de 2017. Foi um misto de ansiedade, gratidão e orgulho. Enquanto os grupos eram premiados, meu coração já estava em paz porque eu conhecia toda a dedicação da nossa equipe. Foram meses de ensaios, investimento, tempo, esforço e muito amor pela nossa cultura.”
O anúncio do Brasil como campeão fez com que passado e presente se encontrassem em poucos segundos.
“Quando anunciaram o Brasil como vencedor, só consegui agradecer a Deus. Naquele instante parecia que eu viajava entre 2017 e 2026. Revivi cada lembrança, cada conquista e cada emoção.”
Para a jovem dançarina, segurar o quinto troféu mundial teve um significado ainda mais profundo.
“Esse título confirma que estou dando continuidade ao legado que minha avó sempre sonhou construir: ver sua família mantendo viva a cultura popular e levando a nossa história para o mundo. Não é apenas uma vitória. É a certeza de que vale a pena continuar acreditando, preservando nossas raízes e honrando tudo o que ela construiu.”
É justamente essa capacidade de unir tradição e renovação que explica a longevidade do Flor Ribeirinha. Novos artistas chegam, veteranos seguem inspirando as gerações mais jovens e a família de Dona Domingas continua ocupando papel central na preservação de uma história que, iniciada em um quintal de São Gonçalo Beira Rio, hoje emociona plateias em diferentes continentes.
UMA FLOR QUE INSPIRA
O sucesso internacional do Flor Ribeirinha nos últimos anos abriu caminho para que outros grupos de siriri também ultrapassassem as divisas de Mato Grosso e levassem a cultura popular mato-grossense para novos públicos.
Nos primeiros dias de agosto, o Grupo Flor de Atalaia iniciou uma série de apresentações em Portugal e na Espanha dentro do projeto “Siriri por Toda Parte – Turnê Internacional 2026”.
Assim como ocorreu com o Flor Ribeirinha na recente viagem à Turquia, a iniciativa contou com apoio financeiro da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT) e de outros parceiros.
Nesse caso, o repasse dos recursos ocorreu por inexigibilidade de licitação, modalidade prevista na legislação para situações em que há convite específico para participação em determinado evento, dispensando a realização de chamamento público.
A Secel também apoia a participação de outros grupos em festivais nacionais.
O Vitória Régia, de Cáceres, participa do tradicional Festival do Folclore de Olímpia (SP), enquanto o Flor do Campo, do bairro Parque Ohara, em Cuiabá, representou Mato Grosso no Festival Folclórico de Quinta do Sol (Fefosol), no Paraná.
Para o secretário-adjunto de Cultura da Secel, Jan Moura, a presença dos grupos em festivais nacionais representa o primeiro passo para voos ainda maiores.
É nesses eventos que estão curadores e organizadores de festivais nacionais e internacionais. Desses contatos surgem novos convites.
O Flor Ribeirinha abriu caminhos e mostrou que um grupo de Mato Grosso pode conquistar o mundo. Agora outros grupos seguem essa trilha”, afirma.
Segundo Moura, o fortalecimento do movimento também passa pela articulação entre os próprios grupos de siriri, hoje reunidos no Instituto Nandaia, presidido por Avinner Augusto.
A entidade tem buscado ampliar os espaços de apresentação da dança tradicional, incentivando a participação dos grupos em eventos institucionais, culturais e empresariais realizados em Mato Grosso. A estratégia ajuda a aproximar novos públicos do siriri e amplia a visibilidade da manifestação cultural.
Outro importante instrumento de fortalecimento é o Festival de Cururu e Siriri, que voltou a ser realizado anualmente.
Por decisão dos próprios grupos, o evento deixou de ter caráter competitivo e passou a privilegiar o intercâmbio cultural e a valorização das tradições. A edição mais recente foi realizada em maio deste ano, na Arena Pantanal, em Cuiabá.
Embora reconheça os avanços, Jan Moura avalia que os investimentos públicos ainda estão abaixo da demanda existente.
Como exemplo, cita a última edição do edital da Lei Aldir Blanc em Mato Grosso.
Dos cerca de dois mil projetos inscritos, apenas 200 receberam recursos.
Mesmo assim, ele acredita que a continuidade dos editais de incentivo e de outras políticas públicas voltadas à cultura tem contribuído para uma maior organização e profissionalização dos grupos de cururu e siriri.
“Hoje vemos companhias mais estruturadas, desenvolvendo projetos permanentes de formação de crianças, adolescentes e novos dançarinos. Isso fortalece a cadeia da cultura popular e garante maior continuidade ao trabalho realizado pelos grupos.”
Se o futuro do siriri inspira otimismo, o mesmo não ocorre com o cururu.
Jan Moura demonstra preocupação com a dificuldade de renovação dessa manifestação tradicional, que desperta menor interesse entre os jovens.
“O siriri consegue atrair mais facilmente as novas gerações por causa da dança e do aspecto mais festivo.
Já o cururu enfrenta um desafio maior para renovar seus praticantes. Precisamos encontrar formas de estimular esse interesse para preservar uma tradição que também faz parte da identidade cultural de Mato Grosso.”
Tradicionalmente executado por homens, o cururu é marcado por cantorias em roda, versos improvisados e forte conteúdo religioso. As apresentações costumam ocorrer durante festas de santos, acompanhadas pelos sons da viola de cocho, do mocho e do ganzá.
Para os defensores da cultura popular, preservar o cururu e fortalecer o siriri são missões complementares. Afinal, ambas as manifestações nasceram da mesma matriz cultural e ajudam a contar a história das comunidades ribeirinhas que moldaram a identidade de Mato Grosso.
Nesse contexto, o sucesso do Flor Ribeirinha extrapola as fronteiras das premiações internacionais. o conquistar reconhecimento mundial, o grupo tornou-se vitrine para toda a cultura popular mato-grossense e inspiração para uma nova geração de artistas que sonha em seguir o mesmo caminho, levando o nome de Mato Grosso cada vez mais longe.
O GRANDE LEGADO DE DONA DOMINGAS
A professora e antropóloga Beleni Salete Grando, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), acompanha há décadas a trajetória de Dona Domingas Leonor da Silva e do Flor Ribeirinha.
A admiração pelo trabalho da fundadora vai além da observação acadêmica: ela nasceu da convivência e de uma parceria construída ao longo de muitos anos.
Coordenadora do projeto de extensão Bataru, da UFMT, Beleni trabalhou diretamente com Dona Domingas e também com Avinner Augusto, atual diretor-geral do Flor Ribeirinha, que foi seu aluno no curso de Educação Física.
O projeto reunia estudantes de diferentes cursos e origens com um objetivo comum: compreender e contar a história de ser cuiabano e mato-grossense a partir do siriri.
A proposta aproximava universidade e comunidade em um processo de troca permanente de saberes.
Graças a essa iniciativa, alunos da UFMT chegaram a participar de apresentações do Flor Ribeirinha, inclusive em um momento delicado da história do grupo.
Após um acidente de ônibus, em outubro de 2017, alguns dançarinos ficaram temporariamente impossibilitados de se apresentar, e os universitários ajudaram a manter os espetáculos.
Ao mesmo tempo, Dona Domingas, músicos e integrantes do Flor Ribeirinha passaram a participar das atividades promovidas pela universidade, compartilhando conhecimentos construídos ao longo de décadas de vivência na cultura popular.
Na avaliação de Beleni, essa troca beneficiou profundamente a UFMT.
Não por acaso, a instituição concedeu a Dona Domingas, em 2019, o título de Doutora Honoris Causa, reconhecimento reservado a personalidades cuja contribuição ultrapassa os limites da academia.
“O grande aprendizado que ela nos traz é compreender quem somos na relação com o outro.
Dona Domingas é uma doutora da cultura e da educação construída no corpo, na sensibilidade, no reconhecimento e na valorização de si e do outro, sem hierarquias”, afirma a professora.
Segundo Beleni, o conhecimento produzido por Dona Domingas nasce da experiência, da convivência e da transmissão de saberes entre gerações.
“É nessa troca com pessoas diferentes que aprendemos a ser melhores.”
Além da contribuição para a dança, a antropóloga destaca o trabalho desenvolvido por Dona Domingas como ceramista, atividade que também ajudou a preservar e difundir importantes tradições culturais de Mato Grosso.
A relação entre as duas se estreitou ainda na década de 1990.
Recém-formada em Educação Física pela UFMT, Beleni participou de uma iniciativa da Secretaria de Estado de Educação, durante o governo Dante de Oliveira, voltada à valorização da cultura regional nas escolas. Foi nesse período que aprendeu, diretamente com Dona Domingas, a dançar e a ensinar o siriri.
Desde então, acompanha de perto o crescimento do Flor Ribeirinha.
Para ela, o Quintal de Dona Domingas, onde funciona a Associação Cultural Flor Ribeirinha, representa muito mais do que a sede de um grupo artístico.
É um espaço de memória, pertencimento e formação cultural.
Segundo a professora, o local permite que pessoas vindas de outras regiões do país compreendam melhor a identidade cuiabana e oferece às novas gerações — inclusive filhos de famílias migrantes — a oportunidade de conhecer uma tradição que ajuda a explicar a história de Mato Grosso.
Beleni ressalta ainda que o espaço preserva características importantes dos povos originários da região, especialmente dos Coxiponés, subgrupo da etnia Bororo, cuja presença marcou profundamente a formação cultural das comunidades ribeirinhas.
“Vivendo às margens do Rio Cuiabá, Dona Domingas não representa apenas a dança.
O reconhecimento conquistado pelo Flor Ribeirinha mostra que a cultura de raiz precisa ser permanentemente alimentada. Ela nos oferece uma possibilidade de vida e de pertencimento”, afirma.
Para a antropóloga, preservar espaços como o Quintal de Dona Domingas é tão importante quanto manter vivas as músicas, as danças e as festas populares.
“Esses grupos tradicionais nos ensinam que a cultura está ligada ao território, à convivência e às relações humanas. Manter esse vínculo de pertencimento é fundamental para que essas tradições continuem fazendo sentido para as próximas gerações.”
Ao longo de mais de cinco décadas, Dona Domingas formou dançarinos, músicos, ceramistas, pesquisadores e educadores.
Inspirou crianças, acolheu universitários, abriu as portas de sua casa para visitantes do Brasil e do exterior e transformou um simples quintal em um dos mais importantes centros de preservação da cultura popular mato-grossense.
Talvez esse seja seu maior legado.
Mais do que conquistar cinco títulos mundiais ou projetar o nome de Mato Grosso no cenário internacional, Dona Domingas mostrou que tradição não é algo preso ao passado. É um patrimônio vivo, que se fortalece quando é compartilhado, ensinado e transmitido às novas gerações.
É essa herança que faz do Flor Ribeirinha muito mais do que um grupo de dança: uma escola de identidade, pertencimento e memória cultural.
Apresentação da Flor Ribeirinha em Istanbul, na Turquia


































