Quando as águas recuam e a estação seca se instala, o Pantanal muda de aparência: baías e corixos diminuem, áreas alagadas dão lugar ao solo exposto e a vegetação enfrenta a estiagem. É nesse momento, entre junho e outubro, que árvores emblemáticas da região florescem, exibindo nuances que vão do roxo e lilás ao amarelo, rosa e branco. Destacam-se o ipê-roxo, o ipê-amarelo, o ipê-branco, além de outra árvore, o cambará.
Os ipês perdem naturalmente as folhas antes da floração, o que ajuda a conservar água em períodos de baixa umidade do solo. Com a copa nua, as flores ficam mais expostas, favorecendo sua visitação pelos polinizadores.
Com frutos e brotos escassos nessa época, as flores dos ipês tornam-se uma importante fonte de alimento, do néctar às pétalas, atraindo mais de trinta espécies de aves, entre beija-flores, papagaios, sanhaços, aracuãs e araras.
Já o cambará é símbolo do pulso de inundação: tolera tanto cheias prolongadas quanto a travessia da seca. Suas flores amarelas atraem abelhas nativas, tornando-o uma planta apícola valiosa, e seus troncos e copas servem de ninhos para aves e abrigo para mamíferos.
As floradas se espalham por todo o Pantanal, mas as Estradas-Parque são os melhores eixos para observá-las: percorrem paisagens naturais e aproximam o visitante da vegetação nativa e da fauna, tornando o próprio percurso uma forma de conhecer o bioma.
A leste de Poconé, a Estrada Parque Porto Cercado (MT-370) atravessa uma vegetação que transita entre cerrado, matas de galeria e campos inundáveis. No entorno, o Hotel Sesc Porto Cercado e o Parque Sesc Baía das Pedras dão acesso a áreas onde podem ser observados ipês-roxos, ipês-amarelos e cambarás.
Na Transpantaneira (MT-060), entre Poconé e Porto Jofre, baías, corixos e campos inundáveis se sucedem diante dos nossos olhos, enquanto os ipês pontuam o horizonte com suas diferentes tonalidades, especialmente entre agosto e setembro.
Além da beleza, o ipê-amarelo, conhecido regionalmente como paratudo ou ipê-paratudo, carrega valor histórico e cultural: sua casca é usada na medicina popular contra inflamações, febres, feridas e problemas digestivos e contém compostos estudados pela ciência, como o lapachol e o especiosídeo. Esses usos tradicionais, porém, não substituem recomendações médicas.
A conservação dessas formações sustenta a vegetação nativa e os processos ecológicos da região. A floração depende de fotoperíodo, temperatura e disponibilidade de água, com respostas que variam entre espécies e regiões. As mudanças climáticas já alteram esse ritmo: secas mais severas podem antecipar a floração, e chuvas fora de época podem atrasá-la ou até interrompê-la. Um lembrete de que esse espetáculo depende de um equilíbrio que ainda pode ser conservado.
E, ainda assim, o ciclo se repete: as águas baixam, as folhas caem, as flores aparecem, e o Pantanal veste suas cores mais vivas, mais uma vez.
Miguel Moura Kehl é geógrafo e educador ambiental no Polo Socioambiental Sesc Pantanal




























